Sobre ciclos que terminam e outros que começam

Batman, o gato aí da foto, bonito toda vida, é tão curioso que sempre contempla o Rio do alto da Rua Cardoso Júnior, de onde vê Laranjeiras lá embaixo, oferecida e distante, parecendo uma maquete. Batman ensina sem saber.

Outro dia, fiz esta foto do Batman – e, desde que fiz, entrei nela e ainda não saí.

Há pouco tempo, o Batman cumpriu um ciclo na vida dele. Era um gato de rua, ou de outra casa, até escolher entrar por uma janela.

Todo mundo é um pouco Batman. Cumprimos ciclos e observamos a vida da janela – a de casa, as dos prédios que dão pra rua onde passamos, a do carro, a do ônibus, a do trem, outras janelas apenas subjetivas, como a da nossa alma ou a  da alma dos outros, abertas repentinamente pra gente ao menos ver ou imaginar o que vem depois.

Às vezes, o que vem depois é muito bom, e isso nos convida. O Batman foi. Viu a janela aberta e entrou. Hoje, assiste à vida dali, e parece se sentir feliz, sem querer voltar pro lugar de onde veio.

As mudanças de ciclo, separadas por janelas, também impõem perdas. Acho que o Batman sabe. Aí, pesamos essas perdas e as confrontamos com o que podemos ganhar ao atravessar uma janela – às vezes, só um pouco de esperança. E avançamos.

O Batman olha da sacada o que deixou pra trás ao decidir entrar numa nova janela. Os olhos dele dizem que não se arrependeu, embora seja livre bastante pra voltar atrás se quiser.

Invadi a foto do Batman, dela ainda não saí, e vejo lá embaixo um país acidentado e ruim. Um país onde o Batman em que me disfarço não deseja ter o papel conivente de quem descreve a realidade de acordo com a impressão dominante.

Assisto, pelos olhos do Batman, a uma cidade paralisada diante da incógnita de uma prefeitura não laica. Observo um estado refém de um governo pusilânime e temente a pilhadores aos quais seu principal ocupante até há pouco ainda servia.

Com os olhos emprestados do Batman, vejo um Rio que anda indecente e abjeto, apesar de tão belo, tão belo. Um que pune os velhos e os deixa sem dinheiro e ofende o pobre carente de hospital e escola com os efeitos da roubalheira de seus poderosos acobertados pela boa vontade do pensamento dominador, rico e branco.

O Batman não quer isso. Não queremos.

Vejo, pelos olhos do Batman, as rebeliões seguidas de chacinas nos presídios. Vejo a chacina do futuro na Uerj, crime hediondo que deveria ser punido com prisão.

Vejo a chacina do bom senso com a volta da febre amarela logo ali em Minas – e vejo também a chacina do voto e a da Previdência Social e a da saúde coletiva e a da educação pública, todas cometidas por políticos bolorentos, que eu não respeito (e o Batman também não), beneficiários da montagem de um troço já carimbado na História como golpe.

Assisto à chacina de alegrias e de tantos sonhos, frutos do egoísmo de uma elite política e econômica fedorenta sob seus desodorantes caros, tudo isso ocorrendo na cara da gente sem provocar nenhuma ou quase nenhuma rebelião na vizinhança, na rua inteira, no bairro, na cidade, no país, nas Laranjeiras observada aqui do alto pelo Batman. Por mim.

Muito difícil contar tudo isso senão de onde o Batman disfarçado nos olhos do cronista assiste à vida lá embaixo. O vento batendo nos olhos do Batman, a certeza de que a vida cumpre ciclos.

O ciclo da existência do ministro Teori Zavascky, interrompido na queda de um avião. O ciclo dos meninos da Chapecoense e o dos amigos que se foram.

Os ciclos se despedem e surgem sem que ninguém possa se dar conta do exato instante em que começam ou terminam, em qual janela. Os empregos, as pessoas que nos deixam e as recém-chegadas, a sequência das horas, os nascimentos, tudo é parte de algo bem maior. Os ciclos.

Daqui de onde eu e o Batman fundidos num só vemos as coisas, do alto de uma rua desimportante de Laranjeiras, o Rio oferecido lá embaixo com seus convites, os bons e os maus convites, nem tudo chama. Mas a janela já atravessada permite saber que a vida é um sopro – e que é preciso experimentá-la.

É preciso decidir ver o mar. Em algum momento, até a despedida do sol no horizonte, ou mesmo depois, sob o luar, é preciso. Talvez amanhã. Ou depois. É preciso.

É preciso decidir não aceitar o que agride e se render ao convite da possibilidade da alegria. É preciso voltar a Morro Agudo. Mesmo que não seja amanhã. Ou depois. Ou depois. Ou depois. Mas sempre.

O homem travestido de Batman decidiu guardar o passado na paisagem e abrir os olhos pro futuro além do cenário diante dele. Decidiu regar as plantas e beber um pouco. Não muito além do prazer.

Um ciclo termina e outro começa. O outono se despede e vem o inverno, e o inverno vai embora e vem a primavera, e a primavera prenuncia o verão e as coisas se reorganizam e o coração se reorganiza e a vida é reposta e refeita, e a gente segue.

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