Sobre o nascimento das coisas

Volta e meia, ainda acordado em casa quando a madrugada já é quase manhã, tento acompanhar o nascimento das flores do capim-de-santa-luzia que recolhi da rua e replantei num vaso no quintal.

Nunca consegui vê-las nascer. Mas acho de verdade que vou assistir a essa cena um dia. Não tenho pressa.

Deve ser um nascimento rápido e sem dor. Porque o capim-de santa-luzia floresce todo dia – e suas flores azuis, tão azuis, tão bonitas, duram só algumas horas. Logo fenecem quando o sol aquece muito a terra, pra desabrocharem novamente na manhã seguinte e na manhã seguinte e na manhã seguinte.

Fico tão curioso da existência desta flor tão simples, e ao mesmo tempo tão cheia de especialidades, que sempre pesquiso coisas sobre ela. Li no site do Jardim Botânico do Rio, por exemplo, que o capim-de-santa-luzia só não ocorre em três estados do Brasil, todos do Norte – Acre, Roraima e Amapá.

No mais, cobre todo o mapa brasileiro, bem como o dos Estados Unidos e os de outros países americanos, com a diferença de que aqui dá flor o ano todo, enquanto em lugares com estações mais definidas desaparece no inverno.

No Brasil, pelo menos no Rio, pelo menos aqui na rua, é planta que nasce em qualquer canto de meio-fio, capaz de sobreviver longo tempo sem ser aguada. Talvez por isso tenha o nome de capim.

Descobri num outro site, esse sobre essências florais, que o perfume extraído das pétalas do capim-de-santa-luzia tem poder de “cura de sentimentos renitentes”. Diz esse site que a essência da florzinha azul permite o “alinhamento dos corpos emocional e mental” e faz “o eu superior mostrar novas maneiras de olhar velhas situações repetidas pela força do hábito em nossos relacionamentos, trazendo a possibilidade de nos libertar desses padrões, muitas vezes cármicos”.

Será? Nunca usei o perfume pra comprovar, mas sei que a florzinha é bem bonita, e só se deixa ver de manhã. No resto do dia, a planta se desembeleza e só se parece mesmo com um capim.

Outra curiosidade é o nome. Ela se chama assim, claro, por causa da Santa Luzia, a mártir católica que viveu no século terceiro depois de Cristo e teve os olhos arrancados a mando do imperador romano Dioclesiano, por se recusar a abandonar sua fé – daí ser a padroeira dos oftalmologistas e a protetora dos olhos e, mais ainda, de quem tem olhos e não pode enxergar.

Dos relatos da sua canonização, consta que, a cada vez que os guardas do imperador Dioclesiano arrancavam os olhos de Luzia, novos olhos lhe brotavam ainda mais azuis.

Curiosamente, o botão que guarda a florzinha azul antes do seu nascimento se assemelha – e muito – com a pálpebra humana.

Segundo a crença católica, Luzia, na verdade Lúcia, recolhia o capim pra alimentar os cavalos subjugados pelos homens. Na Itália, na véspera de sua data (13 de dezembro, dia da morte dela, no ano 304 d.C.), as mães católicas incentivam as crianças a pôr um pouco de capim num prato e deixar sobre a mesa antes de dormir. De noite, diz a crença, Santa Luzia passa e leva o capim. Em troca, deixa no prato doces de presente pra criançada.

Na ciência, o nome da plantinha é Commelina angustifolia. Falo dela aqui não por motivação científica, muito menos religiosa, mas por uma reflexão renitente na minha cabeça estes dias, e que transborda no meu coração agora, sobre o nascimento das coisas – e se entenda por coisas tudo, tudo mesmo, inclusive os bebês, inclusive os sentimentos duradouros, e inclusive as rosas, e até a Rosa, e até a florzinha de Santa Luzia, que, apesar de não durar quase nada no seu ciclo de quatro, cinco horas, se muito, é infinita no seu renascer, todo dia, todo dia, todo dia, e na sua boniteza simples e tão azul.

A florzinha do capim-de-santa-luzia nasce toda manhã, insistente, de parto natural, na hora em que bem quer – que é como também nascem os bons sentimentos, gestados no nosso coração pelo tempo necessário, tão urgentes como a paixão, ou tão cheios de caprichos demorados como o amor.

*  *  *  *

Crônica dedicada à Rosa, menininha que vai nascer a qualquer minuto, a qualquer segundo, se já não tiver nascido quando estas palavras saídas com ênfase do coração do cronista digital forem lidas.

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6 comentários sobre “Sobre o nascimento das coisas

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