Uma foto do meu umbigo

É pouco, muito pouco, quase nada perto do que o cronista digital precisaria pra viver deste ofício tão prazeroso, ele aqui, olhando pela janela o mundo lá fora, e ouvindo boa música, e bebendo boa cerveja, ou bom uísque, ou só água, e escrevendo, escrevendo, escrevendo, escrevendo, e apenas sobre o que a bússola do pensamento dele sugere.

É pouco, realmente muito pouco – agora o cronista digital já aprendeu – diante do sucesso verdadeiro de quem surfa mesmo nas ondas deste oceano chamado internet, herói e vilão, novidadeiro e retrógrado, deus e coisa ruim, com certeza um dos quatro cavaleiros do Apocalipse, que chegou pra bagunçar o coreto e devastar e reformular e reinventar e dizimar e democratizar o erro e o acerto e a dúvida.

É muito pouco. Reconhecidamente, muito pouco.

Mas pro moleque que saiu lá do caixa-prego e já conseguiu tanta coisa – apertou a mão do Fidel e ganhou um abraço depois de uma coletiva em Brasília; conversou horas com Prestes no apartamento dele na Rua das Acácias; virou criança de novo e ajoelhou no chão de uma redação, todo emocionado, ao receber uma ligação do Zico; falou com Drummond ao telefone duas vezes; dormiu com sua Adalgisa e a deixou escapar de manhã; assistiu no estádio a duas finais de Copa; esteve na França e em Cuba; nos Estados Unidos e na Holanda; na África do Sul e na Colômbia; no Peru e na Bélgica; na Irlanda e na Argentina; em Portugal e na Espanha; na Inglaterra e em Ouricuri; na Alemanha e em Belford Roxo; no Leblon e no Caioaba; no Ouro Fino e na Chatuba; e que, ao retornar pra dentro de si mesmo, em todas vezes, encontrou tudo igual, sem nunca ter se rendido ao encantamento dos salões refrigerados e nem se contentado com o cheiro abjeto do valão de esgoto -, pois, pra este menino que insiste em viver ileso no corpo do cronista digital, isso é muito, sim.

Tanto vitupério é pra relatar a alegria boboca de este blog tão feioso, mas esperançoso de ficar bonito, ter passado de 20.000 visualizações e quase 16.000 visitas em um mês completado nesta data.

Obrigado. O cronista digital, prosa, agradece sua audiência.

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As aventuras de Maritudo

O nome dela é Marizete. Perdão, Marilize. Não, não. Marivalda. Quer dizer, Marilúcia. Talvez Marinara. Ou, quem sabe, Marilina, Mariline, Marielza, Marilena, Marilene, Marinilda, Marileia, Maricreuza, Marissol…

Marinada? Maritudo.

Pra quem também foi batizado com um nome… deixa eu pensar melhor num termo… com um nome diferente ou, vá lá, incomum (se eu escrevesse “esquisito” aqui minha mãe poderia se chatear, ou a da… Maribela?), bom, pra quem volta e meia é chamado de Orfeu, Alceu, Perceu, Dirceu, Narceu, Maxuel, Marcel, Marcelo, Márcio e tantas outras variantes, não é difícil compreender o que a… Maribete?…, bom, o que ela sente quando trocam seu nome.

O sobrenome dela é muito mais complicado do que o nome. Mas é batata. Só erram o nome.

Fotojornalista de imenso talento, mulher de olhos sensíveis e coração solidário, ela há muito tempo dispensou o flash. Aliás, há muito tempo, dispensou uma lista grande de itens que os fotógrafos carregam em suas bolsas sempre tão pesadas.

Pra falar a verdade, ela dispensou até mesmo a bolsa de fotógrafa. Carrega apenas seu instrumento essencial, a câmera – e, quase sempre, uma só lente.

Pra falar a verdade também, ela se desfez ainda da maioria de suas roupas e de seus sapatos e de seus acessórios de moça. Decidiu viver uma vida simples, apenas com o essencial e o necessário.

Dispensou também a casa, e, há quase um ano, pode acreditar, mora no mundo, viajando pra lá e pra cá, fotografando, fotografando, fotografando, ora pro “New York Times”, ora pro Greenpeace, ora pra uma revista ou um jornal ou uma instituição – e ela não pertence a nenhuma dessas corporações enormes ou empresas miúdas que a contratam. E lá vai ela, e lá vai ela, e lá vai ela, em sua reencarnação feliz de jornalista independente.

Marivete, desculpe, Maricleia expõe no LensCulture.com (nesse link aqui, zip.net/bdsXHs) as fotos dos quartos ou alojamentos em que dorme mundo afora.

Foi ela quem me apresentou à designação “jornalista independente” e me ensinou seu significado, suas delícias e seus temores. Delícias como não ter mais de fazer as contas dos plantões e feriados pra saber se a gente vai trabalhar no ano novo ou no Natal, no carnaval ou na Semana Santa, no domingo de jogão do Flamengo ou no aniversário de um filho. Temores como o da conta que vai chegar na virada de um mês em que sua renda beirou o zero real.

Foi ela quem me deu a mão, sem saber que fazia isso, e me conduziu, com uma delicadeza do tamanho de seu talento, pelos primeiros becos escuros da vida sem carteira assinada e 13°, sem férias proporcionais e plano de saúde corporativo, a vida sem dissídio, sem acordo coletivo e refeitório com almoço subsidiado.

Pois um dia chega na minha caixa postal um e-mail do Agostinho Vieira, o grande jornalista, idealizador do site #Colabora. Agostinho me encaminhava uma mensagem da… Maridirce?…, bem, uma mensagem em que ela, a Marizélia, falava de sua surpresa ao descobrir minha procedência da Baixada Fluminense.

Porque ela também é da área, e eu nem sabia.

Na mensagem tão bem escrita, a Marilaine propunha que fizéssemos juntos, eu e ela, pro #Colabora, uma matéria num plantão de sábado na emergência do Hospital da Posse.

A remuneração modesta, dentro das possibilidades do ótimo site colaborativo do Agostinho, não atraía no contencioso entre custo e benefício de uma noite de sábado. Mas a chance de dividir uma reportagem com a… com a… Marigilse?…, uma das maiores fotojornalistas do mundo – e digo isso sem exagero -, sim, isso atraía.

Curioso é que eu havia trabalhado a poucos metros da Marilinda, por muitos anos, na mesma redação de jornal, mas só trocávamos “bom dia”, “boa tarde” ou “boa noite”, ou só um “oi”, ou só um sorriso educado, ou nem isso, e nem eu e nem ela sabíamos da coincidência das nossas origens em Nova Iguaçu, a “Atenas da Baixada” – como eu descobri outro dia que a cidade já foi chamada, veja só, isso na primeira metade do século passado, quando nem eu e nem a Marivilma havíamos nascido.

E lá fomos nós, eu e Marivânia, perdão, Marigraça, enfim, lá fomos nós viver 12 horas, das sete da noite às sete da manhã, no inferno social de uma cidade doente, uma Baixada doente, um Rio doente, um país doente, na emergência do Hospital da Posse, com sua procissão de baleados, acidentados, estropiados, mortos e semimortos, que ali chegam em busca de lenitivo pra suas vidas fragilizadas.

Ou são desembarcados ali por ambulâncias apenas pra que consigam uma assinatura em sua certidão de óbito.

E, pela primeira vez, em tantos anos de (não) convivência, conversamos, eu e Mariclodes. E Maricláudia me apresentou ao mundo do jornalismo independente, e Mariclara me indicou a leitura de certos sites, e Marinelma me relatou as trajetórias de Fulanos e Cicranos e Beltranos, e também a dela mesma, pra me provar que é muito bom não ter carteira assinada e nem a segurança de um contracheque e nem o alegra-eu capitalista das participações nos lucros com seus que-tais e suas contrapartidas.

– O bom – ela me disse – é trabalhar naquilo que você faria até de graça. Tomei essa decisão. De um tempo pra cá, só faço o que eu gosto, o que eu faria até sem receber dinheiro.

“Bom”, eu pensei comigo, brincando na minha idiotice de mais um cidadão-número recém-somado ao índice geral de desemprego no país, “bom, essa mulher deve adorar estar aqui agora, às quatro e meia da manhã, na emergência do Hospital da Posse, vendo esses dramas todos, aquele senhorzinho com a cara mutilada logo ali adiante, aquela senhorinha obesa com aparência bem pobre recém-diagnosticada com AVC, aquele jovem desacordado na maca com o corpo em carne viva depois de cair de moto…”

Mas entendi, naquele minuto, a profundidade do que a Marinete dizia, e apenas confessei pra ela a minha incapacidade de me alistar entre os “independentes”, eu, afogado em boletos bancários, com tantas responsabilidades a cumprir até o quinto dia útil do mês.

E ela apenas sorriu e disse o que me diria muitas outras vezes depois daquela madrugada na Posse:

– Você consegue. Acredite, você consegue.

Aquela que seria nossa reportagem de estreia não chegou a ser publicada, porque a pauta específica que buscávamos não se concretizou naquele plantão, e logo depois vieram o Natal e o ano-novo e o carnaval. Mas ainda será.

Já faz alguns meses que nos (re)conhecemos, eu e Marigleide, e, desde então, viramos parceiros de reportagens. No #Colabora do nosso querido Agostinho, já fomos até “promovidos” ao status de dupla, e isso pra mim é um orgulho danado.

Com sua máquina e sua lente, a… Maribete?…, enfim, ela é capaz de cometer fotos belíssimas. É inimiga do constrangimento do objeto fotografado. Seja ele um bicho, uma flor ou gente. Com ela, todo mundo sai bem na imagem.

Ela mesma não gosta muito de posar. O flagrante aí de cima foi feito por uma detenta, hoje ex, chamada Íris, na casa de acolhida onde ela e outras mães condenadas eram levadas pra visitar os filhos, no sistema prisional de Varginha, Minas, numa das muitas andanças profissionais da Marilua em sua trajetória independente.

Toda essa rasgação de seda é pra dizer que, sem ela, Marizilda Cruppe – sim, repito, uma das maiores fotojornalistas do mundo, figura divertidíssima, mulher amiga, capaz de rir dela mesma quando lhe trocam o nome (e isso acontece dia sim, dia também, em entrevistas, caixas de banco, filas de supermercado, balcão de aeroporto, a ponto de a Maritudo colecionar os diferentes nomes pelos quais a chamam) -, enfim, tudo isso é só pra dizer que, sem o incentivo e a insistência da minha querida parceira, este blog, cuja função principal é dar alegria boba ao cronista digital e mantê-lo vivo e exposto, enfim e finalmente, sem a Marizilda, este blog nem teria existido.

Retrato do jornalista quando jovem

Num tempo em que o jornalismo era mais romântico e a gente achava que podia mudar o mundo com uma reportagem; tempo em que um furo durava 24 horas ou mais, e não havia internet a atrapalhar a alegria boba de acordar cedinho pra ver o jornal estampado com a chamada de capa de uma matéria nossa em primeira mão; numa época de sonhos de esquerda no poder, quando saíamos das redações, já tarde da noite, e íamos direto pro Lamas discutir quem seria melhor pro Brasil, se o Lula ou o Brizola; nesse tempo, eu convivi com um dos caras mais fantásticos que o jornalismo me concedeu conhecer.

Nesses 30 anos de estrada, vi poucos jornalistas tão criteriosos, talentosos, coerentes, combativos e certos de suas certezas quanto ele.

Esse cara se chama Fernando Brito.

A gente se conheceu na segunda metade dos anos 1980, quando eu, foca no ofício de repórter, fazia a cobertura da era brizolista no Rio. Brito era o assessor de imprensa do Brizola, um assessor como eu jamais soube da existência de outro igual.

Brito nunca se sentou perfumado e emplumado e engravatado na frente dos poderosos das redações pra fazer e receber afagos falsos em troca de um canal com as chefias – cena a que muito assisti nas minhas incursões nesse, digamos, “entremundo” corporativo da imprensa (nada contra, o mundo, com suas enormes batalhas do chamado “mercado”, está aí mesmo, numa evolução constante, a aniquilar romantismos tolos como o meu).

Pois o lidar do Brito era com os repórteres de tênis Bamba e calça jeans. Não que fosse antipático com os editores e diretores calçados em seus mocassins. Não era. Jamais foi. Só não vestia personagem. Nunca vestiu.

Ao contrário do que meus colegas de cobertura podiam supor naquele tempo, o Brito jamais me adiantou uma informação ou, no jargão jornalístico, nunca me presenteou com um furo.

Mas nunca, nunca mesmo, deixou de confirmar as notícias que eu apurava. Mesmo as embaraçosas pro Brizola.

Ou as que o Brizola julgava embaraçosas, porque resvalavam no insondável de sua vida privada – a rotina do homem apaixonado pela mulher, dona Neuza; sua preocupação com a exposição dos filhos; suas terras no Uruguai; seus 12 ternos, todos azuis, com calças e paletós numerados com caneta Bic nas etiquetas, pra ele não confundir o par de um com o de outro, coisas assim. Brito não deixava de confirmar nada.

Meu amigo Fernando Brito é um dos jornalistas que o destino mais injustiçou. Poderia ter sido editor, diretor de redação, grande repórter, colunista, ocuparia qualquer função em qualquer redação, e teria alcançado o Olimpo da profissão no ramal onde ela é – ou foi um dia – mais vistosa e glamourizada, que é o ambiente das sedes dos jornais, das revistas, das TVs e das rádios.

Mas preferiu cumprir seu papel de maior assessor de imprensa político de que já tive notícia nesses anos todos – ou foi preferido, ou preterido.

Pra gente, ele era mesmo o Fernando. “Brito” era como Brizola o chamava. Mas, com o tempo, acabamos incorporando o tratamento usado pelo Brizola, e ele virou Brito.

Nem o Brito e nem o Fernando apareciam em fotos com o Brizola, embora estivessem, o militante e o profissional, sempre ao lado do velho político gaúcho que amou o Brasil como poucos, muito poucos (esta imagem é um flagrante raro, raro mesmo).

Brito se manteve tão perfeito e fiel em sua encarnação de assessor que, mesmo sendo o chefe dele tão imprevisível em seus pensamentos e opiniões, era capaz de escrever seus “tijolaços” sem conversa prévia com o então governador.

Aliás, ele não escrevia. Ditava a uma secretária, andando de um lado pro outro em sua sala trancada.

Abre parêntese. Pra quem não sabe, “tijolaço” era o apelido das colunas (pagas) que Brizola publicava no “Jornal do Brasil” daquele tempo. E Tijolaço, pra quem também não sabe, é o nome de um blog campeão de audiência que o Brito mantém hoje. O endereço é tijolaco.com.br. Fecha parêntese.

Fernando Brito é um dos sujeitos mais dignos e justos que encontrei na minha existência profissional. Um elogio ou uma crítica dele – e o meu amigo tem sido pródigo nisso ultimamente, generoso e cruel com este cronista digital (já ameaçou até quebrar meu violão) – vale como um rubi pra mim.

Tudo isso é só uma confissão pública de gratidão. Devo a iniciativa deste blog – que, em menos de um mês, está perto de alcançar 20.000 visualizações (prometo contar quando chegar a 20.000, e eu nem sei se isso é muito ou se isso é pouco, ou se isso é quase nada neste mundo virtual, onde as palavras são bombas ou apenas estalinhos em seus segundos de explosão) -, enfim, devo a iniciativa deste blog à insistência e ao incentivo de duas pessoas, um homem e uma mulher, ambos jornalistas.

Dela, outra parceira de profissão de quem virei fã, vou falar outro dia. Do cara, falo agora. Ele é o Fernando Brito.

Perguntas que o silêncio faz

O que fazer com o olhar
se não nos querem mais ver?
A quem não quer escutar
o que devemos dizer?
A mão do outro apertar,
falar um “muito prazer”?
Quem sabe se apresentar,
fingindo não conhecer?
E o que fazer com o querer?
Como é possível ocultar?
E se o olhar se esquecer
e sua mira teimar?
Qual o melhor proceder?
E o que fazer com o pensar,
com o sentir, que fazer?
O que devemos mostrar
a quem só quer esconder,
a quem só quer evitar,
a quem não quer recorrer?
O que devemos contar
a quem não quer mais saber,
a quem só quer se afastar,
a quem só quer nos deter?
Só resta, enfim, disfarçar,
deixar o barco correr?

A caixa postal do cronista

“Você é o Orfeu, né? Ah, perdão… Narceu? Alceu? Dirceu? Desculpe, esqueci seu nome. Adorei o que você escreveu no carnaval e sobre o JB. Mas não fixei seu nome.”

“Por que você não cria uma novelinha e vai publicando os capítulos, criando um interesse?”

“Porra, eu vou quebrar esse teu violão pra você voltar a escrever.”

“Para de escrever essas bobagens que ninguém quer ler. Volta a tocar violão, volta. É melhor.”

“Cacete, escreva não por você, mas por nós. Falta humanidade no que a gente lê hoje em todas as mídias! Falta crônica! Você tem que escrever mais!”

“Não curto essa melancolia, cara. Desculpe. Adoro ler. Mas não gosto. Mas adoro. Mas não gosto.”

“Adoro esse jeito triste de olhar e descrever o mundo.”

“Pessoas felizes são mais interessantes, acredite em mim.”

“Esse Alfredo do Bip Bip é um grosso. Detesto aquele boteco dele. Ah, você ainda não escreveu sobre ele? Mas sei que ainda vai…”

“Menina, o Alfredo é pai dele!”

“Quem disse que você é triste? Acho você engraçadão. E sonso, isso, sim.”

“Eu não me interesso muito pelo Rio de Janeiro descrito nas crônicas.”

“Eu adoro esse Rio que você revela na sua escrita. Viajo junto.”

“Acho que ela gostou mais da bunda do que da história do bundo.”

“Os textos são grandes, mas a gente lê sem respirar, não cansa.”

“Ele sente falta de ler um texto seu menos poético de vez em quando. (Mas) disse que adora seus textos.”

“Procure escrever textos mais curtos. Você faz textos muito longos.”

“Não quero fazer da crônica um estilo menor, mas…”

“Cara, você escreve bem, mas escolhe mal os assuntos. Nem te conheço, mas sou sincero.”

“Ele acha que o seu talento na escrita aliado a uma informação com pegada de reportagem é o que anda faltando.”

“As pessoas andam falando muito delas mesmas.”

“O novo hoje é trabalhar com o que você faria brincando, de graça.”

“Você é 8 ou 80. Quem tá dizendo que é pra parar de escrever crônica?”

“Quem faz o que gosta se diverte trabalhando.”

“Aprendi muito com o Sidney Magal. Você já leu?”

“Escrever sobre a esquina de casa é pouco pras necessidades do mundo, não é? Por que não fazer mais com o talento que você tem?”

“Não leve a mal a pergunta, mas blog rende algum dinheiro?”

“Eu amo esse poema ‘O elefante’, do Drummond.”

“Desculpe, esse poema ‘O elefante’, do Drummond, é meio chato.”

“Não subestime o poder financeiro do seu blog.”

“Quem é Menelau?”

“Vai falar de mim? Mas vai ter meu crédito?”

“Posso ser sincero? As fotos do seu blog são bem ruins.”

“Se não fosse você (aqui quase todo dia escrevendo essas coisas), do jeito que a freguesia anda fraca no período de carnaval e pós-carnaval, o botequim já teria quebrado e fechado.”

O que os olhos veem e o coração percebe

Da minha janela, vejo, ao longe, não muito longe, o Cristo Redentor de braços abertos sobre a noite do Jardim Botânico, e, à sua esquerda, uma favela acesa, toda acesa, que rasga a floresta no Cosme Velho.

Vejo o céu rabiscado de nuvens que agora já não chovem, mas ainda há pouco choviam, e prometem voltar a chover. Numa nesga entre prédios, na madrugada iniciada, vejo a Rua das Laranjeiras agora muda e vazia do rio não faz muito caudaloso de carros e ônibus e motoboys e gente com pressa e mal distinguida à distância.

Imagino ver, além de cada ponto iluminado dos edifícios adiante, conspirações contra a felicidade e o bem-estar coletivos. Enxergo sono e enxergo desamores e amores em construção. Percebo como são grandes os males-entendidos e seu poder de aniquilamento de sentimentos e alegrias.

Um barulho de avião fora de hora polui o horizonte logo à frente, a poucos minutos de pousar, talvez no Santos Dumont, com uns 200 sonhos a bordo, e também desejos, e, quem sabe, aflições e, quem sabe ainda, saudades de partida ou de chegada.

Vejo o ninho quieto das rolinhas no caibro do telhado da varanda, e a memória retorna ao voo barulhento matinal do bando renitente de maritacas. Avisto na lembrança o casal de bem-te-vis que visita todas as tardes a caixa d’água do vizinho.

Tento adivinhar por onde vaga Adalgisa agora, com sua pose de mulher ideal, talvez já atravessando o corredor do prédio onde mora, talvez ainda na rua, voltando pra casa, talvez já despida em casa, talvez resistente numa mesa de bar, falando e gesticulando, ou, sozinha em sua cama, entregando seus pensamentos quem sabe a quem.

Os olhos fazem curvas, muitas curvas, e chegam às ruas de depois, atrás do morro adiante, e atrás do morro seguinte, e além de mais um morro, e, horizonte afora, através dos muros, em lugares onde duplas ou trios ou quartetos de amigos trocam confidências e risadas, ou onde velhos de olhos tristes, insones, examinam seu repertório de afazeres e sondam enfrentar filas na manhã seguinte, ou onde casais caminham de mãos dadas na noite sem se dar conta de que o futuro vai sempre conspirar contra eles – e que, por isso, é preciso cuidado, muito cuidado.

Da minha janela, percebo a marcha da vida que voltará a seguir ao nascer do sol, ignorando os olhos parados da moça ou do moço no ponto do ônibus.

Com muita tristeza, o olhar se debruça na janela, e, ao saber do assassinato de uma turista argentina em Copacabana, conclui, diante da foto da prisão dos suspeitos, que os autores de crimes assim na selva da cidade quase todos são negros, a exemplo do batalhão dos oprimidos e dos sem oportunidade. Tudo bem perto daqui.

E, envergonhados de fazer parte desta grande máquina de esmagar gente, os olhos se olham no espelho, e se fecham, e tentam dizer alguma coisa com seu silêncio, embora ninguém ouça.

Da minha janela, suponho o mar batendo fresco no Leblon, e também a multidão que, não faz muito, cruzava as roletas na gare da Central do Brasil à espera do último trem.

Suponho ainda, em cada luz que brilha até onde a vista alcança, o liquidificador de futuros que age impune em cada lar, em cada quarto, em cada mesa de jantar não desfeita.

Suponho beijos, abraços, gozos, bolas na trave na pelada dos garçons logo ali no campinho do Aterro. Adivinho discussões nas mesas do Lamas, na calçada do Galeto Sat’s, na Cracolândia da Avenida Brasil.

E vejo a ameaça perto, cada vez mais perto, cada vez mais, já quase dentro dos meus olhos, e o coração pulsa, pulsa, pulsa, e eu não temo nada, mais nada, e o sono chega, e a madrugada progride, e a madrugada se instala, e eu apenas fecho a janela.

A bunda, o ‘bundo’ e o carnaval

A corajosa exposição da bunda do colega Bernardo Tabak nas redes sociais, toda cheia de hematomas causados pelo espancamento da Guarda Municipal do prefeito Eduardo Paes, no domingo derradeiro de carnaval no Rio, remete a uma reflexão que me leva de volta à África  do Sul, onde passei 60 dias em 2010, na cobertura da Copa do Mundo.

Antes da bunda do Tabak, todo esse debate nas redes sociais sobre sexismo masculino, machismo, feminismo, primeiro assédio, amigo secreto ou oculto, misoginia, todo esse debate, enfim, que – apesar do carnaval e de seus convites e tentações – pareceu ter esmorecido um pouco, tudo isso já havia me feito lembrar da África e daqueles dias mágicos no país de Mandela.

Durante todos aqueles dias, convivi a maior parte do tempo com um amigo que ganhei em Johannesburgo, e que mantenho até hoje, em conversas esparsas pela internet, chamado Brian Motlafi.

Grande camarada o Brian. De etnia Xhosa, a mesma de Mandela e uma das nove do país, ele era produtor do “Big Brother África” – programa, aliás, também lá, farto em exposição de bundas. Pois Brian foi produtor do “BBB Africa” até ser atraído por uma oferta de trabalho temporário, durante aquele Mundial, como motorista da equipe do “Globo”, onde eu tive carteira assinada por pouco mais de 13 anos.

Brian se tornaria nosso parceiro, intérprete dos idiomas nativos (cada etnia sul-africana tem um), professor das particularidades daquela nação, que pra mim será sempre tão querida, e, com o passar das semanas, também virou amigo.

Foi Brian quem me levou à antiga casa de Mandela, no Soweto, espécie de Morro Agudo ou de Rocinha horizontal, no subúrbio de Johannesburgo, transformada em centro de preservação da memória e do legado do Madiba, como os africanos chamavam e vão chamar pra sempre o seu grande líder.

Num país de imensa maioria negra e, de certa maneira, de modos ingleses, sem se afastar de sua cultura original (pra início de conversa, o volante dos carros fica do lado direito), Brian me ensinou, por exemplo, que, lá, como no Brasil, há uma enorme valorização da bunda. Sobretudo, claro, a feminina.

Mas a bunda não apenas como atrativo sexual. O “bundo” – que é como essa parte do corpo é chamada no país em quase todos os seus idiomas oficiais, à exceção do inglês e do africâner – é também um símbolo da luta nacional por igualdade e liberdade. Não por coincidência, as mulheres sul-africanas, em geral, têm “bundos” generosos que chamam mesmo a atenção.

Um dia, daqueles tantos, Brian me levou à Universidade de Johannesburgo, onde um professor me explicaria a razão do respeito e, ao mesmo tempo, da paixão nacional confessada pela bunda. O culto ao “bundo” na África do Sul vem de Saartjie Baartman. Ou Sarah, como seu nome seria adaptado pro inglês e ficaria mais conhecido.

Escravizada por uma família holandesa na Cidade do Cabo, nos anos 1800, Sarah tinha um “bundo” mais que enorme. A ponto de se tornar atração pras visitas europeias da tal família de holandeses. Levada à França pra se exibir em circos, Saartjie comeria o pão que o diabo desbundado branco amassou, até morrer em 29 de dezembro de 1815, aos 27 anos de idade, de uma combinação de pneumonia e doenças venéreas, em Paris, onde, contra sua vontade, havia sido perversamente prostituída por um domador de animais e obrigada a exibir o corpo às multidões.

O domador de animais venderia o cadáver de Saartjie ao Musée de l’Homme, de Paris. O esqueleto e um molde do corpo daquela mulher, em gesso, além de seus órgãos genitais e seu cérebro, conservados em formol, ficaram expostos no museu até 1974.

Mandela, ao se tornar presidente da África do Sul, em 1994, exigiu formalmente à França a devolução dos restos de Saartjie. O pedido só seria atendido em 6 de março de 2002, e, hoje, o que sobrou do corpo martirizado daquela mulher – que a partir do governo Madiba se tornaria personagem relevante dos livros de História da África do Sul – descansa num mausoléu em sua terra natal, Gamtoos Valley.

A lembrança de tudo isso não é só uma tentativa de mostrar que, graças ao legado de Mandela, a África do Sul é um país que o forasteiro deixa, mas nunca deixa o forasteiro.

É também uma tentativa de reflexão sobre o “bundo”, a bunda do Tabak, a nudez feminina, enfim, todo o imaginário a respeito, tão em voga nos dias de carnaval, quando, principalmente as mulheres costumam exibir mais o corpo (“meu corpo, minhas regras”).

Meu amigo Brian e todo o povo da África do Sul choram até hoje a morte do seu Madiba, o homem que resgatou a história e a dignidade de Saartjie Baartman. O homem que sacralizou o “bundo”. O homem que, sem externar rancor, quebrou em mil pedaços o vergonhoso apartheid e ensinou a seus iguais negros uma tolerância que os espancadores fardados do Rio não conhecem. Mandela conseguiu tudo isso com sua pregação de paz, mesmo depois de ter passado 27 anos na cadeia subjugado por brancos.

Mas é a história de Saartjie que interessa de verdade aqui. Não ouvi, neste carnaval que passou, qualquer história de assédio ostensivo. Nem de ostentação de bundas ou de elevação de uma delas ao posto de “a bunda” feminina de 2016.

O carnaval tem dessas coisas. Curiosamente, a imagem de bunda que vai ficar dos dias de folia, no Rio, é a do Tabak, com suas marcas roxas e sua coragem de expô-la. E a pouca vergonha não terá sido a de nenhuma nudez, mas a do espancamento sem sentido da tropa despreparada da Guarda Municipal, em seu avanço desastrado pra dispersar jovens num bloco na Praça Mauá.

Em tempo: acredito, sinceramente, que as mulheres têm direito de fazer o que quiserem com seus corpos. Cabe apenas a nós, homens heterossexuais e multigêneros que apreciamos as formas femininas, respeitá-las e admirar sua bonita visão. A campanha das moças pelas redes sociais já terá servido pra alguma (r)evolução neste sentido.

Em tempo também: a história de Sarah Baartman merece um enredo de carnaval. Talvez nos ensinasse muito.

Em tempo ainda: a agressão ao Tabak não merece nem um mísero refrão de samba de bloco. Só repulsa.

O último clichê

Descubro, surpreso, que, a exemplo do “Jornal do Brasil”, a querida “Tribuna da Imprensa”, onde minha história particular no jornalismo começou, ainda existe em versão on line. Apenas se suicidou no papel, ou foi suicidada, também como o velho JB.

Lembro que me entristeceu muito a notícia de que a “Tribuna” deixaria de circular. Foi no antigo jornal da Rua do Lavradio, na Lapa, que cometi meu primeiro lide. Era 1986, e eu, moleque ainda, subi aquela escada de madeira muito íngreme em busca de um estágio.

Fui recebido pelo Joaquim, chefe dele mesmo no setor de pesquisa, onde era o único funcionário. Joaquim, se minha memória não apronta desfeita, usava colares de umbanda e tinha a cara enfezada.

Contei minha história, disse que, sem o estágio, não conseguiria me formar na faculdade – eu estudava no Instituto de Arte e Comunicação Social, Iacs, da UFF – e pedi que me ajudasse.

Começava como editor-chefe naquele mesmo dia o grande jornalista Ricardo Gontijo. Joaquim, talvez tocado pela minha cara de andorinha molhada recém-pousada de um voo acidentado desde Morro Agudo, combinou de me apresentar como um afilhado ao Gontijo.

– Como é o teu nome? – perguntou.

– Marceu – respondi.

Esperei em silêncio no terceiro andar, num ambiente apinhado de jornais velhos que recendiam a mofo e a História. Joaquim foi almoçar, e fiquei ali, olhando tudo e sem tocar em nada, a não ser no embrulho do queijo quente feito em pão francês, já frio àquela altura, que eu havia comprado no botequim lá de baixo, o Boteco do Sabará, sujeito boa-praça, tão retinto quanto vascaíno, de quem eu viria a gostar tanto.

Quando o Joaquim voltou, e o Gontijo finalmente chegou para seu primeiro dia de trabalho, o meu “padrinho” me levou até ele, no segundo andar, onde ficava a redação, e disse, com seu vozeirão e sua moral de empregado mais antigo:

– Seu Gontijo, este aqui é meu afilhado, o… o… o…

– …Marceu… – cochichei.

– …meu afilhado Perceu! Ele precisa de estágio.

– …Marceu… – sussurrei de novo.

– Isso, o Alfeu! Não, o Alceu, quer dizer, o Morfeu! Ele precisa de estágio.

Depois de mais alguma espera, fui mandado para a rua com uma repórter bem bonita (não lembro agora o nome dela, mas o rosto, sim), e foi assim, com uma matéria nunca publicada sobre uma greve do metrô, que consegui minha primeira ocupação no jornalismo.

Na “Tribuna”, conheci gente que, até hoje, é referência pra mim. Tarso de Castro, que de colunista se tornaria editor-chefe no lugar do Gontijo, me apresentou a um Rio glamouroso que eu não conhecia. Iza Freaza, hoje Iza Salles, apostou em mim como um dos primeiros repórteres do suplemento “Tribuna Bis”. José Trajano, querido chefe, me fez, com meu coração rubro-negro, gostar ainda mais do seu América Futebol Clube. Teixeira Heizer, cracaço do texto e do bom senso, me deu lições de estética e ética que guardo para sempre.

Paulo Sérgio, com seu mau humor, tentou corrigir meus defeitos de repórter iniciante – e, claro, não conseguiu. Ramiro Alves viraria meu amigo da vida inteira. Celso de Castro Barbosa, idem. Vladimir Porfírio, meu irmão querido, também. Maurício Fonseca é mais um. As irmãs Lídia e Beth Pena, outras. Palmério Dória, Cosme Coelho, Paulino Senra, Venerando Martins, Carlos Ramos, Lilian Newlands, Deborah Dumar, Regina Perez, Ana Carvalho, Robertão Porto, Carla Rodrigues, os fotógrafos Alcyr Cavalcanti, Jorge I, Jorge II, Jorge Nunes e Marcus Vinícius, Continentino Porto, Hudson Carvalho, Juçara Braga, Geraldo Lopes, Arthur Parahyba, Antônio Caetano, os caricaturistas Jane e Marcelo, Argemiro Ferreira, o fabuloso Bertoldo, os velhos Napoleão e Aragão, Fábio Grecchi, tanta gente…

A começar pelo Helinho Fernandes, que assinou minha primeira carteira de trabalho na profissão e me mandou para uma temporada de um ano em Brasília, onde morei de favor na casa do amigo e baita repórter Jorge Oliveira, fui foca na Constituinte de 1988 e tive a alegria de fazer entrevistas longas (que adoraria recuperar) com políticos como o então também foca Lula, em seu primeiro e único mandato de deputado, o já emplumado e já famoso FH, Mário Covas, José Richa, Eduardo Suplicy e outros.

Nunca vou me esquecer dessas pessoas. Nunca vou me esquecer da “Tribuna”.

Pela “Tribuna”, entrevistei Luís Carlos Prestes num 1° de Maio na Quinta da Boa Vista e ganhei dele um livro autografado. Pela “Tribuna”, vi Leandro, maior lateral-direito do Flamengo, do Brasil e do mundo em todos os tempos, meter um golaço no ângulo de Paulo Victor num Fla-Flu. Pela “Tribuna”, assisti à tragédia do incêndio no Edifício Andorinha. Jamais vou esquecer.

Como também nunca vou conseguir me esquecer do “Jornal do Brasil”. Recordo que estava na África do Sul, em 2010, pelo “Globo”, quando li pela internet a notícia de que o JB de papel iria acabar.

Passei no JB os dias mais felizes da minha vida profissional. Passei no JB também os dias mais tristes. Foram oito anos. Oito anos tão intensos, divididos em dois períodos de quatro, que, na minha memória afetiva, pareceram bem mais de oito. Pareceram uma vida toda. Ainda parecem.

Quatro dias foram os mais marcantes da minha carreira de jornalista. Dois foram os mais felizes. Dois, os mais tristes. O primeiro mais feliz foi o da minha chegada ao JB, em 1988, se não me engano. O segundo foi o da minha volta, em 1994. O segundo mais triste foi o da minha primeira saída, em 1991. O mais triste de todos foi o da minha despedida para sempre, em 1998.

Talvez nada que eu ainda possa fazer nos anos que me restam na profissão marque tanto a minha carreira quanto os oito de JB. Eu gostava tanto daquela casa que, na minha neuropatia amorosa de jovem repórter, imaginava não haver ninguém que a amasse tanto. Nem seus donos.

Pelo JB, fui a Ouricuri, nos cafundós de Pernambuco, e entrevistei uma senhorinha que, nos fundos de seu quintal de chão rachado pela seca, administrava um cemitério particular. Era o cemitério informal de seus próprios filhos natimortos. Um quintal espetado por umas 15 cruzes, nenhuma delas amparada em atestado de óbito. Um Brasil que o Brasil jamais registrou. Como testemunha, estava comigo o grande repórter-fotográfico Tasso Marcelo.

Pelo JB, passei um mês na Floresta Amazônica à espera de uma epidemia de cólera que nunca chegou.

Pelo JB, em 1990, numa viagem a Porto Alegre, entrevistei Alceu Colares, então candidato ao governo gaúcho, num momento em que caía nas pesquisas depois de, em plena campanha, ter trocado a mulher negra por uma loura um pouco mais jovem, a quem a língua má da oposição chamava de “Xuxa”.

Colares chorou na entrevista, e o choro descrito e retratado na reportagem ganhou uma dimensão enorme em seu estado, e seu pranto queixoso de preconceito ecoou no Rio Grande do Sul, e o “Doutor Negrão”, como era conhecido por lá, voltou a subir nas pesquisas para vencer o direitista Nelson Marchesan.

Pelo JB, descobri uma praia deserta no Rio, onde Brizola, então governador, havia se refugiado para meditar e, em certa ocasião, levado seu amigo Mário Soares, socialista português, ali presidente de seu país. Brizola ia até lá de helicóptero, único meio de transporte possível até o refúgio.

Pelo JB, apresentei ao Rio e ao Brasil um botequim de Copacabana chamado Bip Bip.

Pelo JB, subi e desci todos os andares do Edifício Chopin, em Copacabana, num pós-réveillon, para um relato pretensiosamente antropológico da então riqueza decadente do Rio.

Pelo JB, ajudei a acrescentar linhas nas biografias do próprio Brizola, do Collor, do Lula, do FH, do Cesar Maia, do Marcello Alencar, do Moreira Franco, tantos outros políticos que ainda estão por aí ou já se foram.

Pelo JB, trabalhei quase 24 horas seguidas no dia em que o corpo de Tom Jobim chegou ao Brasil, em dezembro de 1994.

Pelo JB, tantas coisas.

No JB, tive a alegria de escrever no espaço que um dia havia sido de Castellinho. Saudade.

Por causa do JB, conheci Betinho, e muito escrevi sobre ele, seu calvário e sua morte. Saudade também.

Saudade do “200 no lugar da 20”, jargão de retrancas que só quem trabalhou lá pode entender. Saudade do quadrado de memória nas páginas de política, das minhas interinidades no “Informe JB” do meu guru eterno Ancelmo Gois.

Saudade de assistir ao amanhecer num boteco infame da Leopoldina depois das madrugadas de “pescoção”, saudade do pôr do sol em São Cristóvão, o mais bonito do Brasil. Saudade de tanta gente. Saudade de mim mesmo e do repórter-cronista que eu sonhei que poderia me tornar naquelas páginas impregnadas de tanta nobreza.

No Leblon

Não teve tempo de dizer aonde ia quando saiu contrariado, batendo a porta, querendo que a vida passasse depressa e, com ela, a lembrança daquele dia e de tantos outros difíceis de esquecer.  Murmurou um “vou ali”, fingiu que não ouvia uma última reclamação sobre seu jeito demasiado simples e sua lentidão diante das coisas e partiu sem vontade de voltar.

Mesmo sabendo que dali a pouco entraria novamente por aquela porta para reencontrar a sala que ela, sem perguntar nada, havia redecorado sem satisfações, condenando a um canto qualquer do quartinho dos fundos toda a sua coleção de pequenas importâncias contidas em  quadros antigos, bibelôs sem graça e em objetos ordinários de família.

Sabia que ainda amava aquela mulher a quem, não fazia muito, entregava-se sem prestar atenção nas horas e até em si mesmo. Mas, agora, era diferente. A rotina se encarregara de mutilar o lirismo de tantos dias felizes e de ferir, quem sabe de morte, como ele suspeitava tomado de raiva, o romantismo muitas vezes sem sentido com que costumava enxergar as miudezas da vida em comum.

Tinha noção do quanto havia lutado por ela, de quantas noites havia perdido no exercício inútil de conjeturar possibilidades no futuro improvável em que viveriam juntos para sempre. Sentia-se farto, esgotado e, sobretudo, fraco.

Estava convencido de que ela o havia traído mais de uma vez, entregando-se a ex-namorados de um passado nem tão remoto e a paixões de ocasião sem consistência.

Era dia de jogo do Brasil, o Leblon nem parecia Leblon às 5h daquela tarde de terça, mergulhado no silêncio das pessoas que, em casa, esperavam um gol narrado na Copa. A única voz que se ouvia nas ruas era a dos locutores de TV, vazada em coro pelas janelas dos apartamentos da Ataulfo de Paiva e de suas afluentes desertas.

Naquele instante, desejou com todas as forças a derrota do Brasil – só para ela sofrer. Encostou o cotovelo no balcão do botequim mais próximo, onde uma TV embaçada exibia o jogo, ignorou o burburinho em volta e mergulhou na memória de tardes mais amenas.

Lembrou-se de quando se conheceram. Estavam num bar. Ela com uma calça jeans estilo anos 1970, uma blusa de certa transparência que deixava ver o sutiã meia-taça e a beleza impiedosa de seu dorso, sandálias brancas, cabelos soltos e hálito fresco. Ele de jeans surrado, camiseta branca, tênis velho e cheiro de cerveja na boca.

Reparou nos pelos dourados que lhe compunham a pele do braço e desejou aquela mulher como não se recordava de ter desejado nenhuma outra, em qualquer tempo.

Uma bola na trave o acordou do sonho daquela primeira noite, encerrada com o beijo mais longo que já dera na vida, numa esquina do mesmo Leblon de agora, bem perto dali.

Teve vontade de voltar, mas resistiu. Sabia que, ao chegar, a mulher no apartamento não seria a mesma daquela noite de descobertas. Como ele próprio, estava contaminada pelos desfavores da rotina e tinha a alma corrompida pelas concessões da vida a dois.

Não deu atenção ao gol narrado na TV, tomou o último gole de cerveja, pagou a conta e partiu.

A rua vazia convidava à calma e a pensar mais. Convenceu-se de que a paixão tem como variáveis o rancor e a mágoa – e que o tempo, com seus pequenos desastres cotidianos, cuida de incinerar emoções antigas sem conseguir apagar a dor de suas recordações. Mas se sentiu desarmado, e preferiu voltar.

Abriu a porta, olhou a mulher com o rosto banhado em lágrimas e, sem dizer nada, entrou no quarto, descalçando os sapatos. O mesmo quarto de tantas noites de paixão, os mesmos sapatos que ela lhe dera na especialidade de certa data, ele já não lembrava qual.

– Sabe há quanto tempo você não me fala como foi o seu dia? – ela perguntou, com a voz comprometida pelo choro de ainda há pouco.

– Sabe há quanto tempo você não me pergunta? – ele devolveu, antes de entrar no banho.

Dormiram sem se tocar, ambos com o coração saturado de fracassos coniventes, ambos com a sensação inconfessada de que estavam errados. No fundo mais fundo de suas almas, sentiam-se reconfortados com a presença um do outro, embora, ali, na viuvez dolorida de um dia perdido em plena idade da rebeldia e da ardência das paixões, ainda não suspeitassem que o nome que se dá a isso também é amor.

* Texto publicado originalmente em “Nada não e outras crônicas”, do autor, 1999, Editora Mauad

Carta de carnaval

Meu caro amigo Lefê. Escrevo pra você na segunda-feira de carnaval, o primeiro sem sua enorme figura por aqui, no nosso querido Rio de Janeiro – figura que, de tão enorme, sabe Deus como podia caber no seu 1,60m.

Começo a escrever a poucas horas da concentração do Bloco de Segunda, ali na Cobal do Humaitá, onde você, certamente, estaria hoje, eu sei.

Fui abatido pelo tal zika vírus em plena época da folia, amigo. Mas você ficaria orgulhoso. Eu disse um “foda-se” pro mosquito (um “foda-se” com candura, você me conhece), não deixei o tamborim cair, vesti minha camisa listrada e saí por aí, como Assis Valente nos induzia naqueles tantos carnavais em que nos divertimos juntos nos blocos, abraçados como pai e filho – e o pai, evidentemente, era eu, apesar dos seus 20 anos mais.

No sábado, cantei pra umas 10 mil pessoas, sei lá, no palcão da Lapa. Bom, “cantei” é um tremendo exagero. Cantamos. Nosso parceiro João Pimentel, o Janjão, foi mais uma vez finalista do concurso de marchinhas da Fundição Progresso e me contratou a peso de ouro, nem queira saber, pra eu fazer parte do grupo de intérpretes da composição dele, do Eduardo Gallotti e do Nuno Neto na finalíssima.

Janjão se fantasiou de Adão, precisava ver que graça. Gallotti, outro parceiro querido da gente, se vestiu de Noé. Outra graça. O Nuno não pôde ir, e, no lugar dele, este seu amigo subiu ao palco com orelhas de coelho, bermuda preta de bolinhas brancas e uma camiseta vermelha que estampava no peito uma imagem do nosso padroeiro São Sebastião.

Eu devia estar com uns 38° de febre, mas foi divertido. E ainda compunha o cenário da nossa cantoria, no palco, um balé de bichos formado, entre outros, pelo Márcio Dorneles, lembra?, o nosso amigo que foi técnico do Carioca da Gema. Marcinho meteu no rosto uma máscara de porco e deu conta do rebolado. A Maria Teresa Madeira, ela mesma, a imensa pianista, mulher dele, filmou tudo e pôs no Facebook.

Ficamos em terceiro. Mas saímos felizes dali, porque nos divertimos muito. Até porque o critério não era o mérito. Venceria quem conseguisse mais votos numa eleição pela internet. Deve ter tido gente que contraiu tendinite de tanto que votou em si mesmo.

Você não era disso. Nosso irmão Janjão não é disso. Nem Gallotti e nem Nuno. Não somos. A gente leva a coisa até o limite da diversão, e só nos chateamos com sinceridade quando o talento é punido por quem não sabe julgá-lo. Isso existe. Você sabe.

Foi muito bom rever a Lapa tão grandiosa e apinhada de foliões e folionas de todas as cores e gêneros. Eu me lembrei de você, claro, porque, se a nossa Lapa estava assim, tão viva e fervilhante, o gene desse renascimento foi seu. Pra sempre será.

No domingo, novamente, mandei o mosquito pra fruta que caiu e saí de palhaço rumo ao Cordão do Boitatá, na Praça XV. Fui sozinho, parceiro. Eu e minha coceira da zika atravessamos um mar de mulheres maravilhas, moças lindas pintadas de verde e dourado, aquela mesma enorme ala de Smurfs e outra multidão de fantasias do Boi Tolo até chegar lá. Foi muito bom também.

Pelo menos até a hora em que o mosquito foi mais forte do que eu e me obrigou a me retirar sozinho, à francesa, de volta a Laranjeiras, sem me despedir de ninguém, como você sabe que faço.

No nosso bairro, dei de cara com o cortejo do bloco Laranjada. Janjão estava lá com a Marcela, namorada dele, que o tempo, esse vilão insensível, não deixou você conhecer. Estavam lá também nossos amigos Luciana Conti e Cadoca. Foi um ótimo meio-fim de tarde (aliás, Marcela e Marita, mulher do Gallotti, também estavam na nossa “arca” no palco da Lapa/Fundição ao lado de mais um punhado de boas amigas-bailarinas – bom, deixa eu explicar, “arca” porque a marchinha do Janjão, do Gallotti e do Nuno se chama “A marcha de Noé”, e você teria gostado de ver e rido muito).

Ah, eu me esqueci de contar que, no sábado de manhã, encontrei a Mônica na saída da feira da General Glicério. Quase no mesmo lugar onde a gente se viu pela última vez, lembra? Ela está muito bem, Lefê, fique tranquilo. Sente muita saudade, claro, mas mantém o mesmo sorriso nos lábios e o seu nome gravado pra sempre no coração.

Mônica me contou como foi emocionante depositar uma parte das suas cinzas no desfile do Simpatia, cumprindo seu desejo. Ela me confessou que, mesmo sem você ter pedido, guardou um pouquinho das cinzas pro desfile do Meu Bem, Volto Já, onde ganhamos a disputa de samba uns cinco anos seguidos – eu, você e Janjão, e algumas vezes com mais parceiros, como o Gallotti mesmo, o Mário Moura, o Samir Abujamra, o Gerard…

Amigo, dei razão à Mônica. O Leme ocupava um pedaço grande no seu mapa sentimental do Rio. Eu sei disso. Sabemos disso. Você concordaria. A Mônica fez bem. Mesmo sem seu consentimento (ela também deixou outro pouquinho das suas cinzas naquela praia de Paraty onde vocês dois se amaram tanto).

Aliás, o Meu Bem decidiu homenagear você este ano. Vão cantar um samba nosso. Escolheram o “Maria, Calmaria!”, aquele que falava dos 500 anos do Descobrimento. Eu sei que você teria preferido o da “Baleia”, que falava do “Big Ben do marido da mulata” (como rimar relógio do Hans Donner e Valéria Valenssa num samba de bloco? E a gente conseguiu! Graças ao Janjão!). Mas, pena, não me consultaram. E vão sair com o “Calmaria”. Tudo bem.

Também fizeram um samba inédito repleto de citações de versos de composições que fizemos pro bloco. Mas não nos chamaram, nem este seu amigo e nem o Janjão, pra integrar a parceria. Achei indelicado. Fiquei um pouco desapontado quando soube. Acho que você também ficaria. Mas, você sabe, eu não ligo pra isso.

Os desapontamentos que me ferem de verdade são outros, e passam longe da diretoria dos blocos. Vão no meio da multidão, multiplicados por aí, sabe-se lá fantasiados de quê.

Sinto muita falta das nossas conversas, parceiro, das nossas confidências, dos nossos brindes quase de manhã no Clube Condomínio, no Horto, e das nossas gargalhadas nas madrugadas da Lapa ou de Copacabana. Sinto falta dos seus aconselhamentos, e até de dar conselhos pra você, teimoso que sempre foi pela própria natureza.

Neste carnaval mesmo, eu precisei dos seus conselhos – e, admito aqui nesta carta fechada, mas pública, que chorei um pouco, no sábado, pensando no que você teria me dito antes de soltar aquela gargalhada: “Marceuzinho, Marceuzinho… vai se divertir! Hahahahaha!”

Antes que a conversa avance, deixa eu contar que vi também o Pedro, seu filho, quinta passada, no baile do Trapiche Gamboa. Não deu pra conversar naquela muvuca, mas fique tranquilo, amigo, porque, como a Mônica, o Pedro está muito bem. Todos estamos, apesar do mosquito.

Amigo, parei de escrever nossa carta neste ponto e fui assistir à saída do desfile do Bloco de Segunda. Dividi um táxi com Luciana e Cadoca. Acabei de voltar e retomo a escrita aqui. Não é que a Moniquinha estava lá? Falamos muito de você!

Mônica me disse que ficou chateada no segundo desfile do Simpatia, ontem, domingo de carnaval. Haviam prometido cantar, no “esquenta”, um dos seus sambas campeões no bloco. Mas se esqueceram.

Mônica achou que foi descuido – como você também acharia. E foi mesmo. O comando desses queridos blocos, todos dirigidos por amigos nossos, não vê em nós, compositores, muita importância. Acreditam, de verdade, que a maior honra que podemos receber é vencer a disputa no bloco deles.

Nunca pedimos pra receber nada. Mas tudo nesse ambiente é remunerado. Do segurança que leva a corda ao colega músico que esmerilha as mãos no repique ou no surdo. Menos o compositor, esse ser menor que se contenta apenas com o aplauso. Por isso nos magoa quando nos falta o respeito.

No mais, parceiro querido, “o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta”, como cantava outro compositor genial que sempre esteve no nosso repertório de carnaval, ou de não carnaval, o Chico Buarque.

Você não sabe. Uns engomadinhos cercaram o Chico no Leblon, outro dia, e disseram um monte de bobagens só porque ele apoia a Dilma e é contra o golpe que andaram tentando construir pra derrubá-la. Ah, sim! Tentaram isso, você não sabe – e com alguma ajuda da nossa imprensa, essa mesma que, às vezes, tanto me envergonha, e isso você sabe. Mas não vingou, que bom.

Nesta terça, temos na agenda sua homenagem no Meu Bem, o desfile do Bloco do Cardosão – que você nunca foi, mas gostaria muito de ir, tenho certeza – e o “bailão-fecha-a-tampa” do Trapiche. Você vai junto em tudo isso no coração da gente.

PS: amigo Lefê, depois da minha carta fechada e pública seguir pra você, o Jorgito Portenho, como você o chamava, presidente do Meu Bem, me escreveu e garantiu ter me chamado, sim, pra parceria do samba em sua homenagem. Disse que fez isso pelo Facebook. Eu disse a ele que não vi a convocação na rede social. Ele ficou triste por eu ter dito que você preferiria que cantassem nosso samba da “Baleia”. Argumentou que eu poderia ter dito isso antes. Ele tem razão. Eu disse que nem tinha citado o nome dele na nossa carta. Mas ele novamente argumentou que falar do Meu Bem é falar dele, porque ele é o bloco. Ele também tem razão. Peço desculpas.