De presentes que o tempo nos empresta

Acho que, desde pequeno, ainda em Morro Agudo, quando conheci as primeiras dores causadas pela finitude, compreendi que o tempo é quem manda em tudo. O tempo traz, o tempo leva. Talvez por isso eu respeite tanto o tempo e exercite tanto a paciência e o entendimento das pequenas e grandes ocorrências.

Era assim que funcionava pra mim, e funciona até hoje, a compreensão da finitude das coisas, das pessoas, dos bichos – tantos bichos queridos o tempo me trouxe e depois tirou -, e também a das plantas e a do guaraná comprado pra acompanhar o almoço de macarrão com frango nos domingos da infância, e ainda a das dores e a dos prazeres, a de tudo.

Acho que o tempo pode ser medido, por exemplo, na quantidade do pó de café no pote – que vai diminuindo, diminuindo, diminuindo, até acabar.

Nunca consegui explicar essa teoria direito. Nem pra mim mesmo. Mas acredito que a equação seja mais ou menos esta, como algo dentro de um pote, cujo conteúdo a gente vai consumindo, consumindo, consumindo, até se esgotar.

Às vezes, no imprevisto de um gesto desastrado do destino, o pote se quebra antes do término do seu conteúdo tão valioso – e este conteúdo se esparrama pelo chão, e aí nos damos conta de que o tempo, na verdade, não nos dá nada, e por isso também não nos tira, porque, no fundo, ele, o tempo, apenas nos empresta.

No meu quintal em Morro Agudo, eu tive, por exemplo, um primo-irmão muito querido e valioso e imprescindível, que o tempo me emprestou por 18 anos, a partir dos meus 4 de idade, se minha matemática estiver certa. Mas um dia o tempo cismou e levou meu primo querido de volta – pra onde, não sei, mas levou.

Também tive avós maternos que o tempo deixou comigo por menos de 30 anos, até pedir de volta, e avós paternos que mal tive a chance de conhecer, tão curta foi a duração do empréstimo deles feito pra mim pelo tempo.

O tempo traz e o tempo leva, e contra isso nada é possível – tantos anos depois, é ainda no que acredito quando a finitude volta a me incomodar, ou a incomodar alguém muito próximo e muito amado, de quem o sofrimento passa a ser também o meu.

O tempo não se importa com os egoísmos humanos, que nos fazem querer pra sempre coisas e seres apenas emprestados, ou com o viço ou a necessidade do que ou de quem é absolutamente vital pra gente. Ele, o tempo, só resolve e dá, ou chama de volta pra sua reciclagem eterna quando bem entende.

O tempo, com suas idiossincrasias, torna o céu fechado e anuncia tempestade; ou se faz aberto e traz alegria e promessa; o tempo soberano, imparável, senhor do passar das horas, decide e determina à revelia de qualquer um de nós.

A gente fica feliz quando o tempo nos traz algo, mas fecha a cara pro mundo, triste, se ele nos arranca este algo tão bom. De algum momento não muito distante pra cá, já adulto, percebi a importância de homenagear o tempo todos os dias e aproveitar tudo que ele nos empresta, porque não sabemos quando ele vai pegar nosso presente de volta. Em algum instante, ele vai fazer isso, nem que seja no nosso próprio desaparecimento.

Toda essa teoria desimportante sobre a finitude, tema recorrente nas reflexões do cronista digital, que lembra um pouco autoajuda de balcão de botequim, está muito mais bem explicada no afoxé-canção “Oração ao tempo“, do Caetano Veloso, de onde vem a inspiração deste texto.

Como o Caetano ensina na canção, o tempo se confunde com a figura de Deus – não apenas o Deus cristão, católico ou evangélico, mas o Deus adorado por todas as religiões, e até o Deus de quem não tem adoração por nenhum Deus.

Santo Agostinho, o pensador cristão medieval, até hoje contemporâneo nas suas “Confissões”, escreveu mais ou menos assim: “O que é o tempo? Se ninguém me perguntar, eu saberei o que é o tempo; mas, se eu o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não o saberei.”

Na minha percepção de leigo, creio que Santo Agostinho apenas quis dizer que o tempo definido agora não será o mesmo daqui a pouco, pois toma rumos diferentes a cada segundo e, volta e meia, desorganiza lógicas.

De uma maneira simplória, eu demorei um pouco pra entender que, no fim de tudo, o tempo é amigo, porque devolve alguma coisa depois de tirar outra. Nem que seja só a lembrança eterna da mão dada na aflição, ou só saudade do perdido – com todos os favores que este sentimento tão especial, a saudade, pode nos prestar.

Nem que seja, lá na frente, a lembrança do que foi bom, mas já sem o sofrimento pontiagudo da perda.

O tempo leva coisas embora da vida da gente, muitas vezes sem aviso prévio, mas, adiante, traz compreensão e renascimento. A falta que a gente sente de quem se vai, por exemplo, é imensa no primeiro instante. Às vezes, nem a suportamos direito. Mas, se a partida não envolve o rancor de uma vida tirada por outro alguém, o tempo sempre traz o dia em que a saudade doída e sem remédio se transforma numa lembrança alegre, que nos arranca um sorriso no meio da lágrima.

O tempo leva embora velhos amores, mas renova o nosso coração. Traz joelho ralado, tornozelo torcido, unha encravada, cobreiro no pé – mas, depois, doa cicatrizes que nos acompanham a vida toda e nos dão a certeza dos caminhos percorridos.

O tempo traz sustos, mas nos ajuda a domar os medos. Fabrica feridas ao mesmo passo em que elabora suas curas.

O tempo exige e nos faz seguir. “O tempo é só um vestígio da eternidade”, escreveu ainda Santo Agostinho.

O tempo, imandável e inordernável, só para na fotografia, e nos determina caminhar.

 

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Um comentário sobre “De presentes que o tempo nos empresta

  1. Cresci ouvindo essas frases: O tempo é o senhor do destino, o tempo não para, o tempo é o senhor de tudo. Estou com frei Betto quando diz:

    “Vivemos na era imagética, sob o domínio da informática. A torrente de imagens vicia o olho, hipnotiza-o no close da instantaneidade, no qual se fundem passado, presente e futuro. Perde-se, aos poucos, a percepção do caráter histórico do tempo. Tudo parece ser aqui-e-agora.”

    Curtido por 1 pessoa

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