Fábulas

Assisti outro dia a “Capitão Fantástico”, filme americano dirigido por Matt Ross, com jeito de independente, sobre a história de um casal que decide criar os seis filhos isolados da sociedade, livres do consumismo reinante nos Estados Unidos, num casebre no meio de uma floresta do Noroeste Pacífico. Apesar do argumento recorrente e da linguagem de fábula, a sequência de cenas, de quase duas horas, é tocante.

O pai, o tal capitão Fantástico, é vivido por Viggo Mortensen. Ben, seu nome, é um sujeito de esquerda, devoto das teorias do filósofo e linguista americano Noam Chomsky – e, de certo modo, simpático também à pregação de mundo ideal proposto por Karl Marx.

Ben e Leslie, nome da mulher dele, vivem num paraíso terrestre com sua criançada, até que o destino trapaceia e desarranja seus planos. Leslie desenvolve uma bipolaridade grave, desgarra-se da família pra se tratar no mundo formal, e, naufragada numa depressão, acaba se matando no hospital.

É a partir daí que o filme começa, já sem Leslie, com a jornada de um pai sonhador em viagem com os filhos, estrada afora, rumo ao Novo México, num ônibus transformado em motorhome, pra tentar evitar o funeral cristão da mulher e fazer valer o desejo dela, firmado em testamento, de ser cremada e ter as cinzas jogadas numa privada de um banheiro qualquer.

Ben é um cara bacana, de academia, dono de cultura extraordinária, e dedica a vida a transformar os filhos, de quem passa a ser o único professor, em seres humanos perfeitos. Mas quando é forçado a deixar o paraíso com suas crianças, a vida real desafia seu projeto e confronta a inocência da filharada a tudo o que ele havia ensinado.

O filme provoca uma reflexão sobre o amor e a liberdade, em especial sobre o amor e a liberdade nas relações humanas – mais especialmente ainda, por ser a temática da história, sobre o amor e a liberdade nas relações entre pais e filhos.

Leslie só aparece na tela já morta ou em algumas alucinações de Ben durante a longa viagem até o Novo México, onde o enredo, de fato, se desenvolve e vira um drama, desses capazes mesmo de emocionar e fazer chorar.

A família de Leslie culpa Ben pela morte dela. O sogro, que surge na história ainda apenas como uma voz de vilão ao telefone, pra depois se materializar e se humanizar, acusa também o genro de segregar seus netos e de roubar deles as delícias da vida americana.

Ao longo da história, embalada numa trilha sonora cheia de delicadeza, heróis e vilões vão trocando de papel, e só no fim as certezas se repõem.

As fábulas são sempre assim – perfeitas no início, depois sofrem turbulências que fazem chorar, e só no fim as certezas se recompõem.

Os melhores momentos da vida real são os que se parecem com as fábulas. Somos todos carentes delas. Mesmo os mais duros de nós.

A gravidez bem-sucedida de um casal apaixonado, por exemplo, é uma fábula, com seus momentos de dúvidas e inseguranças do pai e da mãe, até que o nascimento vem e dá início à vida real, entremeada por outras fábulas do dia a dia. Também é assim o início de um namoro, com seu estopim de paixão seguido de discordâncias previsíveis e desfechos de cena em que tudo fica bem depois (“onde você estava até essa hora que não me ligou?”). As amizades, os flertes, tudo.

Caetano Veloso tem uma canção chamada “Sete mil vezes” em que fala exatamente das fábulas, embora não cite isso na letra. Ele diz que “sete mil vezes tornaria a viver assim, transando sob as estrelas”, numa “hora grande”, com seus 60 minutos multiplicados e multiplicados e multiplicados, e que de tão multiplicados e multiplicados e multiplicados não passam nunca.

Também é do que trata Gabriel García Márquez no seu bonito romance “O amor nos tempos do cólera”, quando Florentino Ariza e Fermina Daza, já velhos, iniciam uma viagem de barco. Na compreensão de quem lê, a viagem vai durar pra sempre na eternidade de uma fábula.

A vida, os encontros, as descobertas, os governos – principalmente os comandados pela esquerda avalizada pelo Chomsky e por seu discípulo Ben -, tudo isso devia caber só no tempo eterno de uma fábula. As quase duas horas de “Capitão Fantástico”, que passam tão rápido e são cheias de encantamento, mostram isso.

Acho que vou assistir de novo.

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