Quando eu me chamar saudade

O título aí de cima foi decidido com um pedido de licença às memórias do Nelson Cavaquinho e do Guilherme de Brito, autores do samba tão bonito, tão bonito mesmo, que leva este nome. Samba tão delicado e belo toda vida.

A bênção, seu Nelson. A bênção, seu Guilherme.

Fui ao enterro do Nelson. Eu era um guri, estagiário da “Tribuna da Imprensa”.

O chefe de reportagem me mandou ao cemitério de Irajá fazer a cobertura. O som seco do surdo solitário da Mangueira, batendo, batendo, enquanto o caixão descia, aquele som nunca me saiu da lembrança. Nunca vai sair.

Com seu Guilherme, que morava ali em Bonsucesso, num prédio sem elevador, tive a sorte de conviver um pouquinho. Numa coincidência feliz pra mim, e que eu, de verdade, não merecia, recebemos juntos – ele, Alfredinho do Bip Bip e eu – o Prêmio Carioca da Gema, criado pelo meu amigo Lefê Almeida (outra saudade grande), no bar Carioca da Gema, na Lapa, em algum ano da primeira década de 2000.

Pro meu orgulho, orgulho do tamanho de um trem 33 da Central, uma foto de nós três, naquele momento do prêmio, permanece emoldurada numa parede do Bip Bip, o botequim do meu amigo-pai-irmão-filho Alfredinho, em Copacabana.

São lembranças que me vêm ao pensamento nesta madrugada de carnaval, como também me vem à cabeça agora uma saudade imensa dos meus amigos queridos de Morro Agudo – Pedro-Zeca, Totó, Fernando, Miguel, Cláudio, todos eles, que vivem em cada célula minha e sabem disso.

Quando eu me chamar saudade, quero, se puderem, todos eles perto de mim na despedida.

Quero também que os meus três filhos riam muito, muito mesmo, lembrando o que vivemos juntos – e que também riam muito, mas muito, lembrando o meu amor eterno e sem limites por eles, e o deles por mim.

Quando eu me chamar saudade, que nem o personagem do samba do Nelson Cavaquinho e do Guilherme de Brito, quero ser cremado e ter minhas cinzas jogadas por aí. De preferência, num carnaval.

Um pouco jogadas em Morro Agudo. Meus amigos-irmãos vão saber como fazer.

Quero também outro punhado atirado num canto da Rua Cardoso Júnior, se possível na presença dos meus irmãos desde sempre Janjão e Marcinho, e também na do meu amigo-parceiro Nuno. Se puderem.

Peço que se guarde, por favor, um punhadinho pra calçada do Bip Bip, onde fui feliz todas as vezes.

E mais um último punhado quero que seja depositado na gaveta das calcinhas de Adalgisa.

Pode ser tudo só na intenção. Mas, por favor, não me contrariem.

*  *  *  *

Saudade é um sentimento bom.

Saudade é um sentimento que adormece ressentimentos.

Saudade, quando é correspondida, acrescenta sentimento bom ao que já é sentimento bom.

Quando a gente chora de saudade, a alma da gente sorri.

Saudade é o principal sintoma do amor.

*  *  *  *

O que será que puseram naquela cachaça de gengibre no bloco de ainda há pouco?

*  *  *  *

A beleza de imagem que ilustra esta pequena crônica de carnaval é de Candido Portinari (1903-1962).

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Darcy, herói do Brasil

Fez 20 anos que o professor Darcy Ribeiro morreu, aos 74 de idade, no dia 17 de fevereiro de 1997, uma semana depois do carnaval. O tempo foi ligeiro e aprontou muito de lá pra cá. Sabemos.

Antropólogo focado na preservação dos índios, educador maior que pensava no futuro das crianças brasileiras, escritor e político defensor do socialismo com liberdade, Darcy era herói, paladino dos indefesos. Faz muita falta.

No meu pensamento infantil, que nunca vai deixar de ser assim, o professor Darcy merecia reviver num personagem chamado Super-Brasileiro. Um Super-Darcy.

Era mesmo um grande brasileiro. Talvez tenha sido o maior de todos, ombreado ali, quem sabe, com Pedro II, Santos Dumont e outros poucos, bem poucos.

Darcy morreu de câncer depois de uma fuga do hospital e de implorar aos amigos Frei Betto e Leonardo Boff que o fizessem acreditar em Deus – porque, pra ele, era doloroso demais se imaginar desintegrado, além do corpo físico, e deixar de existir. Era duro, pra ele, pensar que, depois de se despedir da matéria, haveria apenas o nada e a sua própria inexistência.

Já vencido pelo câncer, à espera apenas do último suspiro, o professor se foi sem ter visto o desfile da Viradouro, escola campeã daquele carnaval com o enredo “Trevas, luz, a explosão do universo”, de Joãosinho Trinta. Partiu sem assistir às vitórias do Lula e da Dilma, e sem tempo de saber do impeachment e da Lava-Jato e da prisão do Sérgio Cabral e da ascensão do Temer.

Morreu sem sorrir por Obama ou se lamentar abestalhado pela escolha do Trump nos Estados Unidos. Fechou os olhos sem nos explicar Crivella e João Dória, e sem nos socorrer desta tragédia feita com o Brasil.

Estava assistido por Leonardo Boff no último instante. Os relatos coincidem. Consta que, quando Boff chegou, Darcy entregou ao amigo um texto inédito, com confissões, onde se lia num prólogo: “Termino minha vida exausto de viver, mas querendo mais vida, mais amor, mais saber, mais travessuras. A você que fica aí, inútil, vivendo vida insossa, só digo: ‘Coragem! Mais vale errar se arrebentando do que se poupar pra nada.’ O único clamor da vida é por mais vida bem vivida. Essa é, aqui e agora, a nossa parte. Depois, seremos matéria cósmica, sem memória de virtudes e gozos. Apagados minerais. Pra sempre mortos.”

Darcy, que amava as mulheres e tinha um nome ao mesmo tempo masculino e feminino, merecia um Dia Nacional, uma estátua do tamanho da cúpula do Senado, uma avenida mais comprida do que a Via Dutra, ou talvez batizar a Amazônia – Floresta Tropical Professor Darcy Ribeiro!

O destino deu a muitos repórteres de política – entre eles, o cronista digital – a alegria imensa de ter convivido com o professor em entrevistas e andanças Brasil afora, na cobertura de campanhas eleitorais. Darcy era bárbaro.

O Brasil que sonhava é ainda o desejado por muita gente, impossível duvidar disso. A solidariedade que despertava, o amor que emanava, a entrega individual que propunha, as formulações de país justo que oferecia, tudo era magnífico.

A imprensa dominante do tempo dele não teve tamanho pra refletir seus raciocínios. Quando ele dizia que a favela era “uma beleza”, as manchetes gozavam em vez de tentar decifrar a profundidade do seu diagnóstico.

Darcy disse: “O Brasil, último país a acabar com a escravidão, tem uma perversidade intrínseca na sua herança, que torna a nossa classe dominante enferma de desigualdade e de descaso.” Estava certo. Não lhe deram ouvidos.

Disse ainda, num tempo em que semeava Cieps no Rio de Janeiro, diante do desconforto da elite: “Se os governantes não construírem escolas agora, daqui a 20 anos vai faltar dinheiro pra fazer presídios.” Foi visionário, estava certo.

Sua frase mais célebre dizia dele mesmo e dos seus fracassos contaminados por falsa modéstia, porque modéstia era coisa que o Darcy não tinha: “Fracassei em tudo que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil se desenvolver autonomamente e fracassei.  Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.”

Por falar em modéstia, Darcy dizia também dele mesmo: “Admito, com toda desfaçatez, que gosto demais de mim e me acho admirável.” E como era.

Era também contundente e amoroso. Repetia sempre que “a escola não ensina, a igreja não catequiza, os partidos não politizam, e o que opera no nosso país é um monstruoso sistema de comunicação de massa, impondo padrões de consumo inatingíveis e desejos inalcançáveis pelo nosso povo, aprofundando mais a marginalidade dessas populações.”

Segundo Darcy, “os brasileiros somos um povo em ser, mas impedido de sê-lo. (…) Da mestiçagem (…) fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos viveu por séculos sem consciência de si. Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros”.

E insistia: “O Brasil sempre foi e ainda é um moinho de gastar gentes. Nós nos construímos queimando milhões de índios. Depois, queimamos milhões de negros. Atualmente, estamos queimando, desgastando milhões de mestiços brasileiros, na produção não do que eles consomem, mas do que dá lucro às classes empresariais.”

Mas era um otimista. Numa entrevista, certa vez, afirmou: “Só há duas opções na vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca.”

Criador de duas universidades, a UnB e a Uenf, espalhava ainda pra quem quisesse ouvir: “Sou um homem de causas. Vivi sempre pregando, lutando, como um cruzado, pelas causas que comovem. Elas são muitas demais: a salvação dos índios, a escolarização das crianças, a reforma agrária, o socialismo em liberdade, a universidade necessária. Na verdade, somei mais fracassos do que vitórias em minhas lutas, mas isso não importa.”

Seu parecer sobre o que se passou com o Brasil desde a primeira cópula de Caramuru e Paraguaçu era preciso: “O ruim no Brasil (…) é o modo de ordenação da sociedade, estruturada contra os interesses da população, desde sempre sangrada pra servir a desígnios alheios e opostos aos seus (…). O que houve e há é uma minoria dominante, espantosamente eficaz na formulação e na manutenção de seu próprio projeto de prosperidade, sempre pronta a esmagar qualquer ameaça de reforma da ordem social vigente.”

Pra ele, “a crise da educação no Brasil não é uma crise, mas um projeto formulado pelas elites” pra perpetuar seu domínio.

Nestes 20 anos da morte do professor Darcy, é possível imaginar o que ele diria do Temer, do Eduardo Cunha, do José Serra no Itamaraty e depois demissionário por suposto motivo de saúde. O que diria do Cabral e do Eike Batista presos, e do Rodrigo Maia, um fedelho da Juventude Brizolista na época dele e hoje um deputado de direita na Presidência da Câmara. E ainda do Alexandre de Moraes e do Osmar Serraglio e de tantos outros.

Darcy nos faria rir, pelo menos, com seus safanões verbais tão precisos. Desabrido nos seus sentimentos e nas suas sensações, talvez elogiasse a beleza da primeira-dama Marcela. Mas, sem ele, o Brasil desinteressante do Temer não parece mesmo ser nada além disso – um país retrocedido e sem graça, com uma primeira-dama de boniteza europeia, que não pode ser elogiada pelo professor.

A Saara, Raduan Nassar e o ministro

Fui duas manhãs seguidas à Saara esta semana. De um ponto de vista sociológico, ou quem sabe até antropológico, a Saara talvez seja o lugar mais interessante do Brasil. Ou, pelo menos, do Rio – onde ela fica e de onde nem cartão postal é.

Pra quem não conhece, é preciso dizer logo. A Saara é bem diferente do Saara. A começar pelo gênero. É feminina, ao contrário do deserto que lhe empresta o nome.

A Saara também se difere do Saara pela multidão que a atravessa todos os dias, carregada de sentimentos distintos, a partir das 9h, à exceção dos domingos, num cenário bem distante da vastidão de areia e de nada do Norte da África, com seus 9.065.000 km², área maior que a de países continentais como o Brasil, ou como a Austrália, ou a Índia, ou ainda quase do tamanho dos Estados Unidos, ou de todo o território da Europa Ocidental.

O Saara atravessa 11 países africanos e tem população dispersa, estimada pela ONU em cerca de 2,5 milhões de pessoas. Este número, além do nome, é a única interseção possível do Saara com a Saara, a nossa, por onde passa, por mês, quantidade quase igual de gente de todas as classes sociais.

A Saara, na verdade, é uma sigla formada pelas iniciais de Sociedade dos Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega, espécie de shopping horizontal a céu aberto, no Centro Antigo do Rio, onde a democracia se realiza e faz festa todo dia, e onde se encontra de tudo pra comprar – de calcinha miúda, vendida a R$ 5, a cocar de índio; de pastel com caldo de cana a sushi feito por coreano; de boa comida árabe a tecidos finos adotados pelas principais grifes da cidade; de pôster da Madonna a fantasia de Chacrinha.

Aliás, fui ali duas manhãs seguidas, esta semana, pra ver fantasias de carnaval – outra das muitas especialidades do comércio da Saara. Vi uma de um novo “super-herói” de oportunidade, o Super-Moro. Assisti à multidão comprando uniformes de presidiários, alusão à turma enrolada com a Lava-Jato. Revi máscaras do Neymar, sempre ele, e perucas sintéticas de todas as cores, e cuecas com a frase sexista e homofóbica “o que é do homem a bicha não come”, e capas de Batman, e quepes de policial, e capacetes de bombeiro, e saias de Mulher-Maravilha, e colares de búzios africanos, e rolos e mais rolos de chita multicolorida, e rostos de todas as cores, todas as cores, todas as cores, numa mistura radical e feliz da vida humana na Terra.

Criada por árabes e judeus, a Saara hoje também está cheia de coreanos, e esta misturação bem-vinda já chamou a atenção até da ONU pela convivência pacífica de seus comerciantes – a mesma ONU que estima a população do Saara, o deserto africano.

São retalhos da colcha de humanidades que compõem nações vira-latas como o Brasil, e que, certamente, comoveriam almas generosas como a do escritor Raduan Nassar, 81 anos, ele mesmo filho de imigrantes libaneses – como também são libaneses muitos comerciantes da Saara -, agraciado agora com o Prêmio Camões, dado anualmente pelos governos do Brasil e de Portugal a autores de língua portuguesa.

Raduan, que talvez não conheça a Saara, e só saiba dela de ouvir falar, é um brasileiro único. Deveríamos nos orgulhar bem mais dele. Bem mais.

Abandonou a literatura há uns 30 anos pra se tornar agricultor. Em 2012, doou sua fazenda, chamada Lagoa do Sino, no interior paulista, ao governo Dilma, com a exigência de que a União ali fizesse uma universidade com ênfase nos estudos agrícolas.

A universidade foi feita e transformou as vidas de jovens de cerca de 40 cidades da região. Que outro fazendeiro faria isso no Brasil? Não me ocorre nenhum. Raduan fez isso em silêncio, porque, por princípio, não dá entrevistas.

Suas aparições são raras, como foi a de agora, em que, já longe do fazer literário, mas com a literatura ainda nele, surgiu na cidade de São Paulo pra receber o Prêmio Camões 2016.

No discurso de gratidão pela escolha do seu nome, em cerimônia concorrida no Museu Lasar Segall, Raduan disse o que pensa do governo de Michel Temer, a quem chamou de “repressor” e de protagonista de “tempos sombrios”. Roberto Freire, ministro da Cultura do Temer, estava presente, não gostou e tomou as dores. Saiu em defesa do chefe e chegou a sugerir que Raduan devolvesse o prêmio.

Freire, como escreveu Fernando Brito no seu blog Tijolaço, é um político. Não é homem de cultura. Está no cargo por contingências de ocasião, mas o posto não está nele. Deveria, por isso, pensar muito antes de dizer qualquer coisa sobre Raduan, de quem, talvez, não tenha lido nenhum livro.

Uma vez, acho que nos anos 1990, Freire, sei lá a razão, foi parar no burburinho do Bip Bip, o boteco de Copacabana, num domingo de roda de samba. Alguém passou com um cachorro na calçada, e o bicho pareceu não gostar do político pernambucano, porque desandou a latir pra ele.

Freire ficou muito irritado e bateu boca com o dono ou dona do cachorro. O descontrole dele foi tanto que a roda de samba parou.

Eu estava no boteco, assisti a tudo, e nunca esqueci aquela cena. A discussão mostrou um pouco do temperamento do atual ministro. Hoje, aquela imagem me veio à cabeça de novo, quando soube da reação do Freire às críticas sinceras – e pertinentes – do Raduan Nassar ao governo Temer.

Homem e escritor grandioso, sujeito tão generoso e amigo dos bichos, pequeno imenso retalho da colcha de humanidades que compõem o Brasil da Saara, com sua gente multicolorida, Raduan foi agora, tanto tempo depois da cena de descontrole do Freire no Bip Bip, o cachorro que latiu pro ministro.

Não quer dizer nada. Mas talvez diga muito.

A reconstituição de Adalgisa

O mundo da cor do barro.
O barro de que fui feito.

Da vida, já fui esparro,
gramei de não ter mais jeito.

Sempre em busca de Adalgisa,
a tenra, a inalcançável.

A transmutada incisiva:
impura e inoxidável.

Pensei tê-la conhecido,
mas foi alucinação.

Seu vulto estava escondido
na sombra do coração.

Pensei tê-la achado, às vezes
– e, em todas, eu a perdi.

E quando a matei cem meses,
mil anos nela morri.

Adalgisa, a inachável,
fingia ser encontrada.

Até se tornar tocável
na sombra de uma escada.

Adalgisa, a imorrível,
a imatável, a sem fim.

A rediviva, invencível,
tão viva dentro de mim.

Uma garoupa morena,
sem tranças de Rapunzel.

Tão longa a curta melena
a me arrastar para o céu.

E, hoje, Adalgisa, digo,
já que agora é encontrada:

– Quer seguir, pronta, comigo,
desassombrada na escada?

Os seus peitos generosos,
sua bunda de cetim…

Os meus olhos, tão gulosos,
desejam tudo pra mim.

Brizola: ‘Eu tirei o dó da minha viola’

O cronista digital, nas suas viagens diante do teclado, foi surpreendido por um novo encontro com a lembrança de Leonel Brizola, desta vez interessado em falar da morte de dona Marisa Letícia, da prisão do ex-bilionário Eike Batista, da nomeação de Moreira Franco como secretário-geral de Temer, da reeleição de Rodrigo Maia à Presidência da Câmara, da escolha de Eunício de Oliveira como presidente do Senado e da indicação de Alexandre de Moraes pro STF na vaga de Teori Zavascki. O ex-governador do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul garante que, em vida, já havia “adiantado algumas destas notas, só agora escritas na partitura da política brasileira”.

Governador, o senhor continua acompanhando o que vai no Brasil?

Veja, Marcel. Como já te disse nas nossas últimas conversas, daqui de onde hoje assisto às coisas, já com a mansidão que a vida terrena não me permitia, eu me encontro, francamente, muito preocupado com alguns fatos que têm ocorrido.

Que fatos?

Primeiramente…

Desculpe interromper, governador. Mas o senhor também chama o Temer de “primeiramente”?

Creias que o meu primeiramente não é nenhuma referência a este Temer. Este Temer, que o grande establishment, não só o brasileiro, mas o establishment mundial, tu podes crer, este Temer, que o establishment mundial impôs ao nosso Brasil, arrancando a presidenta Dilma do seu mandato democrático. Mas, honestamente, não falo dele aqui. Dele, falarei mais adiante. O que é dele está guardado e eu vou dizer. Mas, primeiramente, eu quero é apresentar minhas condolências ao presidente Lula pelo passamento de dona Marisa Letícia, uma grande mulher que foi vítima deste tempo de ódio.

De que ódio exatamente o senhor fala?

A rigor, Doalcei, não apenas do ódio disseminado na internet, este instrumento perverso às vezes.

Desculpe corrigir. É Marceu, governador. Mar-cêu

Tu me perdoas. Sempre erro teu nome, não é verdade? Desde aqueles tempos em que tu eras repórter jovenzinho do velho “Jornal do Brasil”. Mas veja, Dirceu. O ódio de que eu falo é este disseminado não só nas chamadas redes sociais, mas no dia a dia das conversas e do debate político. Dona Marisa adoentada ali, e as almas venenosas alimentando comentários que nem me atrevo a reproduzir, como se quisessem abreviar o fim terreno da grande mulher do Lula. Isto machuca. Francamente, isto machuca! Eu, pessoalmente, me sinto ferido e sinto em mim a dor do Lula. De certa forma, vivi isso aí com a minha Neusa, que hoje está aqui comigo. Hoje, do plano em que estou, consigo compreender o sentido da palavra amor melhor do que quando aí estava. E recito pra ti o lema positivista do francês Auguste Comte, com quem mantive aqui alguns colóquios…

O senhor se tornou positivista? Como é isso?

Não é bem isso o que vos digo. Veja. Em vida, este lema não me cativava, mas hoje confesso que me desperta simpatia: “O amor, por princípio; a ordem, por base; o progresso, por fim.” Francamente, acredito que há hoje uma grande crise de amor na Humanidade. Em particular, nas nações que ficaram pela metade do caminho do desenvolvimento, como o Brasil. Honestamente…

O senhor…

Um instante, tu me perdoas por concluir. Que outra grande carência explicaria tanta perversidade com dona Marisa senão a da falta de amor? Uma mulher simples, livre de luxos, companheira do seu marido e aliada das causas democráticas desde as greves do ABC, citada por esses novilhos do Ministério Público e pelo juiz Moro por causa de titicas comezinhas? Tu me perdoes o termo, Alfeu.

O senhor acredita que a morte de dona Marisa pode comprometer a força política do Lula?

Francamente, não acredito. Acho que o Lula, lá nos seus aviamentos da costura política, tem linhas e agulhas de sobra pra confeccionar a cortina que vai separar o sofrimento privado da sua luta pública. Eu e o Lula tivemos grandes diferenças, tu sabes. Foram grandes diferenças! Mas nunca deixei de reconhecer nele o líder que é e sempre foi. Lula cometeu ali os seus pecadilhos, tisc…, cedeu a encantamentos que nós, a rigor, não cedemos. Mas jamais, jamais, veja Alceu, jamais o Lula deixou de ser o grande homem público com pensamento voltado para o Brasil. As vantagens que pode ter tido ao lado de dona Marisa por ter chegado à Presidência são calamacos e cangalhas. Ou nem isso! Ouso dizer que nem isso! Lula não participou da dilapidação promovida por seus críticos, que posam aí de “moretes”. Muito menos dona Dilma, que conheço bem.

O que são “moretes”, governador?

Com todo o respeito ao excelentíssimo juiz Moro, que faz lá o seu trabalho, mas muitas vezes parece inebriado pela fama e levado pelos arroubos da juventude, o que se vê aí é um desfile de “moretes”, uma legião de puxa-sacos que têm a barra das bombachas, eles sim, mais sujas do que bucho de barrasco, porque estão enterrados no lamaçal até os joelhos.

Quem são os “moretes”?

Veja, Orfeu. É só tu leres os jornais e assistires ao noticiário na TV, e não é só a Globo, que tanto me perseguiu. A imprensa parece dobrada de joelhos diante do golpe estabelecido. Nada é questionado com o rigor que deveria. Nada! A rigor, nada. A imprensa é comandada pelo Estado policial em que o Brasil se transformou. E mais. Basta pesquisar as fotografias recentes em que o juiz Moro aparece ao lado desta gente do PSDB e do PMDB. O PSDB é gado encaronado! Aliás, não é nem gado! Eles se dizem tucanos, mas são pavões! Basta ouvir um elogio que abrem suas plumagens e caminham balançando a cintura todos frajolas pra onde se aponta estar o melhor da festa. Na verdade, o PMDB é o líder da manada que desgraça o Brasil desde o fim da ditadura militar. São os filhotes da ditadura! São o entulho acumulado depois da obra feita! Os tucanos são a ala sofisticada do desfile, nada mais.

Mas o senhor não acha que…

Permita-me concluir, Nereu. Mas mesmo muitos destes “moretes” estão aí agora a prestar contas dos males que produziram. As prisões estão bem frequentadas, não é verdade? Este crédito eu dou ao juiz Moro. Não há dúvida. Mas faltam lá alguns destes “moretes”. No PSDB há alguns já borrados de medo do Moro, e por isso se comportam como “moretes”.

Do PMDB, o senhor fala do Sérgio Cabral e do Eduardo Cunha? E no PSDB? Não pode dar nomes?

Nomes quem deve dar é a Justiça. E tu é quem estás nomeando. Não sou eu. Mas que há outras batatas assando, ha-ha!, isso há.

De quem o senhor fala?

Não me queira mal por insistir em concluir meu raciocínio, Vizeu. Veja o caso do Moreira Franco, o gato angorá felpudo, acarinhado pelas elites do Rio de Janeiro no tempo em que nós éramos tão questionados. Este eu conheço bem. Ouço dizer que o Moreira teve o nome citado 34 vezes numa só delação de um diretor da Odebrecht nesta Lava-Jato. Veja, 34 vezes! Trinta e quatro!!! Francamente, vi como um escândalo a nomeação dele com status de ministro pelo Temer, livrando o amigo das garras do juiz Moro e lhe oferecendo o foro privilegiado do Supremo Tribunal. Sobretudo agora, com a indicação do careca para a vaga que foi do ministro Teori Zavascki, que é quem cuidava da Lava-Jato no Supremo.

O “careca” é o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes…

Sim. Nada contra os calvos. Eu mesmo perdi boa parte dos cabelos. Este Moraes eu não conheci aí, mas sei que é tucano e personagem secundário da intenção de uma nomeação política para o STF em meio a tudo isso que aí está. Outro dia, este Moraes estava aí a cortar pés de maconha como o capataz de um circo a ajeitar o terreno onde o seu patrão vai alçar a lona! O Brasil que sonhamos desde que calçamos nossas primeiras botas não admite uma nomeação assim para o Supremo Tribunal Federal. Honestamente, vejo como um insulto ao povo brasileiro! Francamente, tisc…, um insulto.

O que o senhor achou da prisão do Eike Batista?

A rigor, acompanhei com muita preocupação. Conheci o pai deste Êike, o Eliezer, engenheiro como eu, que presidiu a Vale, foi ministro do Jango e depois do Collor. Nunca dividimos a mesma cuia de mate. Mas, francamente, se este Êike transgrediu a lei, cedendo aos achaques da quadrilha de corruptos cuja chefia se imputa ao menino…

Menino?…

O menino Cabralzinho, que, até outro dia, estava aí, pimpão, homenageado pelas manchetes da imprensa. Olha, se este Êike fez o que dizem, que pague! Sinceramente, que pague! Mas, honestamente, acho que houve ali, na prisão dele, um certo excesso preocupante.

Como assim, governador? O senhor foi contra a prisão do Eike?

Veja, Eliseu. Fui governador três vezes, como tu sabes. Enfrentei com tranquilidade esses desafios e saí da vida pública mais pobre do que quando entrei. Mas ouvia aqui e ali os relatos do canto do pássaro, tudo entendes? Companheiros me diziam, com alguma tristeza, que, de cada 100 grandes empresários, 90 já haviam sido forçados a pagar ou quiseram pagar comissões para obter favores dos governos. Não sei se foi o caso do Êike. Isto o Ministério Público e o juiz Moro terão de dizer e provar. Mas prender só ele, e agora que se confessa arruinado?! Francamente! E da maneira humilhante como foi exposto?! A rigor, vejo a democracia já aviltada em perigo ainda maior. De minha parte, sempre estranhei a ascensão meteórica deste Êike e sua compulsão por se tornar cada vez mais rico. Sempre estranhei! Sempre estranhei! Era outro apresentado como herói pela imprensa. Talvez ele devesse ser investigado de outro modo. Mas tenho minhas dúvidas em relação à prisão dele da maneira como foi feita.

O senhor acha que ele não deveria ser preso? É isso?

Tu vais me perdoar, mas não é isto o que eu te disse. Se tu achas isso, escrevas tu. Não sou eu quem diz. De minha parte, acredito que ele e outros devessem ser punidos exemplarmente com o confisco de bens, a devolução de cada centavo tirado do povo e o banimento da vida pública. O banimento radical! Radical! Que o seu Êike, se for provado o já dito, não possa jamais abrir outra empresa ou fazer negócios com governos. E que nem conta em banco possa ter!

O que o senhor achou da reeleição do Rodrigo Maia como presidente da Câmara dos Deputados e da escolha do Eunício de Oliveira pro comando do Senado?

Uma lástima. Francamente, uma lástima. Este Rodrigo eu conheço desde que era um piá. Vivia ali, miúdo, barreando as calças do pai. É filho do César Maia, um ex-companheiro nosso que costeou o alambrado até se lanhar na cerca e bandear pro lado de lá e se assumir de direita. O outro, este Eulício…

Eunício, com “n”…

Que seja. O outro é um senador sem expressão, que, francamente, só está lá pra servir a um governo golpista. Não terá sequer o nome na História. Mas podes ter certeza de que a batata deles também vai assar. Na verdade, o que ocorre hoje no Brasil nós já há muito tempo prevíamos. Eu mesmo, quando aí estava, quis dizer isso ao Lula, que ele tomasse cuidado com esta elite incomodada com a ascensão dele. Infelizmente, ele não pôde me ouvir. Eu cá, com a minha viola, já havia tocado estas notas, compreendes? Eu cá já havia adiantado algumas destas notas, só agora escritas na partitura da política brasileira.

Como assim, governador?

Tu deves conhecer aquela cantiga, que diz: “Eu tirei o dó da minha viola, da minha viola eu tirei o dó.” Pois eu tirei o dó da minha viola. Tudo isso que hoje está aí configurado nós previmos. Com toda a humildade, nós previmos. Lula e Dilma não foram fortes suficientemente para impedir a volta dos que não foram, hoje liderados pelo Temer, que, a rigor, é um fraco, um produto raso do mal maior, um fantoche das elites e que só por elas vai agir.

Chamou a atenção seu comentário sobre o amor e o positivismo de Auguste Comte. O senhor poderia falar um pouco mais a respeito?

Com prazer, Perseu. Vejo que te interessou o tema. Deves estar apaixonado…

Quem falou de amor foi o senhor, governador.

Eu continuo sendo um homem apaixonado pela beleza no seu sentido mais amplo, nas relações políticas e também pessoais, e, especialmente, um apaixonado pelo Brasil. Parti daí, creias, Pitolomeu, amargurado com o que via, mas esperançoso no futuro. E assim me mantenho. Falei da carência de amor ao me referir aos maldizentes e aos malédicos de dona Marisa. Lula e dona Marisa viveram uma história de amor pessoal e pelo país onde nasceram. Meu coração já parado mantém aqui no meu peito o desejo do entendimento pelo bem comum e a indignação com a injustiça e o mal-entendido. Gostaria muito que o Lula recebesse meus sinceros sentimentos e soubesse do meu engulho com a injustiça perpetrada contra dona Marisa, a quem espero ver em breve e dizer isto pessoalmente.

Obrigado por mais esta entrevista, governador.

Eu que te agradeço. Morfeu.

Sobre a liberdade (ou carta ao meu pequeno amigo)

Eu tenho um pequeno amigo chamado Bernardo. É meu vizinho. Bernardo é um garoto miúdo, mal fez 12 anos, mas seu coração é grande, bem grande.

Outro dia, o meu amigo brincava com a criançada perto de casa quando viu uma mamãe gambá, que carregava um filhote nas costas e era seguida de perto por outro. A mamãe gambá se assustou com a algazarra dos meninos da rua e correu, deixando pra trás o filhotinho indefeso, que caminhava lento atrás dela.

Um dos garotos, encantado, cismou de pegar o filhote desgarrado, apesar do alerta do Bernardo:

– Não faz isso! Ela pode rejeitar depois!

Bernardo se encheu de atitude, tomou a frente da situação, recolheu o filhotinho com cuidado e o levou pra um canto, onde a mãe poderia vê-lo e, quem sabe, buscá-lo mais tarde. Mas não adiantou.

No  fim da noite, voltando pra casa com os pais depois de um passeio, o meu pequeno amigo relatou sua aventura e pediu que o deixassem ver se a mamãe gambá tinha resgatado o filhote. Não tinha. O bebezinho continuava lá, na sua existência indefesa e tão frágil, ainda de olhos fechados.

Bernardo implorou:

– Deixa eu levar ele pra casa, por favor, por favor, ele vai morrer, por favor, por favor!…

Tanto insistiu que comoveu a mãe e o pai. Faz uns 15 dias, ou quase. Desde então, Flor, nome que o meu amigo deu ao gambazinho, ou Xineném, apelido escolhido pela mãe, dorme no quarto dele, dentro de uma gaiola, de onde só sai, de três em três horas, pra ser alimentado pelo pai do Bernardo, orientado por uma vizinha veterinária, com uma mistura de leite, mel e frutas batidos no liquidificador, dados a ele ou ela, nem se sabe o sexo, com a ajuda de uma seringa.

Xineném cabe na palma da mão do meu pequeno amigo e só há pouco abriu os olhos. Praticamente, só acorda pra bocejar e comer – e, nos seus poucos momentos de consciência, desenvolveu pelo Bernardo um amor tão grande que se enrosca todo, ou toda, nos cabelos dele, e ali fica agarrado, como os gambás aqui da rua fazem na pelagem das mães.

O pai do Bernardo fez contato com uma patrulha ambiental e avisou ao filho que o mais novo inquilino da casa terá de ser devolvido daqui a pouco à natureza. Mas o meu amigo não se conforma e chora.

– Deixa eu ficar com ele, por favor, por favor, deixa eu ficar…

O meu amigo não sabe algumas coisas que eu também não sabia quando tinha a idade dele. A primeira é que o amor da gente e o das pessoas e também o dos bichos só cresce de verdade quando é livre.

Os gestos universais cometidos por todos nós ao longo da vida ensinam com muita clareza que os amores, as paixões, os desejos e ainda a ternura e o afeto e todos os sentimentos bons coincidentes entre dois seres – como esse nascido entre o meu pequeno amigo e o gambazinho – só prosperam, claro, com carinho e troca, mas a liberdade é o seu maior alimento.

Sem liberdade, eles, os amores, morrem. E quando nem a liberdade é suficiente pra produzir saudade – na gente, nas outras pessoas, nos bichos -, isso significa que é preciso deixar o outro seguir seu caminho.

Senão, esse outro não vai viver feliz. E quem ama de verdade, gente ou bicho, como o Bernardo e o seu Xineném, que confunde os cabelos do meu amigo com os pelos da mãe, enfim, quem tem adoração verdadeira nunca vai querer a infelicidade do dono ou dona do seu amor.

É algo de difícil compreensão mesmo. Gostar muito de algo ou de alguém, muitas vezes, traz junto o demônio do ciúme, o medo inútil de perder, a sensação destrutiva da posse, o egoísmo de querer só pra si. Deve ser assim com o meu pequeno amigo na relação tão bonita de afeto com seu gambazinho Xineném.

O Bernardo também tem um cachorro, e talvez entenda melhor a sua linda história com Flor ou Xineném se observá-la pelos olhos do seu vira-lata.

Porque o cachorro dele vai à rua e assiste à vida e avista a vizinhança e com certeza late pros gatos das outras casas e passeia no sol e vê as outras crianças – mas não troca o meu amigo por ninguém, e sempre quer voltar pra casa depois, porque lá tem carinho, abrigo e comida boa dados por alguém que gosta muito dele e o protege.

Erich Fromm, o psicanalista, filósofo e sociólogo alemão que encantou as academias do século 20 mundo afora com obras como “O medo à liberdade” e “A arte de amar”, escreveu assim: “No amor, ocorre o paradoxo de que dois seres sejam um, e, contudo, permaneçam dois.”

Ele também escreveu: “O amor imaturo diz: eu te amo porque preciso de ti. O amor maduro diz: eu preciso de ti porque te amo.” E ainda: “O amor é um ato de fé, e todo aquele que tem pouca fé também tem pouco amor.”

Talvez o Bernardo, um garotinho cheio de fé nas coisas essenciais da vida, leia um dia os escritos do Erich Fromm e os compreenda. Mas, por enquanto, ele apenas cede à projeção do banzo doído em que deve ficar quando tiver de se separar do seu pequenino Xineném.

Os passarinhos, os gambás, os macacos, os humanos não fomos feitos pra viver em gaiolas ou cercadinhos, sob o olhar de alguém que nos quer só pra si. O gambazinho do meu amigo já-já vai precisar da liberdade da mata, dos insetos que a habitam, das folhas, do chão molhado de chuva, e necessitar correr os riscos de ser livre e o perigo do insondável escondido atrás de cada tronco de árvore. Só assim ela ou ele vai crescer feliz, como o Bernardo deseja que ele ou ela cresça.

Mais ou menos como também vai acontecer com o meu pequeno amigo quando ele crescer um pouco mais.

Faz lembrar a história do menino recém-adolescido que, um dia, triste, confessou ao pai seu desconforto e seu desassossego com as liberdades do modo de vida da namorada, ela um pouco mais madura e já tomada pelos fogos femininos da juventude. O garoto, no fundo, só queria saber o que fazer pra prender a moça no cercadinho do seu abraço.

– O que eu faço, pai?

– Nada. Não faz nada.

Porque, nas coisas do amor – e o Bernardo vai poder entender um dia, talvez com algum sofrimento -, só a liberdade prende. A liberdade, o meu pequeno amigo vai saber, traz junto os favores da saudade. E quando nem a liberdade com os seus favores prender, como deve acontecer com o gambazinho Xineném na sua volta pra mata, é só porque não era pra ser como a gente pensava que deveria.