Donga, Arraial do Cabo e alguns sentimentos

Fui convidado a escrever a biografia do brasileiro Ernesto Joaquim Maria dos Santos, o Donga (1889-1974), violonista, parceiro do Pixinguinha e do João da Baiana, compositor de tanta música bonita, mas que entrou reduzido na História como o cara que registrou o maxixe “Pelo telefone”, em 1916, pela Casa Edison, e fez constar da bolacha do disco, pela primeira vez, o gênero “samba”. Fiquei feliz à beça com o convite.

Aliás, reduzido, vírgula. O que o Donga fez, vírgula de novo, foi muita coisa.

Abre parêntese. O convite foi feito pelo querido Didu Nogueira no meio de uma barulheira danada, e eu quase não entendi. Estávamos na varanda do Vivo Rio, a casa de shows no Rio de Janeiro, no intervalo de uma roda de samba comandada por outro amigo, o Moacyr Luz. Meu pensamento nem estava ali. Mas o convite me chamou de volta.

Márcia Zaíra, neta do Donga, não estava presente. Comandante, ao lado do Didu, de um projeto grande que vem por aí sobre o Donga, Márcia, pra minha alegria, assinou o convite feito pelo Didu. Aceitei. Fecha parêntese.

Corta pro primeiro parágrafo. Donga é considerado, por isso, pelo que está escrito no primeiro parágrafo, o “inventor do samba”, num episódio até hoje tão cheio de controvérsias. Mas ele foi muito mais – e é isso que o livro, ainda nem começado, vai tentar mostrar.

Não só o gênero, mas a autoria de “Pelo telefone” segue contestada desde 1917, ano em que foi a música mais executada do carnaval – e viva o carnaval!, com todas as alegrias e tristezas que desperta na gente.

“Pelo telefone” foi registrado pelo Donga como samba, mas, na verdade, é um “maxixe de roda”, obra coletiva surgida nas cantorias da casa da Tia Ciata – rodas que deram ao Brasil gênios como o próprio Pixinguinha.

A letra consagrada de “Pelo telefone” foi atribuída mais tarde ao jornalista Mauro de Almeida, que passou a assinar a música como parceiro do Donga. Mas a letra do Mauro também é controversa, porque seria paródia do canto das rodas da Tia Ciata, composto por muitos, e entre esses muitos, além do Donga, estariam o João da Baiana, o Pixinguinha, e ainda figuras como Sinhô, Caninha e Hilário Jovino Ferreira.

Foi o nascimento do samba. Nenhum parto é fácil. Os partos doem. Tudo isso ainda vou saber, espero.

Uma alegria juvenil, ou infantil, o que é mais provável, faz o cronista digital relatar isso aqui.

*  *  *  *  *

Passei o último fim de semana em Arraial do Cabo,  cidade costeira fluminense, na Região dos Lagos, a uns 150 km do Rio. Voltei com a sensação de que a beleza mais generosa do mar brasileiro mora ali.

Eu me lembrei de Cayo Largo, em Cuba, onde estive em 1996 e em 2000, e repeti pra mim mesmo algumas vezes, em pensamento, que a vida é curta demais pra gente desprezar suas ofertas. Discernir as melhores ofertas da vida é que talvez seja o nosso maior desafio, eu também pensei. Escolher é difícil, pensei ainda.

Praia do Forno, Praia Grande, Pontal do Atalaia, Praia do Farol, Prainha, tanta paisagem bonita, bonita toda vida. Nunca mais vou esquecer.

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Donga e Arraial do Cabo, o que uma coisa tem a ver com a outra? Nada. Nada mesmo.

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Alguns sentimentos são tão particulares, e ao mesmo tempo tão grandes, que não podem ser divididos com ninguém. Só com o pensamento da gente. Com ninguém mais.

São sentimentos resultantes de declarações de amor feitas em silêncio, só com os olhos; ou resultantes de desfeitas, ou de descuidos cometidos com nosso coração.

Alguns sentimentos são como o mar de Arraial do Cabo, ou como a existência do Donga – muito transparentes, muito, até demais, mas insondáveis, pelo menos até a emersão após o primeiro mergulho, ou o segundo, ou o terceiro, ou o quarto, ou o quinto, ou o sexto, ou o sétimo, ou o oitavo, ou o próximo, se houver.

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