O ano da Rosa

Em 2017, eu vou caminhar de mãos dadas no calçadão do Leme e sentir a brisa no corpo e ter paciência de esperar pra poder assistir ao balé de um golfinho no mar. Mesmo que demore, ou o golfinho não venha, ou só eu o veja por dois segundos, sem testemunhas, eu vou. Quem quer vir comigo?

Vou ao Maracanã ver jogo do Flamengo em 2017, e beber depois num botequim da Tijuca, e voltar alegre pra casa, cantando no táxi, ou no uber, ou no ônibus, ou no metrô, ou na bicicleta, ou a pé, pela rua, pelo pensamento, pela madrugada. Vai ser bom.

Em 2017, vou cantar com meu filho, só nós dois, um violão, uma guitarra, um monte de música bonita, um monte de gente querida na plateia. Vamos cantar “Blackbird”, “Nádegas de Thaís”, “Amendoim e caviar”, “Meu mundo é hoje”, tantas outras canções – e vão nos aplaudir e pedir bis, e talvez a gente repita tudo depois.

O Sujinho, extensão tão criticada de quase metade da minha existência, vai ficar lindo em 2017. Prometo. Nem que seja pelo contágio de quem vier comigo a bordo. E eu vou a Teresópolis e a Búzios e a Paraty e a Morro Agudo. Muitas vezes a Morro Agudo. E a Paquetá – mas, aí, não de Sujinho. Vamos?

Eu vou dizer “não” quantas vezes eu quiser em 2017, e quem me ama vai entender, mesmo que isso signifique ter menos dinheiro do que já tenho. Vou continuar me sentindo envergonhado da estrada que um certo jornalismo tomou, um que já não me interessa, e dar boa noite de madrugada pro vizinho que não dorme, e ouvir “Love” com John Lennon no último volume até o dia amanhecer.

Ao cinema, vou muitas vezes. O Bip Bip, boteco-paraíso de Copacabana, vai voltar a ser uma rotina, tanto faz se medida, mas vai – e eu vou cantar e trocar cordas de violão e descer e subir de bicicleta a Rua Mundo Novo, Laranjeiras-Botafogo, Botafogo-Laranjeiras, tantas vezes, tantas vezes de perder a conta.

Talvez eu não precise ir nenhuma vez a qualquer cemitério, e isso vai ser bom demais. E eu vou estar muitas vezes com meus amigos, vou abraçá-los e lembrar com um sorriso dos que já se foram, mesmo que eu chore um pouco.

Vou mergulhar no mar, voltar pra areia e mergulhar de novo, e subir numa árvore, e gritar “fora Temer” na travessia da Baía de Guanabara rumo a Niterói pra fazer lá o que ainda não sei, mas saberei. Também vou dançar até o céu clarear e aproveitar cada minuto do prazer concedido.

Em 2017, vou pedir proteção a Oxalá e à Oxum e a Oxóssi e a Xangô e a Ogum e à Iemanjá e à Iansã e à Nanã Buruquê e a todos os orixás, e à Santa Rita de Cássia e à Santa Bárbara e a São Judas Tadeu e à Nossa Senhora da Glória e à Nossa Senhora da Conceição e a todas as Nossas Senhoras. E me apresentarei de pé muitas vezes diante da imagem de Nossa Senhora de Fátima, na Igreja do Cristo Redentor, e, quase sempre, sem dar vexame pra mim mesmo, por não saber rezar direito, só vou dizer baixinho: “Obrigado, Nossa Senhora, muito obrigado.”

Numa dessas vezes, talvez eu esteja com pressa de beber uma cerveja, mas Nossa Senhora não vai se importar. Eu vou pedir perdão, e ela vai perdoar.

Em 2017, uma mulher vai sorrir de manhã quando acordar do meu lado e olhar nos meus olhos, e eu vou gostar. Dentro de um avião, vou confundir uma nuvem com um algodão doce que recusei na infância – e a nuvem vai me redimir da recusa dessa vez.

O prazer que eu vou dar e sentir, dar e sentir, dar e sentir, dar e sentir, dar e sentir, dar e sentir vai ser cada vez melhor e sobreviver pra sempre na memória.

Não vou mandar em ninguém em 2017, nem ninguém mandará em mim – mas tudo que é bom e valioso e for urgente, impreterível, forçoso, imperioso, inevitável será cumprido com gozo.

Vou compor muito em 2017, e escrever muito, e falar o necessário, o imprescindível, e saber discernir o imprestável do essencial. Saberei ficar e partir, e vou lamentar pouco, quase nada, quase nada, e, se for possível, talvez nada.

“However distant, don’t keep us apart”, eu vou recitar Lennon em 2017. “Love’s free, free is love.”

Em 2017, vou fazer um gol e abrir do meu jeito vários pacotes de biscoito Globo. Vou dizer “foda-se” algumas vezes, e vai ser bom. E tomar banho de mangueira pelado no quintal, e, se me virem, vou dizer baixinho: “Foda-se.” E cantar “Negue”, do Adelino Moreira e do Enzo de Almeida, e, se acharem ridículo, vou dizer no meu pensamento: “Foda-se.”

Vou ao Jardim Botânico e ao Parque Lage, à Quinta da Boa Vista e ao Parque da Pedra Branca, ao Morro do Márcio Caulino e ao Circo Voador, ao Boteco da Juliana e à Fundição Progresso. Vou revisitar Pedra de Guaratiba e me emocionar com as lembranças da infância.

Vou pedir a bênção a uma tia que não vejo há muito tempo, comer pastel na Central do Brasil, rever uma prima e beber cerveja em Santa Teresa. Em 2017, vou me desapegar ainda mais dos significados do dinheiro e de seus aprisionamentos humanos, mas ele não vai faltar pra pagar as contas, nem as minhas alegrias comezinhas, nem as de todos que habitam o meu coração. São muitos.

Em 2017, vou me jogar na multidão do carnaval de rua e ouvir as últimas gravações do Radiohead e ouvir de novo Geraldo Pereira e Wilson Batista e Noel Rosa e mais uma vez o Radiohead e uma vez mais, e chamar uma mulher pra dançar – e ela vai aceitar meu convite, e vai ser bom, muito bom.

Uma praia sem ninguém além de mim me espera em 2017. Um beijo que não vou esquecer nunca mais, também. Uma valsa que vou compor, um samba, um bolero, um aplauso comprido, tudo isso me espera.

Abraço coletivo dos filhos, uma risada demorada, um almoço de domingo que jamais vai sair da lembrança, um convite inusitado, uma carícia inesperada, um novo abrir de olhos de manhã com o desejo aguardado me olhando, são coisas que virão em 2017.

E eu vou pegar Rosa no colo, e Rosa vai rir pra mim, e eu vou dar a mão à Rosa numa das suas primeiras caminhadas, e Rosa vai me reconhecer como parte das suas células, e ela, das minhas, e Rosa será o futuro, e o futuro vai ser bom, e eu vou andar no calçadão do Leme de mãos dadas. Quem quer vir comigo?

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5 comentários sobre “O ano da Rosa

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