Sentimentos

Outro dia, no fim de uma sessão de “Eu, Daniel Blake” no Espaço Itaú de Cinema, na Praia de Botafogo, no Rio, uma mulher gritou “fora Temer!” como se buscasse um culpado pelo calvário do personagem-herói do bonito filme do britânico Ken Loach.

– Fora Temer!!!

Tudo que a gente faz é movido por sentimentos, eu pensei na hora. O sentimento que moveu aquela mulher deve ter sido raiva, ou um certo desapontamento conectado com a realidade dela mesma ou a de alguém querido, ou de revolta com o que ela tem visto de ruim ultimamente no Brasil.

Ou vai ver a motivação principal da moça foi só a vontade de se divertir mesmo, e rir um pouco, e fazer rir da situação geral e atenuar o desfecho sombrio do filme do Ken Loach.

Nem todo mundo na sala repetiu o grito dela, mas houve risadas, e ninguém se levantou pra defender o primeiramente, perdão, o presidente. Ou seja, ficou mais ou menos estabelecido, na saída do cinema, que a culpa pelo drama do Daniel Blake é do Temer mesmo.

O filme, como se sabe, conta a história do marceneiro sexagenário Blake, um analfabeto digital que luta contra a burocracia inglesa pra tentar receber o benefício do seguro-desemprego depois de sofrer um ataque cardíaco e ficar, por isso, afastado do trabalho.

Blake é um viúvo endurecido pela vida, mas de coração bom, e ajuda a puxar a cortina do Primeiro Mundo que esconde uma Inglaterra perversa e segregadora de seus pobres tanto quanto o Brasil. Na fila da Previdência Social britânica, lidando ora com funcionários robotizados e sem alma, ora com outros sensíveis mas impotentes diante do seu drama, ele conhece a mãe solteira Katie, que também padece com os dois filhos na busca por um benefício.

Os dois desenvolvem um amor mútuo, paterno e filial, e a interseção das suas duas vidas constrói a trama, que poderia ser rodada aqui mesmo, neste país do Temer e de milhões de Blakes e de Katies, onde já são quase 13 milhões de desempregados, reféns de uma Previdência desumanizada e agora às voltas com uma reforma ameaçadora.

O Brasil anda desinteressante e desesperançado, exatamente como o país descrito na história do Blake, e também já não parece causar orgulho, punido pela volta dos que não foram e pela nova ascensão dos sem-voto ao poder – e, como na narrativa do filme, o que nos salva são os sentimentos. Daí deve ter surgido o grito de desabafo da mulher no cinema.

Sentimentos bons como o do Blake pela Katie, e o da Katie pelo Blake, e ainda o dos filhos dela por ele, e o dele pelas duas crianças, enfim, sentimentos assim tornam o mundo mais interessante e nos socorrem nos momentos de maior dilaceração social e mesquinhez coletiva aguda, como agora.

Sentimentos como pareceu ser o da mulher no cinema são também libertadores. É deles, aliás, os sentimentos, que Daniel Blake e a jovem Katie e seus dois filhos se valem o tempo todo.

Às vezes, eu olho as pessoas na rua, e é como se estivessem todas se socorrendo dos sentimentos pra seguir em frente – a senhorinha no ônibus, a mocinha sentada logo adiante no banco do trem, o homem em pé no metrô, a balconista da padaria com seu olhar triste, a mulher de batom no táxi parado no sinal luminoso da esquina de Rua Alice com Rua das Laranjeiras, o ambulante na praia, o motorista do Uber, a caixa do supermercado, o garoto meio maluquinho que pede dinheiro no botequim, a multidão sem trabalho.

No fundo, somos todos Katie e Daniel Blake em busca de saciar nossas necessidades de algum benefício, de comer e beber e de amar um pouco. Andamos pelas cidades do país com olhos de quem deseja encontrar algo na esquina seguinte – os amores perdidos, os novos encontros, os recomeços, os meios de sobreviver, uma trilha do Ennio Morricone que nos console a alma sem afeto depois do incêndio no nosso Cinema Paradiso, a inocência do Forrest Gump, ou tudo isso junto, ou apenas um benefício previdenciário igual ao pretendido pelo Daniel Blake e pela Katie.

De um modo subjetivo, podemos encontrar isso num abraço ou numa troca de olhar, ou até na batida dos Tambores do Olokun, o bloco carioca de carnaval que une sagrado e profano no coração de quem ouve. Ou num passeio de mãos dadas pela noite do Aterro do Flamengo, ou na espera da criança que está pra nascer e mudar tudo nas nossas vidas, ou num telefonema inesperado, ou no grito de “fora Temer” dado por uma mulher desconhecida dentro do cinema.

Os sentimentos preenchem os vazios, amenizam ou potencializam as saudades, as faltas, a ansiedade pelo que ainda vem, a pressa e a lentidão que nos atrapalham ou nos põem no lugar certo na hora certa, como foi com Daniel Blake e Katie e com aquelas duas crianças.

Foi como eu compreendi “Eu, Daniel Blake”, e foi como ouvi pela primeira vez os Tambores do Olokun neste domingo de calor no Aterro do Flamengo.

Uma vez, uma mulher que eu nunca tinha visto na vida me pediu um abraço somente pra chorar com algum amparo. Ela só chorou e foi embora. Nunca esqueci o rosto dela.

Uma vez conheci um garotinho que vendia Embaré no trem (quase ninguém deve se lembrar do Embaré), a gente virou amigo, e logo depois ele morreu numa queda no trilho. Ele se chamava Isamir, e eu também nunca o esqueci.

Uma vez o Flamengo foi campeão do mundo, no Japão, e aquele dia ficou pra sempre na minha memória. Uma vez eu aprendi que os amores de verdade jamais acabam, mas suas dores, sim.

São assim os sentimentos. Sorrateiros, nos escolhem, não se deixam escolher. Na tela, favorecido pela coincidência de um encontro na fila da Previdência Social britânica, um sentimento mudou pra sempre a vida do Blake e da Katie.

Os sentimentos vagam soltos por aí, no ar, à espera de contaminar o nosso corpo e o nosso pensamento com suas consequências às vezes devastadoras, como talvez tenha sido com a moça que só queria um abraço pra amparar o seu choro; ou às vezes só libertadoras como o “fora Temer” da mulher indignada com a desdita do Daniel Blake na tocante história exibida no cinema.

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Um ano

Nesta quinta-feira, 26 de janeiro de 2017, fez um ano que este blog nasceu. Desde então, fechadas as contas, o cronista digital foi lido em 111 países por 130 mil pessoas – a imensa maioria, claro, brasileiros desgarrados por aí.

É muito pouco diante do oceano infinito da internet, onde as equações são feitas na casa dos milhões. Mas o cronista sente um orgulho danado.

De lá pra cá, muita gente reagiu às coisas do blog pelas redes sociais e em mensagens privadas. Algumas dessas reações já foram publicadas aqui. Pra comemorar a data querida, segue uma nova seleção.

“Vou insistir. O seu nome é mesmo Marceu ou é Marcel?”

“Vem cá, não lembro se você já disse, mas Marceu é um heterônimo?”

“Não é que seu nome seja feio, mas… poderia ser pior, entende?”

“Morfeu, por onde anda Adalgisa? Escreva mais crônicas sobre ela.”

“Adorei suas ‘entrevistas do além’ com o Brizola. Faz uma com o professor Darcy Ribeiro. Ele talvez vomite ao falar do Temer e do Sérgio Cabral.”

“Detestei suas ‘entrevistas’ com o Brizola. Que ideia de jerico!”

“Morro Agudo fica na Bahia?”

“Morro Agudo fica no Ceará?”

“Morro Agudo é uma favela?”

“Você é homem ou mulher?”

“Desculpe perguntar, mas você é homo ou hétero?”

“Você é casado?”

“Quantos filhos você tem?”

“Quantos anos você tem? Parece tão jovem.”

“Suas crônicas parecem escritas por alguém mais velho.”

“Odeio quando você defende a Dilma.”

“Orfeu, adoro quando suas crônicas vão fundo na descrição desse golpe.”

“Sou brasileira, trabalho como garçonete em Paris e isso não tem nada a ver com o que eu queria dizer. Quer casar comigo? Tô brincando. Mas, se quiser levar a sério, pode!”

“Moro em Bogotá, brasileiro, trabalhando aqui. Suas crônicas, às vezes, são meio chatas. Mas sabe que eu gosto? Eu devo ser chato também.”

“O que o juiz Sérgio Moro te fez, cara?! Você é contra a Lava-Jato?!”

“Põe títulos com rimas nas suas crônicas. Isso atrai mais leitura. É sério! Experimenta pra ver.”

“Acho que já te perguntaram, mas vou perguntar também. Seu blog dá dinheiro?”

“Você tem Tinder?”

“Você não é normal. Em que tempo você vive, ô Alceu?”

“Você fala de coisas comuns. Isso é encantador.”

“Mais de 100 mil pessoas já te leram? Quanta gente idiota…”

“Ei! Eu sou essa leitora que você disse que tem aqui na Malásia!”

“A crônica que eu mais gosto é sempre a próxima. Obrigado por isso, Perseu.”

“Seu poema sobre a História do Brasil deveria ser usado em sala de aula.”

“Uma bobagem sem tamanho esse seu pretenso poema sobre a História do Brasil.”

“Publica uma foto da Adalgisa. Quero ver se ela é isso tudo mesmo.”

“Ainda não entendi se Adalgisa existe ou não existe.”

“Ouvi outro dia uma música sua na internet chamada ‘Meu saravá!’, gravada pela Clarice Magalhães. Você é macumbeiro?”

“O Marceu Vieira roteirista do ‘Adnight’ é você mesmo? Ou é um xará?”

“Seu nome é estranho. Mas eu gosto. Acho que gosto de coisas estranhas. Aliás, você parece estranho também.”

“Para de falar do passado! Que chatice.”

“Adoro quando você aborda coisas passadas.”

“No meu sítio, essa flor-de-santa-luzia cresce sem parar. Eu arrancava tudo, mas, depois de ler sua crônica, fiquei com dó.”

“Você escreve bêbado? Parece.”

 

Sobre o nascimento das coisas

Volta e meia, ainda acordado em casa quando a madrugada já é quase manhã, tento acompanhar o nascimento das flores do capim-de-santa-luzia que recolhi da rua e replantei num vaso no quintal.

Nunca consegui vê-las nascer. Mas acho de verdade que vou assistir a essa cena um dia. Não tenho pressa.

Deve ser um nascimento rápido e sem dor. Porque o capim-de santa-luzia floresce todo dia – e suas flores azuis, tão azuis, tão bonitas, duram só algumas horas. Logo fenecem quando o sol aquece muito a terra, pra desabrocharem novamente na manhã seguinte e na manhã seguinte e na manhã seguinte.

Fico tão curioso da existência desta flor tão simples, e ao mesmo tempo tão cheia de especialidades, que sempre pesquiso coisas sobre ela. Li no site do Jardim Botânico do Rio, por exemplo, que o capim-de-santa-luzia só não ocorre em três estados do Brasil, todos do Norte – Acre, Roraima e Amapá.

No mais, cobre todo o mapa brasileiro, bem como o dos Estados Unidos e os de outros países americanos, com a diferença de que aqui dá flor o ano todo, enquanto em lugares com estações mais definidas desaparece no inverno.

No Brasil, pelo menos no Rio, pelo menos aqui na rua, é planta que nasce em qualquer canto de meio-fio, capaz de sobreviver longo tempo sem ser aguada. Talvez por isso tenha o nome de capim.

Descobri num outro site, esse sobre essências florais, que o perfume extraído das pétalas do capim-de-santa-luzia tem poder de “cura de sentimentos renitentes”. Diz esse site que a essência da florzinha azul permite o “alinhamento dos corpos emocional e mental” e faz “o eu superior mostrar novas maneiras de olhar velhas situações repetidas pela força do hábito em nossos relacionamentos, trazendo a possibilidade de nos libertar desses padrões, muitas vezes cármicos”.

Será? Nunca usei o perfume pra comprovar, mas sei que a florzinha é bem bonita, e só se deixa ver de manhã. No resto do dia, a planta se desembeleza e só se parece mesmo com um capim.

Outra curiosidade é o nome. Ela se chama assim, claro, por causa da Santa Luzia, a mártir católica que viveu no século terceiro depois de Cristo e teve os olhos arrancados a mando do imperador romano Dioclesiano, por se recusar a abandonar sua fé – daí ser a padroeira dos oftalmologistas e a protetora dos olhos e, mais ainda, de quem tem olhos e não pode enxergar.

Dos relatos da sua canonização, consta que, a cada vez que os guardas do imperador Dioclesiano arrancavam os olhos de Luzia, novos olhos lhe brotavam ainda mais azuis.

Curiosamente, o botão que guarda a florzinha azul antes do seu nascimento se assemelha – e muito – com a pálpebra humana.

Segundo a crença católica, Luzia, na verdade Lúcia, recolhia o capim pra alimentar os cavalos subjugados pelos homens. Na Itália, na véspera de sua data (13 de dezembro, dia da morte dela, no ano 304 d.C.), as mães católicas incentivam as crianças a pôr um pouco de capim num prato e deixar sobre a mesa antes de dormir. De noite, diz a crença, Santa Luzia passa e leva o capim. Em troca, deixa no prato doces de presente pra criançada.

Na ciência, o nome da plantinha é Commelina angustifolia. Falo dela aqui não por motivação científica, muito menos religiosa, mas por uma reflexão renitente na minha cabeça estes dias, e que transborda no meu coração agora, sobre o nascimento das coisas – e se entenda por coisas tudo, tudo mesmo, inclusive os bebês, inclusive os sentimentos duradouros, e inclusive as rosas, e até a Rosa, e até a florzinha de Santa Luzia, que, apesar de não durar quase nada no seu ciclo de quatro, cinco horas, se muito, é infinita no seu renascer, todo dia, todo dia, todo dia, e na sua boniteza simples e tão azul.

A florzinha do capim-de-santa-luzia nasce toda manhã, insistente, de parto natural, na hora em que bem quer – que é como também nascem os bons sentimentos, gestados no nosso coração pelo tempo necessário, tão urgentes como a paixão, ou tão cheios de caprichos demorados como o amor.

*  *  *  *

Crônica dedicada à Rosa, menininha que vai nascer a qualquer minuto, a qualquer segundo, se já não tiver nascido quando estas palavras saídas com ênfase do coração do cronista digital forem lidas.

Sobre ciclos que terminam e outros que começam

Batman, o gato aí da foto, bonito toda vida, é tão curioso que sempre contempla o Rio do alto da Rua Cardoso Júnior, de onde vê Laranjeiras lá embaixo, oferecida e distante, parecendo uma maquete. Batman ensina sem saber.

Outro dia, fiz esta foto do Batman – e, desde que fiz, entrei nela e ainda não saí.

Há pouco tempo, o Batman cumpriu um ciclo na vida dele. Era um gato de rua, ou de outra casa, até escolher entrar por uma janela.

Todo mundo é um pouco Batman. Cumprimos ciclos e observamos a vida da janela – a de casa, as dos prédios que dão pra rua onde passamos, a do carro, a do ônibus, a do trem, outras janelas apenas subjetivas, como a da nossa alma ou a  da alma dos outros, abertas repentinamente pra gente ao menos ver ou imaginar o que vem depois.

Às vezes, o que vem depois é muito bom, e isso nos convida. O Batman foi. Viu a janela aberta e entrou. Hoje, assiste à vida dali, e parece se sentir feliz, sem querer voltar pro lugar de onde veio.

As mudanças de ciclo, separadas por janelas, também impõem perdas. Acho que o Batman sabe. Aí, pesamos essas perdas e as confrontamos com o que podemos ganhar ao atravessar uma janela – às vezes, só um pouco de esperança. E avançamos.

O Batman olha da sacada o que deixou pra trás ao decidir entrar numa nova janela. Os olhos dele dizem que não se arrependeu, embora seja livre bastante pra voltar atrás se quiser.

Invadi a foto do Batman, dela ainda não saí, e vejo lá embaixo um país acidentado e ruim. Um país onde o Batman em que me disfarço não deseja ter o papel conivente de quem descreve a realidade de acordo com a impressão dominante.

Assisto, pelos olhos do Batman, a uma cidade paralisada diante da incógnita de uma prefeitura não laica. Observo um estado refém de um governo pusilânime e temente a pilhadores aos quais seu principal ocupante até há pouco ainda servia.

Com os olhos emprestados do Batman, vejo um Rio que anda indecente e abjeto, apesar de tão belo, tão belo. Um que pune os velhos e os deixa sem dinheiro e ofende o pobre carente de hospital e escola com os efeitos da roubalheira de seus poderosos acobertados pela boa vontade do pensamento dominador, rico e branco.

O Batman não quer isso. Não queremos.

Vejo, pelos olhos do Batman, as rebeliões seguidas de chacinas nos presídios. Vejo a chacina do futuro na Uerj, crime hediondo que deveria ser punido com prisão.

Vejo a chacina do bom senso com a volta da febre amarela logo ali em Minas – e vejo também a chacina do voto e a da Previdência Social e a da saúde coletiva e a da educação pública, todas cometidas por políticos bolorentos, que eu não respeito (e o Batman também não), beneficiários da montagem de um troço já carimbado na História como golpe.

Assisto à chacina de alegrias e de tantos sonhos, frutos do egoísmo de uma elite política e econômica fedorenta sob seus desodorantes caros, tudo isso ocorrendo na cara da gente sem provocar nenhuma ou quase nenhuma rebelião na vizinhança, na rua inteira, no bairro, na cidade, no país, nas Laranjeiras observada aqui do alto pelo Batman. Por mim.

Muito difícil contar tudo isso senão de onde o Batman disfarçado nos olhos do cronista assiste à vida lá embaixo. O vento batendo nos olhos do Batman, a certeza de que a vida cumpre ciclos.

O ciclo da existência do ministro Teori Zavascky, interrompido na queda de um avião. O ciclo dos meninos da Chapecoense e o dos amigos que se foram.

Os ciclos se despedem e surgem sem que ninguém possa se dar conta do exato instante em que começam ou terminam, em qual janela. Os empregos, as pessoas que nos deixam e as recém-chegadas, a sequência das horas, os nascimentos, tudo é parte de algo bem maior. Os ciclos.

Daqui de onde eu e o Batman fundidos num só vemos as coisas, do alto de uma rua desimportante de Laranjeiras, o Rio oferecido lá embaixo com seus convites, os bons e os maus convites, nem tudo chama. Mas a janela já atravessada permite saber que a vida é um sopro – e que é preciso experimentá-la.

É preciso decidir ver o mar. Em algum momento, até a despedida do sol no horizonte, ou mesmo depois, sob o luar, é preciso. Talvez amanhã. Ou depois. É preciso.

É preciso decidir não aceitar o que agride e se render ao convite da possibilidade da alegria. É preciso voltar a Morro Agudo. Mesmo que não seja amanhã. Ou depois. Ou depois. Ou depois. Mas sempre.

O homem travestido de Batman decidiu guardar o passado na paisagem e abrir os olhos pro futuro além do cenário diante dele. Decidiu regar as plantas e beber um pouco. Não muito além do prazer.

Um ciclo termina e outro começa. O outono se despede e vem o inverno, e o inverno vai embora e vem a primavera, e a primavera prenuncia o verão e as coisas se reorganizam e o coração se reorganiza e a vida é reposta e refeita, e a gente segue.

Fábulas

Assisti outro dia a “Capitão Fantástico”, filme americano dirigido por Matt Ross, com jeito de independente, sobre a história de um casal que decide criar os seis filhos isolados da sociedade, livres do consumismo reinante nos Estados Unidos, num casebre no meio de uma floresta do Noroeste Pacífico. Apesar do argumento recorrente e da linguagem de fábula, a sequência de cenas, de quase duas horas, é tocante.

O pai, o tal capitão Fantástico, é vivido por Viggo Mortensen. Ben, seu nome, é um sujeito de esquerda, devoto das teorias do filósofo e linguista americano Noam Chomsky – e, de certo modo, simpático também à pregação de mundo ideal proposto por Karl Marx.

Ben e Leslie, nome da mulher dele, vivem num paraíso terrestre com sua criançada, até que o destino trapaceia e desarranja seus planos. Leslie desenvolve uma bipolaridade grave, desgarra-se da família pra se tratar no mundo formal, e, naufragada numa depressão, acaba se matando no hospital.

É a partir daí que o filme começa, já sem Leslie, com a jornada de um pai sonhador em viagem com os filhos, estrada afora, rumo ao Novo México, num ônibus transformado em motorhome, pra tentar evitar o funeral cristão da mulher e fazer valer o desejo dela, firmado em testamento, de ser cremada e ter as cinzas jogadas numa privada de um banheiro qualquer.

Ben é um cara bacana, de academia, dono de cultura extraordinária, e dedica a vida a transformar os filhos, de quem passa a ser o único professor, em seres humanos perfeitos. Mas quando é forçado a deixar o paraíso com suas crianças, a vida real desafia seu projeto e confronta a inocência da filharada a tudo o que ele havia ensinado.

O filme provoca uma reflexão sobre o amor e a liberdade, em especial sobre o amor e a liberdade nas relações humanas – mais especialmente ainda, por ser a temática da história, sobre o amor e a liberdade nas relações entre pais e filhos.

Leslie só aparece na tela já morta ou em algumas alucinações de Ben durante a longa viagem até o Novo México, onde o enredo, de fato, se desenvolve e vira um drama, desses capazes mesmo de emocionar e fazer chorar.

A família de Leslie culpa Ben pela morte dela. O sogro, que surge na história ainda apenas como uma voz de vilão ao telefone, pra depois se materializar e se humanizar, acusa também o genro de segregar seus netos e de roubar deles as delícias da vida americana.

Ao longo da história, embalada numa trilha sonora cheia de delicadeza, heróis e vilões vão trocando de papel, e só no fim as certezas se repõem.

As fábulas são sempre assim – perfeitas no início, depois sofrem turbulências que fazem chorar, e só no fim as certezas se recompõem.

Os melhores momentos da vida real são os que se parecem com as fábulas. Somos todos carentes delas. Mesmo os mais duros de nós.

A gravidez bem-sucedida de um casal apaixonado, por exemplo, é uma fábula, com seus momentos de dúvidas e inseguranças do pai e da mãe, até que o nascimento vem e dá início à vida real, entremeada por outras fábulas do dia a dia. Também é assim o início de um namoro, com seu estopim de paixão seguido de discordâncias previsíveis e desfechos de cena em que tudo fica bem depois (“onde você estava até essa hora que não me ligou?”). As amizades, os flertes, tudo.

Caetano Veloso tem uma canção chamada “Sete mil vezes” em que fala exatamente das fábulas, embora não cite isso na letra. Ele diz que “sete mil vezes tornaria a viver assim, transando sob as estrelas”, numa “hora grande”, com seus 60 minutos multiplicados e multiplicados e multiplicados, e que de tão multiplicados e multiplicados e multiplicados não passam nunca.

Também é do que trata Gabriel García Márquez no seu bonito romance “O amor nos tempos do cólera”, quando Florentino Ariza e Fermina Daza, já velhos, iniciam uma viagem de barco. Na compreensão de quem lê, a viagem vai durar pra sempre na eternidade de uma fábula.

A vida, os encontros, as descobertas, os governos – principalmente os comandados pela esquerda avalizada pelo Chomsky e por seu discípulo Ben -, tudo isso devia caber só no tempo eterno de uma fábula. As quase duas horas de “Capitão Fantástico”, que passam tão rápido e são cheias de encantamento, mostram isso.

Acho que vou assistir de novo.

A chave

Uma vez, talvez em 1991, o português Mário Soares veio ao Rio e, encantado com o litoral da cidade, quis mergulhar numa praia. O governador era Leonel Brizola. O Rio vivia um tempo em que o helicóptero oficial do governo era usado com decência. Parece incrível, mas houve esse tempo.

O piloto do helicóptero oficial era o comandante Maia. Nunca mais soube do comandante Maia. Bom sujeito.

Brizola era amigo do Mário Soares desde a segunda metade dos anos 1970, anos difíceis de ditadura por aqui, quando havia se exilado em Lisboa, depois de ser expulso pelos golpistas do Uruguai.

Com as ditaduras da América Latina já desfeitas, e Brizola no Palácio Guanabara pela segunda vez (como se sabe, pro desconforto da direita, ele já havia sido eleito em 1982), enfim, com Brizola lá, Mário Soares pôde satisfazer seu desejo de mergulhar numa praia sem aborrecimentos.

O governador convidou o então primeiro-ministro de Portugal pra um passeio de helicóptero até um certo trecho isolado do litoral. Seria um pouso arriscado, na areia, não muito recomendável, mas o comandante Maia sabia como fazer – e o Brizola confiou nele, e o Mário Soares confiou no Brizola.

Agora, só agora, tantos anos depois, eu confirmo que o tal trecho de litoral era a Prainha – e confirmo porque o Fernando Brito, meu amigo, que era o assessor de imprensa do Brizola, contou isso ainda há pouco no seu superblog, o Tijolaço, ao relatar esta mesma história (quem quiser ler pode clicar aqui, recomendo).

Conto de novo, sem as precisões e observações valiosas do Brito, porque fiz parte dessa história. De certa forma, fiz sim. Na época, eu trabalhava no “Jornal do Brasil”, onde cumpria meu noviciado como repórter de política. Uma fonte havia me contado de certos passeios do Brizola até aquele trecho de praia deserta, falado também da ida do governador com o Mário Soares, e eu escrevi uma matéria que desmontava a intenção de denúncia do uso do helicóptero oficial pra isso.

Em tempo: o Brito não me ajudou na apuração. Só não desmentiu. O Brito era assim.

A fonte que havia me revelado aquele passeio esperava uma denúncia publicada na primeira página. A imprensa era implicante com o Brizola. Até o “Jornal do Brasil” era.

Mas meu coração de repórter passou na frente da intenção da denúncia, e, com a concordância do Marcos Sá Corrêa, tão querido e tão brilhante editor-chefe do jornal, o que eu escrevi foi o relato de um passeio lúdico de dois homens de bem a uma praia deserta, dois grandes homens.

Lembrei essa história a propósito não apenas da morte do Mário Soares, sepultado nesta terça-feira, 10 de janeiro, em Lisboa, mas também como um pretexto pra falar de chaves especiais que alguns de nós encontramos na vida e de quem as encontra e sabe fazer o melhor uso delas.

Mário Soares encontrou algumas dessas chaves. Brizola também encontrou.

Aliás, com a morte do ex-primeiro-ministro e ex-presidente português, lá se foi mais um pedaço grande do século 20. Ser adulto numa virada de século, e já se passaram 17 anos desde a virada do 20 pro 21, é não estar a salvo da percepção do tempo. A gente percebe como compridos são os séculos – e assiste ao desaparecimento de homens tão necessários como o Mário Soares. Como o Brizola, que morreu em 2004.

Os séculos são tão longos. A vida é tão passageira. Acho que o Brizola e o Mário Soares souberam perceber isso naquele passeio de helicóptero até a tal praia deserta. Hoje, não há mais Brizola nem Mário Soares por aqui, e os helicópteros comprados com dinheiro público já não são usados com aquela decência. Também nem mais a Prainha é deserta.

Os dois, o gaúcho maragato Brizola, homem tão castigado pelas tentativas de enxovalho da comunicação dominante, e o político português, que dobrou a ditadura de Salazar e ascendeu com a Revolução dos Cravos, ambos tiveram chaves e abriram portas pra Humanidade entrar – e, como a Humanidade nem sempre entrou, perdemos todos.

Ter a chave pode ser apenas esperar pra assistir ao dia amanhecer sem culpa, porque vai valer a pena. Acredito de verdade que o Brizola e o Mário Soares tenham tido paciência de aguardar, pelo menos uma vez, o dia amanhecer sem culpa.

Ter a chave, às vezes, também pode ser a confissão de não saber de alguma coisa, porque só atravessa uma porta quem tem vontade de saber o que vem depois – e a vontade de saber o que vem depois é justamente a chave.

Ter a chave pode ser ainda somente ficar feliz com um gol do time do coração, ou reconhecer a beleza onde ela mora de verdade, a das pessoas e a das coisas.

Tem gente que se dá muito, mas não o bastante pra encontrar a chave. Brizola e Mário Soares se deram muito e encontraram. Pobre Brasil e pobre mundo que não entramos em portas que eles dois abriram.

Brizola fundou com Darcy Ribeiro a magnitude dos Cieps, por exemplo. A mesquinhez das elites daquele tempo, a social e a intelectual – sim, ela também, a intelectual, pena -, enterrou tanta grandeza, e apesar da doação feita pelo Brizola e pelo Darcy a chave foi desperdiçada. Estão aí, agora, três gerações, ou quase quatro, que poderiam ter tido destino diferente com os Cieps.

Chet Baker encontrou a chave do trompete. Pelé, a do gol. Sigmund Freud, a dos mistérios da alma. Marie Curie, a dos segredos da física. Van Gogh e outros, a da pintura. Virginia Woolf, a do empoderamento. Santos Dumont, a da leveza do ar. O apóstolo Paulo, a da fé. Francisco de Assis, a da compreensão dos bichos. Carlos Drummond de Andrade, a das palavras. Tantos, tantas chaves.

Mário Soares, como o Brizola, encontrou a chave da fraternidade, da compaixão pelos humildes, da dedicação sincera na luta em favor dos mais fracos e dos que mais precisam.

Vai fazer falta.

Um amor de carnaval

Não sei quantos anos faz.
Ele era jovem demais.

Uma mulher mais madura
olhou pra ele e foi dura:

“Quantos anos você tem?”
E prosseguiu com desdém:

“Tenho quase a sua idade,
faz de conta que é verdade.”

Ainda lhe disse assim:
“E pode zombar de mim.”

Ele não quis responder,
só preferiu devolver:

“E você, quando nasceu?”
A mulher enraiveceu:

“Eu já tenho mais de trinta,
embora, às vezes, eu minta”,

reagiu, pouco sincera,
com seus lábios de quem dera.

“A idade é importante?
É assim tão relevante?”,

ela foi impaciente,
com seu jeito saliente:

“No fundo, são preconceitos,
não ligo pros seus defeitos”,

lhe disse, exibindo os peitos
entre dois botões desfeitos

da blusa mal ajeitada
na sua pele abrasada.

O corpo dele acendeu –
e a mulher percebeu,

flagrando naquele olhar
desejos sem confessar.

E dele pegou a mão
e pôs em seu coração:

“Ouve bem o que eu digo,
não há o que não consigo.”

Os bicos rijos dos seios
saltavam pra ele, alheios

à sua vontade louca
de tê-los na sua boca.

“Me beija”, ela, então, pediu.
“Anda! Puta que o pariu!”

Beijou-a, desajeitado,
seu corpo todo inflamado

de garoto de subúrbio,
já quase tendo um distúrbio.

Abriu-lhe o fecho da calça
e com a mão feita em alça

pegou-lhe a intimidade,
tirou dele a castidade.

A sua boca encharcada
de mulher desesperada

uma hora, pronto, subia,
em outra, louca, descia.

(Prazer se dá e se aceita
na virgindade desfeita)

E ele, desgovernado,
tremendo, todo suado.

A mulher era o oceano
de um marinheiro profano

a lhe navegar da bunda
à sua parte fecunda

com dedos de bergantim
naquela água sem fim.

Os seus pelos tão molhados,
tão macios, aparados…

E ele jorrou, pungente,
na febre de adolescente,

seu amor inaugural
num dia de carnaval.

Nem um adeus ela deu.
Ele jamais esqueceu.

O ano da Rosa

Em 2017, eu vou caminhar de mãos dadas no calçadão do Leme e sentir a brisa no corpo e ter paciência de esperar pra poder assistir ao balé de um golfinho no mar. Mesmo que demore, ou o golfinho não venha, ou só eu o veja por dois segundos, sem testemunhas, eu vou. Quem quer vir comigo?

Vou ao Maracanã ver jogo do Flamengo em 2017, e beber depois num botequim da Tijuca, e voltar alegre pra casa, cantando no táxi, ou no uber, ou no ônibus, ou no metrô, ou na bicicleta, ou a pé, pela rua, pelo pensamento, pela madrugada. Vai ser bom.

Em 2017, vou cantar com meu filho, só nós dois, um violão, uma guitarra, um monte de música bonita, um monte de gente querida na plateia. Vamos cantar “Blackbird”, “Nádegas de Thaís”, “Amendoim e caviar”, “Meu mundo é hoje”, tantas outras canções – e vão nos aplaudir e pedir bis, e talvez a gente repita tudo depois.

O Sujinho, extensão tão criticada de quase metade da minha existência, vai ficar lindo em 2017. Prometo. Nem que seja pelo contágio de quem vier comigo a bordo. E eu vou a Teresópolis e a Búzios e a Paraty e a Morro Agudo. Muitas vezes a Morro Agudo. E a Paquetá – mas, aí, não de Sujinho. Vamos?

Eu vou dizer “não” quantas vezes eu quiser em 2017, e quem me ama vai entender, mesmo que isso signifique ter menos dinheiro do que já tenho. Vou continuar me sentindo envergonhado da estrada que um certo jornalismo tomou, um que já não me interessa, e dar boa noite de madrugada pro vizinho que não dorme, e ouvir “Love” com John Lennon no último volume até o dia amanhecer.

Ao cinema, vou muitas vezes. O Bip Bip, boteco-paraíso de Copacabana, vai voltar a ser uma rotina, tanto faz se medida, mas vai – e eu vou cantar e trocar cordas de violão e descer e subir de bicicleta a Rua Mundo Novo, Laranjeiras-Botafogo, Botafogo-Laranjeiras, tantas vezes, tantas vezes de perder a conta.

Talvez eu não precise ir nenhuma vez a qualquer cemitério, e isso vai ser bom demais. E eu vou estar muitas vezes com meus amigos, vou abraçá-los e lembrar com um sorriso dos que já se foram, mesmo que eu chore um pouco.

Vou mergulhar no mar, voltar pra areia e mergulhar de novo, e subir numa árvore, e gritar “fora Temer” na travessia da Baía de Guanabara rumo a Niterói pra fazer lá o que ainda não sei, mas saberei. Também vou dançar até o céu clarear e aproveitar cada minuto do prazer concedido.

Em 2017, vou pedir proteção a Oxalá e à Oxum e a Oxóssi e a Xangô e a Ogum e à Iemanjá e à Iansã e à Nanã Buruquê e a todos os orixás, e à Santa Rita de Cássia e à Santa Bárbara e a São Judas Tadeu e à Nossa Senhora da Glória e à Nossa Senhora da Conceição e a todas as Nossas Senhoras. E me apresentarei de pé muitas vezes diante da imagem de Nossa Senhora de Fátima, na Igreja do Cristo Redentor, e, quase sempre, sem dar vexame pra mim mesmo, por não saber rezar direito, só vou dizer baixinho: “Obrigado, Nossa Senhora, muito obrigado.”

Numa dessas vezes, talvez eu esteja com pressa de beber uma cerveja, mas Nossa Senhora não vai se importar. Eu vou pedir perdão, e ela vai perdoar.

Em 2017, uma mulher vai sorrir de manhã quando acordar do meu lado e olhar nos meus olhos, e eu vou gostar. Dentro de um avião, vou confundir uma nuvem com um algodão doce que recusei na infância – e a nuvem vai me redimir da recusa dessa vez.

O prazer que eu vou dar e sentir, dar e sentir, dar e sentir, dar e sentir, dar e sentir, dar e sentir vai ser cada vez melhor e sobreviver pra sempre na memória.

Não vou mandar em ninguém em 2017, nem ninguém mandará em mim – mas tudo que é bom e valioso e for urgente, impreterível, forçoso, imperioso, inevitável será cumprido com gozo.

Vou compor muito em 2017, e escrever muito, e falar o necessário, o imprescindível, e saber discernir o imprestável do essencial. Saberei ficar e partir, e vou lamentar pouco, quase nada, quase nada, e, se for possível, talvez nada.

“However distant, don’t keep us apart”, eu vou recitar Lennon em 2017. “Love’s free, free is love.”

Em 2017, vou fazer um gol e abrir do meu jeito vários pacotes de biscoito Globo. Vou dizer “foda-se” algumas vezes, e vai ser bom. E tomar banho de mangueira pelado no quintal, e, se me virem, vou dizer baixinho: “Foda-se.” E cantar “Negue”, do Adelino Moreira e do Enzo de Almeida, e, se acharem ridículo, vou dizer no meu pensamento: “Foda-se.”

Vou ao Jardim Botânico e ao Parque Lage, à Quinta da Boa Vista e ao Parque da Pedra Branca, ao Morro do Márcio Caulino e ao Circo Voador, ao Boteco da Juliana e à Fundição Progresso. Vou revisitar Pedra de Guaratiba e me emocionar com as lembranças da infância.

Vou pedir a bênção a uma tia que não vejo há muito tempo, comer pastel na Central do Brasil, rever uma prima e beber cerveja em Santa Teresa. Em 2017, vou me desapegar ainda mais dos significados do dinheiro e de seus aprisionamentos humanos, mas ele não vai faltar pra pagar as contas, nem as minhas alegrias comezinhas, nem as de todos que habitam o meu coração. São muitos.

Em 2017, vou me jogar na multidão do carnaval de rua e ouvir as últimas gravações do Radiohead e ouvir de novo Geraldo Pereira e Wilson Batista e Noel Rosa e mais uma vez o Radiohead e uma vez mais, e chamar uma mulher pra dançar – e ela vai aceitar meu convite, e vai ser bom, muito bom.

Uma praia sem ninguém além de mim me espera em 2017. Um beijo que não vou esquecer nunca mais, também. Uma valsa que vou compor, um samba, um bolero, um aplauso comprido, tudo isso me espera.

Abraço coletivo dos filhos, uma risada demorada, um almoço de domingo que jamais vai sair da lembrança, um convite inusitado, uma carícia inesperada, um novo abrir de olhos de manhã com o desejo aguardado me olhando, são coisas que virão em 2017.

E eu vou pegar Rosa no colo, e Rosa vai rir pra mim, e eu vou dar a mão à Rosa numa das suas primeiras caminhadas, e Rosa vai me reconhecer como parte das suas células, e ela, das minhas, e Rosa será o futuro, e o futuro vai ser bom, e eu vou andar no calçadão do Leme de mãos dadas. Quem quer vir comigo?