A chave

Uma vez, talvez em 1991, o português Mário Soares veio ao Rio e, encantado com o litoral da cidade, quis mergulhar numa praia. O governador era Leonel Brizola. O Rio vivia um tempo em que o helicóptero oficial do governo era usado com decência. Parece incrível, mas houve esse tempo.

O piloto do helicóptero oficial era o comandante Maia. Nunca mais soube do comandante Maia. Bom sujeito.

Brizola era amigo do Mário Soares desde a segunda metade dos anos 1970, anos difíceis de ditadura por aqui, quando havia se exilado em Lisboa, depois de ser expulso pelos golpistas do Uruguai.

Com as ditaduras da América Latina já desfeitas, e Brizola no Palácio Guanabara pela segunda vez (como se sabe, pro desconforto da direita, ele já havia sido eleito em 1982), enfim, com Brizola lá, Mário Soares pôde satisfazer seu desejo de mergulhar numa praia sem aborrecimentos.

O governador convidou o então primeiro-ministro de Portugal pra um passeio de helicóptero até um certo trecho isolado do litoral. Seria um pouso arriscado, na areia, não muito recomendável, mas o comandante Maia sabia como fazer – e o Brizola confiou nele, e o Mário Soares confiou no Brizola.

Agora, só agora, tantos anos depois, eu confirmo que o tal trecho de litoral era a Prainha – e confirmo porque o Fernando Brito, meu amigo, que era o assessor de imprensa do Brizola, contou isso ainda há pouco no seu superblog, o Tijolaço, ao relatar esta mesma história (quem quiser ler pode clicar aqui, recomendo).

Conto de novo, sem as precisões e observações valiosas do Brito, porque fiz parte dessa história. De certa forma, fiz sim. Na época, eu trabalhava no “Jornal do Brasil”, onde cumpria meu noviciado como repórter de política. Uma fonte havia me contado de certos passeios do Brizola até aquele trecho de praia deserta, falado também da ida do governador com o Mário Soares, e eu escrevi uma matéria que desmontava a intenção de denúncia do uso do helicóptero oficial pra isso.

Em tempo: o Brito não me ajudou na apuração. Só não desmentiu. O Brito era assim.

A fonte que havia me revelado aquele passeio esperava uma denúncia publicada na primeira página. A imprensa era implicante com o Brizola. Até o “Jornal do Brasil” era.

Mas meu coração de repórter passou na frente da intenção da denúncia, e, com a concordância do Marcos Sá Corrêa, tão querido e tão brilhante editor-chefe do jornal, o que eu escrevi foi o relato de um passeio lúdico de dois homens de bem a uma praia deserta, dois grandes homens.

Lembrei essa história a propósito não apenas da morte do Mário Soares, sepultado nesta terça-feira, 10 de janeiro, em Lisboa, mas também como um pretexto pra falar de chaves especiais que alguns de nós encontramos na vida e de quem as encontra e sabe fazer o melhor uso delas.

Mário Soares encontrou algumas dessas chaves. Brizola também encontrou.

Aliás, com a morte do ex-primeiro-ministro e ex-presidente português, lá se foi mais um pedaço grande do século 20. Ser adulto numa virada de século, e já se passaram 17 anos desde a virada do 20 pro 21, é não estar a salvo da percepção do tempo. A gente percebe como compridos são os séculos – e assiste ao desaparecimento de homens tão necessários como o Mário Soares. Como o Brizola, que morreu em 2004.

Os séculos são tão longos. A vida é tão passageira. Acho que o Brizola e o Mário Soares souberam perceber isso naquele passeio de helicóptero até a tal praia deserta. Hoje, não há mais Brizola nem Mário Soares por aqui, e os helicópteros comprados com dinheiro público já não são usados com aquela decência. Também nem mais a Prainha é deserta.

Os dois, o gaúcho maragato Brizola, homem tão castigado pelas tentativas de enxovalho da comunicação dominante, e o político português, que dobrou a ditadura de Salazar e ascendeu com a Revolução dos Cravos, ambos tiveram chaves e abriram portas pra Humanidade entrar – e, como a Humanidade nem sempre entrou, perdemos todos.

Ter a chave pode ser apenas esperar pra assistir ao dia amanhecer sem culpa, porque vai valer a pena. Acredito de verdade que o Brizola e o Mário Soares tenham tido paciência de aguardar, pelo menos uma vez, o dia amanhecer sem culpa.

Ter a chave, às vezes, também pode ser a confissão de não saber de alguma coisa, porque só atravessa uma porta quem tem vontade de saber o que vem depois – e a vontade de saber o que vem depois é justamente a chave.

Ter a chave pode ser ainda somente ficar feliz com um gol do time do coração, ou reconhecer a beleza onde ela mora de verdade, a das pessoas e a das coisas.

Tem gente que se dá muito, mas não o bastante pra encontrar a chave. Brizola e Mário Soares se deram muito e encontraram. Pobre Brasil e pobre mundo que não entramos em portas que eles dois abriram.

Brizola fundou com Darcy Ribeiro a magnitude dos Cieps, por exemplo. A mesquinhez das elites daquele tempo, a social e a intelectual – sim, ela também, a intelectual, pena -, enterrou tanta grandeza, e apesar da doação feita pelo Brizola e pelo Darcy a chave foi desperdiçada. Estão aí, agora, três gerações, ou quase quatro, que poderiam ter tido destino diferente com os Cieps.

Chet Baker encontrou a chave do trompete. Pelé, a do gol. Sigmund Freud, a dos mistérios da alma. Marie Curie, a dos segredos da física. Van Gogh e outros, a da pintura. Virginia Woolf, a do empoderamento. Santos Dumont, a da leveza do ar. O apóstolo Paulo, a da fé. Francisco de Assis, a da compreensão dos bichos. Carlos Drummond de Andrade, a das palavras. Tantos, tantas chaves.

Mário Soares, como o Brizola, encontrou a chave da fraternidade, da compaixão pelos humildes, da dedicação sincera na luta em favor dos mais fracos e dos que mais precisam.

Vai fazer falta.

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