Três meses

Três meses de 2017 já vão passando, e parece que 1º de janeiro foi anteontem mesmo, com todas as suas inspirações de esperança, todos os seus sonhos de um futuro bom, todas as suas promessas de um ano mais feliz. Em três meses, segundo a crença judaica e cristã, Deus faria 12 vezes a Terra e ainda 12 vezes as estrelas do céu e ainda 12 vezes todos os seres viventes do planeta.

Haveria, em três meses, 12 mundos com 12 Adãos e 12 Evas – e 12 serpentes estariam prontas pra desorganizar, com suas 12 maçãs, as vontades de Deus.

Em três meses, diz a ciência, um bebê saudável pode ganhar, em média, 2,1 kg e desenvolver, aos olhos nus da mãe, pequenas demonstrações de afeto e a coordenação dos braços e a das pernas e a das mãos e até a do pescoço.

Mas o Brasil, de lá pra cá, parece carente de serpentes que lhe inaugurem um novo prazer, e também parece desconstruído e mais magrinho aos nossos olhos nus de filhos deste solo tão gentil e maltratado por aqueles que inflam o peito falso pra apelidar nosso povo sofrido de varonil.

Vinicius de Moraes, no poema “Pátria minha”, doçura de poema, chamou o Brasil de “pátria tão pobrinha”. Estava certo. “Fonte de mel, bicho triste, pátria minha, amada, idolatrada, salve, salve!”, escreveu o poeta, “minha pátria sem sapatos e sem meias, pátria minha, tão pobrinha”.

Nossa pátria anda muito pobrinha mesmo – sobretudo, de gente digna que a conduza. Em três meses, ficou ainda mais pobre do que quando Pero Vaz de Caminha a descreveu ao rei Dom Manuel, o Venturoso, como terra habitada por índios de pele “parda e um pouco avermelhada”, com “rostos e narizes bem feitos”, que “andam nus, sem cobertura alguma”, e que “nem se preocupam em cobrir ou deixar de cobrir suas vergonhas”, com seus “cabelos lisos (…), cortados e raspados até acima das orelhas”.

Nossa pátria, que se tornou mestiça a partir da serpente que picou Caramuru e Paraguaçu, anda hoje triste e desolada, com seus narizes e rostos e cabelos refeitos, já distanciados do padrão europeu chamado por Caminha de “bem feitos e lisos” .

Três meses de 2017 trouxeram a ameaça de uma reforma da Previdência defendida por quem não conhece as dores do povo, além de outro punhado de desastres cotidianos cometidos pelo Temer, e ainda a conta já perdida de ministros suspeitos demitidos, e tudo mais que acrescentou pobreza ao dilapidado Brasil, tão carente de alegrias verdadeiras trazidas pelas serpentes genuínas de Deus.

O que teria feito em três meses mais de vida o bispo Pero Fernandes Sardinha se não tivesse sido capturado e devorado no dia 16 de julho de 1556, na Bahia, pelos índios caetés? Talvez nada. Talvez tudo – e sua participação na nossa História fosse outra. O que teria feito Dilma se não fosse crucificada no julgamento apressado e misógino daquela horda de famélicos de poder?

Talvez, como o bispo Sardinha, nada. Ou talvez, também como ele, tudo.

Três meses são muito tempo. Enormes saudades são construídas ou desaparecem no decorrer de seus 90 dias ou 12 semanas ou 2.160 horas.

Em três meses, a Lua dá três voltas em torno da Terra e completa seu ciclo quase três vezes e meia. Nesse período, em velocidade constante, um carro a 80 km/h percorreria 172.800 km. Isso é muito. São 18 vezes a distância entre Rio e Paris, por exemplo.

Três meses são o tempo de uma estação do ano. Um amor de verão dura três meses, ou se anuncia pra sempre na brevidade de um verão – e de quantos três meses e mais três meses e mais três meses e de quantos verões e primaveras e outonos e invernos se faz um “pra sempre”?

Um trimestre é o tempo de gestação de um filhote de leoa. É também o período em que um bebê de leopardo é elaborado no útero da mãe.

Em três meses, uma presidente é eleita e tem a reputação esmagada pelos facínoras da política. Amigos se reencontram, celebram e se despedem pra cumprir, quem sabe em mais três meses, a expectativa de um novo encontro.

Três meses são nove vezes mais que o tempo suficiente pro amadurecimento de um abacate colhido do pé ainda verde, segundo botânicos sabidos. Ou 83 dias mais que o necessário pra um mamão “de vez” ficar pronto pra ser comido.

Nos 129.600 minutos que compõem o percurso de três meses, os dias contados pelos ponteiros de um relógio passam como um sopro, trazendo e tirando vidas. Muitas felicidades surgem e desaparecem em três meses. Outras vêm pra morar silenciosas eternamente na alma e no coração da gente.

É mais ou menos a metade do tempo calculado pela Nasa pra uma viagem até Marte. É o dobro do trecho de existência que Pedro Álvares Cabral precisou pra chegar ao Brasil desde a partida de Portugal – ou também o dobro de tempo que a nau desgarrada da frota lusa levou na volta até Lisboa pra levar a Carta de Caminha a Dom Manuel.

Três meses são bem mais que o trajeto de vida necessário pra fazer quem bateu panelas se dar conta de que nem todas as frigideiras da cozinha são suficientes pra tirar do poder o Temer e sua legião abjeta do atraso.

A oferta de crediário sem juros mais favorável das Casas Bahia e suas concorrentes é a de três meses. Um campeonato estadual de futebol – vai firme, Flamengo! – dura menos de três meses. Três meses são tempo à beça.

Em três meses, talvez Dante alcançasse a Beatriz inventada pra ele por Dante Alighieri, o mesmo Dante pra quem “não há maior dor que a dor de nos recordarmos dos dias felizes”. E quantos dias felizes não são capazes de acontecer em três meses? Muitos, certamente, muitos mesmo.

Três meses são o tempo da proclamação de Adalgisa, a mulher inflamada e inflamável, que roubou há mil séculos o coração do cronista. E são ainda o tempo da reconstrução da esperança, e o tempo da confecção das emoções de uma paixão, e o tempo da cura dos efeitos colaterais da solidão.

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