Diamantes no voo da Chapecoense

A tristeza grande, o desapontamento excessivo, a surpresa negativa além do limite, uma porrada desproporcional do destino, tudo isso me conduz à prostração e não me ajuda a escrever.

Por isso, desde a manhã da terça-feira, dia 29 de novembro deste 2016 que já vai tarde, venho tentando dizer alguma coisa sobre o Guilherme Van der Laars, o Victorino Chermont e o Paulo Júlio Clement. Tento, retento e não consigo nada que preencha tão grande sensação de vazio e impotência e impossibilidade.

Eu já conhecia os três antes de 2006. Mas eles só viraram meus queridos companheiros nesta existência naquela Copa da Alemanha, nas tantas viagens que fizemos juntos, pra lá e pra cá, no país do Schweinsteiger.

A gente dividiu hotéis, fileiras de assentos de avião, balcões e mesas de bar, bancadas de imprensa nos estádios, filas de aeroporto, coletivas da seleção, confissões de saudade de casa, risadas, tantas coisas.

Sobretudo o Guilherme, que se tornou quase um siamês de mim naquela viagem tão feliz, um companheirão das madrugadas, ao lado ainda do fotógrafo Fernando Maia (amigo, precisamos nos ver, o tempo na Terra é muito ligeiro) e do André Guarabyra, nosso mago da informática, que nos salvava das encrencas com o computador (Guará, você também).

A tragédia imensa que matou quase o time todo da Chapecoense – e, mais ainda, matou a alegria de um clube e de sua torcida logo na primeira grande glória, como finalista de uma competição internacional -, essa ruína, essa debacle, esse fracasso da vida, essa desconstrução de toda promessa de felicidade, esse acontecimento inominável, isso tudo levou junto a vida de 20 jornalistas, e, entre eles, três que moravam, ainda moram, vão morar pra sempre dentro do meu coração.

A tragédia que devastou as vidas das mães e dos pais e das mulheres e dos filhos e dos parentes e dos amigos todos do Ananias, do Bruno Rangel, do Danilo, do Cléber Santana, do Marcelo, do Arthur Maia e demais jogadores da Chapecoense foi socializada com o lado de cá da notícia.

Agora, quando escrevo, é meio da tarde de quarta-feira, quase dois dias depois da queda esquisita do avião, e o Cristo Redentor segue sumido no meio das nuvens, que chovem aqui em Laranjeiras, Zona Sul do Rio, e parecem chover aqui dentro de casa e aqui dentro de mim.

A morte é cega e estúpida. A morte não discerne. Não poupa os justos, nem os jovens, nem os seres mais necessários. É óbvia na nossa finitude, mas, quando surpreende, por tão inusitada, como fez agora, choca e paralisa.

Mas corta novamente pra Copa de 2006. Naquela Alemanha toda enfeitada pro seu primeiro Mundial depois da reunificação, naquele país em completa festa e de atitudes hospitaleiras com a gente, eu fiquei muito próximo deles três – Guilherme, PJ e Vitu.

Cada um, por uma razão diferente. O PJ assessorava o Ronaldo Fenômeno, e eu vivia na cola dele. Apesar de tanta diversão, a vida do PJ não foi fácil lá. Como nós, ele também levou muitos dribles do Ronaldo. Só os zagueiros adversários é que não tiveram problema com o camisa 9 do Brasil. Porque o Ronaldo jogou melhor fora dos campos do que dentro.

PJ já havia sido meu contemporâneo de JB e, depois, do “Globo”. Tínhamos muitos queridos amigos em comum, como o Aydano André Motta e o Alexandre Medeiros – e acho também que o meu irmão João Pimentel, o Janjão, já era uma grande amizade dele naquela época.

Tricolor curtido nos dias da Máquina de Rivelino, o PJ não transportava a paixão dele pros comentários esportivos no jornal e, mais recentemente, na televisão.

Lembro que bebemos um chope em Frankfurt, antes da derrota do Brasil pra França, 1 a 0, gol do Henry, no jogo do meião arriado do Roberto Carlos. O PJ falou bastante do Ronaldo.

O Guilherme virou amigo por uma dessas coisas que a gente não sabe explicar, mas podem ser resumidas, talvez, como amor à segunda vista. Já nos conhecíamos da Infoglobo. Mas a intimidade era pouca. Até que viajamos lado a lado no avião pra Suíça, baldeação pra Alemanha, e uma amizade nasceu.

Na Copa, nos quase 60 dias longe do Brasil, viramos parceiros, amigos de infância, irmãos camaradas no parque de diversões que sempre é um Mundial, tanto faz se a seleção da gente ganha ou perde.

Na Suíça, aos pés dos Alpes, na pequena cidade de Weggis, onde o Brasil (não) se preparou pra disputa, e depois na Alemanha, onde começou a ser elaborado o 7 a 1 de oito anos adiante, andávamos juntos pra cima e pra baixo. Dividimos hotel, cervejas, outros hotéis, mais cervejas, outras cervejas, matérias, mais matérias, outras matérias, ele escrevendo pro “Extra”, eu pro “Globo”.

Foi o Guilherme, naquela Copa, quem descobriu o que era tratado no ambiente da seleção como o “quarto segredo de Fátima” – o peso do Ronaldo Fenômeno.

O Vitu estava sempre ali perto, na cobertura do Brasil do Parreira e do Zagallo. Grande amigo e parceiro de reportagens do Lúcio de Castro, outro irmão meu de ofício e de sonhos, Vitu brilhou naquela cobertura do SporTV.

A Copa da Alemanha passou, mas o afeto e a aproximação com esses três caras, não. Lembro que, num domingo de futebol, cometi a ousadia de ligar pro celular do Vitu do botequim onde eu assistia a um jogo pela TV só pra comemorar com ele um gol do Flamengo. Ousadia porque ele estava na tela da TV, trabalhando no Maracanã!

Guilherme depois foi pra TV Globo, onde cumpriu, até esse voo, uma carreira brilhante de produtor da equipe de esportes. Sua última reportagem, que não chegou a ser concluída, era sobre o momento tão feliz, até a última segunda-feira, da curta história da Chapecoense. Curta história dele também.

Do Guilherme, lembro ainda que, na Copa da Alemanha, ele estava pra casar. Todo apaixonado pela namorada, a Carol, estilista talentosa, que eu só conheceria na volta da Copa, hoje mãe dos dois filhos dele e grávida do terceiro, que o meu amigo não vai poder ver nem abraçar.

Na madrugada de segunda pra terça, eu estava acordado por volta de 4h da manhã, quando o plantão da TV informou da queda do avião que matou tantos futuros.

Guilherme foi um dos primeiros caras a me ligar quando virei editor de esportes do “Globo”. Novamente, foi um dos primeiros a ligar quando deixei a editoria. Por fim, foi também um dos primeiros quando deixei o jornal, um ano e dois meses atrás. Ele era assim, diligente e divertido. Sabia se emocionar e até chorar, mas vivia com um sorriso pregado no rosto.

A gente já não se via tanto, mas a existência dele era muito presente pra mim. Vai continuar sendo. Acho que foi na Lagoa a última vez em que o vi. Ele estava numa dessas bicicletas elétricas, a caminho da redação. Falou da Carol. Falou dos filhos. Falou do trabalho.

Quando o menino mais velho dele escolheu o Botafogo pra torcer, ele, um alvinegro apaixonado, me ligou pra contar. Quando o menino começou a identificar os escudos de todos os times de futebol da Série A – da Chapecoense, inclusive -, ele me ligou pra contar.

Vitu tentou me levar pra Fox, a mesma Fox do PJ, quando deixei o “Globo”. O destino não quis que eu fosse. Se tivesse ido, quem sabe, poderíamos estar juntos no voo pra Medellín, como havíamos estado – eu, ele e o Guilherme – no avião que nos trouxe de volta da Copa da Alemanha.

A gente se preocupa e se ocupa com tanta besteira. Reclama e se irrita com o que não tem relevância, discute e sofre por coisa miúda, fica incomodado com bobagens e carências terrenas – e, enquanto isso, sem aviso, a vida se esgota a cada minuto e nem notamos.

* * * * *

A arte tão bonita acima é do Chico Caruso. Foi publicada na capa do caderno de esportes do “Jornal do Brasil” de 21 de janeiro de 1983, um dia depois da morte do Garrincha.

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Sobre a finitude

Fui acordado no meio da madrugada de sexta pra sábado, 25 pra 26 de novembro, por dois apitos estridentes do celular. Abri os olhos e intuí, naqueles apitos, que 2016 tinha aprontado mais alguma coisa, agora já perto de se despedir.

O primeiro avisava da postagem de uma foto do grupo de criação do programa “Adnight”, do querido Marcelo Adnet, do qual tive a alegria grande de participar (a última gravação da temporada tinha acontecido no fim da noite de sexta).

O segundo apito era de um aplicativo de notícias, e trazia a informação urgente: Fidel Castro, aos 90 anos, tinha morrido. Fidel, um dos maiores personagens do século XX – e que, até há pouco, era o herói da minha juventude nas aulas de História sobre a Revolução Cubana.

Os dois apitos, além de roubarem meu sono, acenderam minha madrugada com uma reflexão recorrente, que volta e meia tenho, sobre a finitude. A finitude das coisas. A finitude das pessoas. A finitude das plantas e dos bichos. A finitude de tudo que amamos. A nossa própria finitude.

O fim das pessoas, o fim das coisas, o fim de tudo é tão óbvio. Mas, na nossa humanidade e na nossa egoísta compreensão, sempre nos surpreendemos com as perdas – e só na dor da saudade aguda concluímos que mesmo as grandes pessoas, aquelas de existência fundamental pra gente, até essas se vão.

Também os grandes acontecimentos das nossas vidas, aqueles que nos marcam pra sempre, até esses passam, vão morrendo aos poucos dentro do nosso silêncio, e um dia se esgotam e se tornam só lembrança.

As famílias se multiplicam, mas todos os seus integrantes acabam um dia. Todos partimos em algum momento impossível de ser previsto.

A foto postada no grupo de WhatsApp pelos companheiros de viagem do “Adnight” mostrava a turma quase toda numa mesa de bar, celebrando o fim da última gravação da temporada. A vontade de me transportar pra aquela imagem foi tanta que o sono não voltou mais – e se desintegrou de vez, em seguida, quando li a notícia da morte do Fidel.

Todo mundo e todas as coisas nascem pra cumprir o mesmo ciclo. Como os grandes impérios da História, a gente, as plantas, os bichos, todos nascemos, crescemos, acumulamos e perdemos coisas – dentes, cabelos, vigor, dinheiro, outras bobagens terrenas – até fenecermos e alcançarmos o instante final do desaparecimento.

Fidel, e eu nem tinha me dado conta, havia arrastado o século XX até aquela madrugada deste novembro de 2016, quando, finalmente, o segundo milênio pareceu se despedir como uma alma penada que resistia a deixar a Terra.

O século XX já havia se encompridado com Gabriel García Márquez, com Eduardo Galeano, com Leonel Brizola, com Modesto da Silveira (que, como o próprio nome dele, aliás, ganhou dos jornais obituários modestos demais pra sua grandeza). O século passado-presente, enfim, já havia avançado além dos limites do tempo com Oscar Niemeyer, com tantos outros – e agora, com Fidel, parecia me dar adeus na madrugada de sexta pra sábado.

Fiquei pensando nas duas vezes em que estive em Cuba, onde não vi o Fidel, e também no aperto de mão que ganhei dele no fim de uma entrevista coletiva, em Brasília, no dia 15 de março de 1990, logo depois da posse do Collor, quando, por conhecer o embaixador Ítalo Zappa, amigo do comandante e pai da minha parceira de tantos sonhos Regina Zappa, pude chegar perto do herói da Revolução Cubana e cumprimentá-lo.

Abre parêntese. Que falta fazem hoje brasileiros como o Ítalo Zappa, outro nome que mantenho na memória como num altar particular dos grandes personagens do século XX. Fecha parêntese.

Um dia, o Betinho me contou (e quem ainda se lembra do Betinho, o fundador do Ibase e da cruzada contra a fome, ele, outro nome no meu altar do último século?), bom, um dia o Betinho me contou que, na ditadura, quando o bicho pegava no país, ele foi o cara escolhido pra ir a Cuba negociar com o regime do Fidel, em nome do Brizola, uma ajuda em dinheiro pra financiar aqui a resistência ao golpe militar e incrementar o sonho da nossa revolução.

Outro parêntese. A nossa revolução nunca chegou. Desde Caramuru e Paraguaçu, pai e mãe do povo brasileiro, a nossa revolução nunca veio, ainda é aguardada. Fecha parêntese.

Por causa da tal negociação do dinheiro, que, na lembrança de Betinho, seria de uns 200 mil dólares, o Brizola, outro personagem dessa minha galeria do século XX, foi chamado de “El Raton” por gente que, sem saber, ou não, estava a serviço da direita. Pecados sem perdão que ficaram pra trás.

Betinho, segundo relato do próprio, viajou com uma carta do Brizola pro Fidel. A carta era dividida em duas, pro caso de o remetente ser apanhado no caminho. Palavras-chave foram retiradas de uma e transcritas na outra. Só com as duas era possível decifrar a mensagem. Betinho levou um envelope em cada bolso. A carta chegou – e, agora, com a morte do Fidel, talvez seja revelada num museu de Cuba ou daqui.

Essa confusão de lembranças percorreu e misturou meu pensamento durante toda a madrugada, até que a manhã surgiu e o sábado se foi, e veio o domingo e, com ele, outra notícia triste – a da morte da querida tia Francisca, vizinha de frente da casa da minha infância em Morro Agudo, na Baixada Fluminense.

O terror da tia Francisca eram as bolas que eu chutava nas peladas da rua e caíam no quintal dela, enxovalhando as plantas e atiçando os cachorros. Uma quebrou o vidro de um basculante. Nunca mais vi aquela bola. A tia sumiu com ela.

Na minha sensação, até a madrugada de sábado, minha bola tinha ficado presa no limbo do tempo no século XX. Fechei os olhos e me vi de novo criança em frente à casa da tia Francisca, a bola sendo lançada por trás do muro e vindo na minha direção, rolando, rolando, rolando.

Tia Chica, finalmente, havia devolvido a minha bola.

O mundo piorou muito desde que minha bola estilhaçou o vidro do basculante da tia Chica. Quantas guerras houve, quantas trapaças se arquitetaram, quantas sacanagens foram feitas pelos homens contra os homens, quantas esperanças puderam ou não puderam ser correspondidas.

Fidel, mal teve a morte confirmada no pronunciamento do irmão Raul na TV cubana, começou a ser julgado pelo que fez de bom pro povo pobre de Cuba e de mau pras elites carcomidas espalhadas pelo mundo.

Já a tia Chica teve condenação sumária do destino antes mesmo de morrer. Com seu corpo frio estatelado no chão da casa humilde até a chegada do rabecão, ela não mereceu do oficialismo senão o desprezo da espera de mais de 12 horas pra ser recolhido e autopsiado.

Na sua condição de mulher nordestina e pobre e moradora da Baixada Fluminense, tia Chica não mereceu qualquer diligência oficial, senão a da família e a dos vizinhos.

Eu já vi e vivi tanta coisa. Mas os sentimentos que seguem roubando meu sono desde a madrugada de sexta pra sábado, 25 pra 26 de novembro, têm excedido.

Talvez só reste desejar que, como na Cuba sonhada pelo Fidel, cheguem pra todo o mundo, num tempo breve, a educação pública decente e a saúde digna e o socorro rápido e a conexão entre serviço público e solidariedade.

Ou, quando não houver mais jeito, que ao menos os rabecões cheguem mais ligeiro pra recolher os corpos das tias Chicas que morrem todos os dias por aí pra entrar na História apenas como números.

Ou, e é mais provável, talvez só reste desejar que 2016 acabe logo.

O ano do sutiã

Apesar da violência
que há pouco se fazia,
tirando da presidência,
também por misoginia,
uma mulher inocente
pra botar no seu lugar
aquele… o Primeiramente,
já se pode afirmar
que dois mil e dezesseis,
muito embora tão mofino,
ressalvada a estupidez,
foi um ano feminino.

A América do Norte,
de forma surpreendente,
com mais um pouco de sorte,
teria mulher presidente.
Tudo bem que não venceu.
Mas, pela primeira vez,
à Casa Branca dos “reis”
uma mulher concorreu.
No Paraná, houve um show:
defendendo sua ideia,
uma estudante calou
deputados na Assembleia.

Seu nome é Ana Júlia,
como aquela da canção.
Desafiou a tertúlia
e falou da ocupação
de escolas país afora.
Foi um grande zunzunzum.
A menina gritou: “Fora
a PEC Dois Quatro Um!”
E os exemplos de brio
das mulheres foram vários.
Aqui, nos Jogos do Rio,
brilhou a Simone Biles.

Em novembro (seis, o dia),
quase duzentas mulheres
que fazem fotografia
de modo profissional
sentaram na escadaria
do Teatro Municipal.
E como quem ergue halteres
só com a força da retórica,
no seu empoderamento,
posaram pra foto histórica.
Foi grande o congraçamento.
A mídia deu? Não, lamento…

Os dados do Denatran
afirmam que menos sorte
no “Ano do Sutiã”
teve o dito “sexo forte”.
Segundo levantamento,
dos que morrem de acidente,
setenta e oito por cento,
numa conta renitente,
são do sexo masculino.
Por descuido ou desatino
no lidar com o volante,
isso já virou constante.

E órgãos oficiais,
como a pasta da Saúde,
indicam que morrem mais
de tiro e faca, amiúde,
como uns irracionais,
na sua ilicitude,
os que se acham imortais
e são cheios de atitude.
Assim, dos assassinatos
(não há juízo que tomem),
alcançam noventa e quatro
por cento, caramba, os homens!

Também nas brigas de rua,
na falta de gentileza,
na fraude, na falcatrua,
na traição, na torpeza,
quase sempre é masculina
a aberração da vileza.
É como ensina a rotina:
repetição de fraqueza.
Até mesmo na aparência,
é a mulher a mais bela…
Não vê lá na Presidência
o marido da Marcela?

* * * * * * *

A foto das mulheres reunidas nas escadarias do Teatro Municipal do Rio, feita no dia 6 de novembro deste 2016, é de Júlio Cesar Guimarães, que cumpriu com a maior discrição seu papel de único homem convidado pro ato, no qual todas as fotógrafas precisavam estar na imagem.

#TáFoda (ou as maluquices do Brasil de hoje)

“Depois o maluco sou eu, depois o maluco sou eu!”, resmungava o João Pinel, o meu amigo doidinho do boteco Bip Bip, na Rua Almirante Gonçalves, em Copacabana, quando ouvia a gente comentar barbaridades que ocorriam no Brasil.

Talvez ele resmungasse assim, agora, ao saber do Temer; dos solecismos de caráter do Eduardo Cunha, que derrubou a Dilma e depois acabou preso pela mesma razão alegada pra derrubá-la; dos milhões do Cabral; dos cheques-cidadão do Garotinho; da superpopulação de Bangu 8; do Geddel Vieira Lima; das culpas pregressas do PT; da PEC 241 e das suas malvadezas; do Trump nos EUA; da queda iminente do Inter pra segunda divisão do Brasileiro; do helicóptero da PM; da eleição do Crivella no Rio e de sua ideia de levantar um muro como o de Israel ao redor da cidade.

“Depois o maluco sou eu, depois o maluco sou eu!”

Foi uma postagem da minha amiga Teresa Albuquerque no Facebook, lembrando o João, personagem eterno do Bip Bip, onde o conheci, que despertou em mim a vontade de também escrever sobre ele.

João era um cara de classe média alta, já na faixa dos 50 anos. Vivia com os pais na pequena Almirante Gonçalves, seu domínio, de onde raramente saía. Tinha uma mente brilhante, mas comprometida pelos desfavores da esquizofrenia.

Li numa publicação da Organização Mundial de Saúde que existem cerca de 400 milhões de pessoas com algum transtorno mental no planeta – 23 milhões só no Brasil, ou o equivalente a sete Uruguais, a mais de meia Argentina ou a quase uma Holanda e meia.

Desse contingente, no país do Michel Temer, uns 5 milhões têm transtorno de moderado a grave. O João era um deles.

Foi quase em frente ao Bip Bip, numa calçada da Almirante Gonçalves, que, num dia triste de 2009, o Joãozinho decidiu abreviar a vida. A calçada foi batizada pela gente, com direito a inauguração de placa na fachada do boteco, de “Calçada João Pinel”.

A esquizofrenia do João era agravada pelo excesso de álcool e de substâncias mais nocivas, que ele comprava no Pavão-Pavãozinho/Cantagalo e consumia sem fazer mal a ninguém, além de si mesmo. A condição não lhe roubava o discernimento e o poder de amar quem ele escolhia. Mas só quem ele escolhia.

Não permitia, por exemplo, que outros maluquinhos se aproximassem da Almirante Gonçalves e, principalmente, do Bip Bip – e o relento da rua, sobretudo em lugares como Copacabana, está cheio deles, os maluquinhos, como se sabe. E se um outro se aproximasse do bar, ou resolvesse dominar uma marquise da Almirante, o João era severo e bradava pra espantar o invasor:

– O único maluco do Bip sou eu!!! O único maluco da Almirante sou eu!!!

Minha impressão é que, até hoje, o querido botequim da Almirante Gonçalves, tocado pelo Alfredinho Melo, pai de nós todos, particularmente meu, cumpre o luto da morte do João. A decisão do Joãozinho de morrer, que só nos alcançou quando era tarde, não despertou  o interesse geral nem de Copacabana. Que dirá do Rio.

O dia seguiu comprido e quente como qualquer outro daquele verão na cidade. Assaltos continuaram acontecendo nas ruas e nos salões da política. O meu Flamengo não cancelou treino. Nem o Fluminense do João. Nem o Botafogo do Alfredinho. Tampouco o Vasco do Cabral.

As escolas não suspenderam as aulas. As repartições funcionaram normalmente.

Mas, pra gente, que o conhecia, algo de grave havia se passado.

O João Pinel tinha decidido morrer e de uma maneira muito dolorida, por não ser instantânea: pôs fogo no corpo depois de comprar um litro de álcool numa farmácia perto. Por isso, ainda precisou cumprir o calvário de alguns dias num hospital até conseguir o desfecho que havia pretendido.

João não deixou bilhete, não aprontou carta, não avisou antes, só decidiu.

Eu lembro que, um dia, o João foi forçado por nós a um passeio até a Lapa. Era aniversário dele. Alfredinho e um punhado de amigos-confrades do bar o fizemos entrar num táxi e rumamos pro bairro boêmio no Centro do Rio. Quando que aquele maluquinho, com seu corpo livre e de gestos espaçosos, aceitaria entrar num carro? Mas o Joãozinho foi.

Desembarcamos no Carioca da Gema pra uma noite de surpresas – pra nós e pro nosso Pinel, criatura alheia a cerimônias e mentiras e tão cheio de compaixão com quem ele acreditava merecer. Mas só com quem ele acreditava merecer.

Naquela noite, conseguimos um bolo de aniversário pro João (quando teria sido o último bolo de aniversário dele? Será que chegou a ter outro?) e o apresentamos à Lapa. A Lapa do nosso amigo Lefê Almeida, o também saudoso Lefê, produtor cultural que havia acabado de reinventar a boemia ali. A Lapa do grupo de samba e choro Dobrando a Esquina, que, se não me engano, tocava aquela noite no Carioca da Gema.

João detestou. “Eu sou da Almirante, eu sou da Almirante!”, repetia com seus olhos espetados. “Depois o maluco sou eu, depois o maluco sou eu!”

Joãozinho escolheu a hora e o ringue em que o gongo bateria pra encerrar sua última luta com a vida – justo a sua Almirante. Virou saudade no Bip Bip, silêncio na rua, lenda de Copacabana, travo na garganta, vazio no coração.

O Crivella, com suas ideias de muro, não vai fazer isso. Mas, no lugar dele, eu pediria desculpas aos descendentes do almirante Jerônimo Francisco Gonçalves, baiano nascido em 1835, em Salvador, que combateu na Guerra do Paraguai e já batiza um dique-flutuante da Marinha, e retiraria a placa com o nome do militar da rua do João e do Bip Bip.

No lugar, poria uma outra, onde se leria: Rua João Pinel.

“Depois o maluco sou eu, depois o maluco sou eu!”

*  *  *  *  *

Pro caso de o Crivella considerar a ideia de mudar o nome da Almirante Gonçalves (“depois o maluco sou eu…”), vale ler a reprodução da postagem da amiga brasiliense Teresa Albuquerque, muito reveladora de quem foi o João Pinel.

“Guns N Roses em Brasília e quem me vem à mente? João Pinel. John Pinel (‘Paai-nel’, repetia), Juan Pinel, Jean Pinellí, Giovanni Pinelli, Johann Pínel, Ho Pini (sim, ele dizia que era esse seu nome em japonês). Conheci João nas rodas de samba do Bip Bip, o bar do querido Alfredinho, lá em Copacabana, em 1999. Ele morava no prédio em frente, descia dia sim, dia não. Era uma combinação que tinha com a mãe, acho, pra tentar diminuir os exageros das noites de Copa. É… sozinho, como ele mesmo dizia, João esgotava a lotação de malucos do botequim. Tinha dia que chegava tranquilo. Tinha dia que vinha com a macaca e ficava zoando a roda. ‘Guns N Roses!’, gritava. Um dia me pediu um CD do Guns, do show que ele dizia ter visto em 1992. Comprei pra ele o duplo ‘Use your illusion’. Gostou não, disse que não era aquele. Eu achava graça de quase tudo. Ele gostava. Às vezes, conversava comigo por meio de letras de Jorge Ben e Tim Maia. ‘Teresa foi ao samba lá no morro e não me avisou.’. ‘Arrumei um crioulo, por isso não voltei.’ A cada resposta certa, ele ria que só. Dizia que eu era sua ‘noiva’, a ‘Adriane Galisteu’ dele, e abria um sorrisão. Era uma figura. O maluco mais doce que conheci na vida.”

Independência ou golpe!

Como muitos amigos que se posicionaram no Twitter ou no Facebook, ou nas conversas da vida real no botequim, eu também não comemorei nem achei engraçada a cena do Garotinho se debatendo numa maca de hospital público, resistindo a entrar na ambulância rumo ao presídio Bangu 8, enquanto a filha Clarissa, desesperada, gritava: “Meu pai não é bandido! Meu pai não é bandido!”

O que eu senti foi tristeza. Senti também, confesso, um certo temor pela normalidade institucional destes trópicos, que andam tão tristes, com o desemprego deixando sem renda e sem sustento quase 13 milhões de famílias.

Esta terra adorada, pátria amada, idolatrada, salve, salve, onde ainda me sinto responsável pelo futuro de três filhos e de uma “linda Rosa juvenil”, cujo nascimento está previsto pra 2017. O que será 2017?

Garotinho, ao contrario do Cabral Filho, não enriqueceu na política e teve emprego formal antes do seu primeiro mandato como vereador de Campos. Foi preso agora porque distribuiu cheque-cidadão a miseráveis em troca de voto. Mas já poderia ter ido pra cadeia antes.

Porque, desde a primeira eleição pra vereador de Campos, quando era radialista, é assim que ele opera. Dava dentaduras e cadeiras de rodas em troca de voto. Quem não sabe disso? Talvez só a Rosa, que ainda não nasceu.

Se desde Cabral, não o político, mas o navegante, os valores universais de Justiça fossem tomados à risca no Brasil, é possível que não houvesse cadeia suficiente pra prender tanto político desonesto. Aliás, Cabral nem eleito teria sido – agora não o navegante, mas o político mesmo.

Em Brasília, talvez não houvesse tantos camburões pra conduzir do Congresso Nacional até a prisão todos os deputados e senadores com contenciosos na Justiça. Nem vaga de estacionamento bastante haveria no entorno da Câmara e do Senado pra tanta viatura da Polícia Federal.

Por que não se prendeu o Garotinho já na sua primeira campanha, se trocar voto por esmola sempre foi a prática de políticos miúdos como ele?

Por que não se prendeu antes o graúdo Cabral, se até a vendedora da joalheria onde o empreiteiro Cavendish comprou o anel de R$ 800 mil pra primeira-dama e até os operários que demoliram e reconstruíram o Maracanã, o nosso Maracanã, já sabiam das suas “tenebrosas transações” (com a licença do Chico Buarque)?

Por que se demorou tanto pra prender o Eduardo Cunha?

Talvez a Dilma não caísse, e o Brasil só estaria ruim, como já estava, e não insondável como agora.

Movido por sua pequenez vingativa, e pra satisfazer a histeria de uma elite apodrecida e de uma classe média ressentida e egoísta, um deputado que hoje está preso pelos mais bárbaros crimes de corrupção jogou o Brasil nesta crise – ajudado, claro, pelas fanfarronices de alguns petistas.

Ele, o deputado, comandou um processo quase sumário de impeachment e pôs no lugar de uma presidente legitimamente eleita por 54,5 milhões de brasileiros, e até prova em contrário honesta, um vice sem recheio e sem voto e também com muitas explicações a dar à Justiça.

Este vice é do partido do deputado preso. É do partido do Cabral. Do partido que, até outro dia, era também o do Garotinho – que, aliás, não faz muito, era amigo de todos eles. Sobretudo, do deputado preso.

Este partido, se ainda não é possível ligar o nome à pessoa, é o PMDB – e é nele que, segundo a papelada do próprio juiz Moro, está o ninho principal dos cupins demolidores do Brasil.

E, assim, desde Cabral (mais uma vez o navegante, não o político), o país do Garotinho, do Eduardo Cunha, do Temer e do outro Cabral (agora de novo o político, não o descobridor), o país do PMDB, enfim, este país segue movido a golpes – o golpe genocida na identidade indígena, dizimada pelos colonizadores; o golpe na índole africana com a escravidão de sua gente, trazida pra cá acorrentada pra ser olhada até hoje de modo diferente pelos descendentes do branco europeu; o golpe de Pedro I ao dissolver a Assembleia Constituinte em 1824 e outorgar uma Constituição preparada por dez servos das vontades dele; o golpe civil da maioridade incauta de Pedro II, aos 14 de idade, em 1840; o golpe militar do marechal Deodoro, que derrubou o mesmo Pedro II, ali já idoso e democrata, ele, um carioca de nascimento arremessado ao exílio aos 64 anos, em 1889, quando se instalaram no Brasil as ditas e as desditas da república em vigor até hoje.

Os golpes contemporâneos, de lá pra cá, estão mais fixados na memória coletiva – e o último, aquele que pra uma metade do Brasil não foi, enquanto pra outra foi, este ainda está em curso e vai nos levar aonde já não sabemos.

O surto do Garotinho na ambulância e os gritos desesperados da filha dele não dão a resposta. Os milhões tungados e a falta de reação do Cabral, não o descobridor do Brasil, mas o quebrador do Rio, empanam a vista pro futuro.

Dá saudade, se é este mesmo o nome do sentimento, do que teria sido o Brasil sem o golpe original da República contra Pedro II. Dá saudade de sei lá. Dos discursos do Brizola, quem sabe. Da vitória do Lula em 2002. Da esperança que venceria o medo. Dos comícios de antigamente com o velho Prestes na Cinelândia – e antigamente foi outro dia.

Faz lembrar um quadro do programa “Tá no ar”, do Marcelo Adnet e do Marcius Melhem, em que o primeiro, caracterizado como Pedro I, cavalgando num descampado, para com seu cavalo ao encontrar o segundo, no papel daquele personagem do comercial dos Postos Ipiranga, e pergunta:

– Ô, amigo! Sabe onde eu posso declarar a Independência do Brasil por aqui?!

E o personagem do Melhem, depois de uma pausa, responde:

– Sei não… Mió cê perguntar ali nas margens do Ipiranga.

 

Um ano esquisito

Foi mesmo um ano esquisito.
Teve zika e chikungunha.

Foi o ano do mosquito.
Ano do Eduardo Cunha.

Ainda nem acabou.
Mas é como se já fosse.

Um ano que já bastou.
E o que foi que ele trouxe?

Um ano de violência:
de tiro e institucional.

Um ano de truculência
lá no Planalto Central.

Teve petralha e coxinha.
Teve pato na Paulista.

Ato de almofadinha
e delação de lobista.

Ano das Óticas Moro,
dos óculos pra um olho só:

se é do PT, tira o couro,
põe logo no xilindró!

Mas… se é do PSDB?
Crime feito por tucano?

A Lente Moro faz crer:
ilusão do olho humano.

Em São Paulo, teve o Dória.
No Itamaraty, o Serra.

Ano pra entrar pra História
com o Brexit da Inglaterra.

Nos States, teve o Trump.
No Brasil, teve o Crivella e…

…com sua cara de “vamp”,
o marido da Marcela.

Amigos se separaram.
Batalha de opiniões.

Amores se apartaram.
Enganos, desilusões.

O David Bowie se foi,
e ainda era janeiro.

Prenúncio do que depois
viria no ano inteiro.

Carência de poesia,
afetos em extinção.

E que tanta porcaria
se viu na televisão.

Um ano de solidão.
Um ano de aprendizado.

A vida na contramão
de tanto sonho sonhado.

Reforma da Previdência.
Perversa contrafação.

Congeladas na sofrência
saúde e educação.

As escolas ocupadas,
e na mídia nem um pio.

Promessas desperdiçadas
nas Olimpíadas do Rio.

O ano do desemprego.
Também do empobrecimento.

Um ano de desapego
e das dores sem unguento.

Um ano todo fodido.
Um ano de desemparo.

O dólar enlouquecido.
O ano do Bolsonaro.

Um ano tão xexelento.
No rádio, “Malandramente”.

Um ano pro esquecimento.
Um ano… primeiramente.

Intolerância, atentados,
o terror da morte em Nice.

Na Síria, os refugiados.
A “guerra santa”, sandice.

O ano do mimimi.
O ano do retrofit.

Até Angelina Jolie
virou ex do Brad Pitt.

A República de Ipanema e o país da Ana Júlia

O discurso de uma estudante de 16 anos na Assembleia Legislativa do Paraná ganhou as redes sociais nos últimos dias. De uma maneira que talvez ninguém tenha conseguido antes, ela falou sobre as ocupações das escolas pelos alunos país afora.

A voz embargada pelo choro mal contido, a veemência juvenil contra a PEC 241 e contra a Medida Provisória do Novo Ensino Médio, tudo que a menina disse calou os deputados – e foi um dos principais assuntos da semana pré-eleitoral na internet.

Quem não viu pode clicar aqui. Vale a pena. No discurso, a menina lembrou a morte mal explicada de um adolescente numa das ocupações em Curitiba e chegou a sugerir que os deputados olhassem suas mãos. Corajosa, afirmou que as mãos de Suas Excelências deviam estar “manchadas” pelo sangue do garoto.

“O Estatuto da Criança e do Adolescente diz que a responsabilidade pelo nosso bem estar é do Estado! Os senhores são representantes do Estado!”, foi mais ou menos o que ela disse, sem se dobrar à ameaça do presidente da Assembleia paranaense de cortar o som do microfone.

As ocupações de escolas já passam de 1.000 em 21 estados brasileiros. A imprensa estrangeira parece dar mais atenção a isso do que a nossa grande mídia. Coube a menina viralizar o assunto por aqui – e, aliás, já faz tempo que a nossa grande mídia mais reproduz e pega carona nas redes sociais do que publica coisas capazes de atrair a atenção do universo virtual, sobretudo o dos mais jovens.

O nome da menina é Ana Júlia Ribeiro, secundarista do Colégio Estadual Senador Alencar Guimarães, em Curitiba. Seu discurso contundente repercutiu tanto à margem da grande mídia que ela foi convocada pra uma audiência pública no Senado. Também em Brasília pegaram carona no discurso dela.

O desabafo da pequena imensa Ana Júlia concorreu com outro acontecimento da semana. Um que também ganhou as redes. Foi a vitória do “não” na eleição no Rio, resultado da soma de votos em branco, nulos e abstenções, que superou a votação do Crivella no segundo turno pra prefeito da cidade.

Crivella recebeu 1.700.030 votos. O “não”, ou “ninguém”, 2.034.352.

Em Curitiba, onde o candidato vencedor foi Rafael Greca, politicão da antiga, que confessou na campanha ter vomitado um dia ao sentir cheiro de pobre, a estrela da eleição foi a Ana Júlia. No Rio, onde venceu o bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, com seu passado assumidamente homofóbico e de pregador fanático contra a fé afro-brasileira, a estrela parece ter sido Ipanema.

Desde o fim da ditadura militar, Ipanema tem determinado o caminho que o Rio e o Brasil vão seguir. Ipanema, com seu cinturão de favelas formado pelos morros do Cantagalo e do Pavão-Pavãozinho, na fronteira com Copacabana, já foi Brizola, já foi Moreira Franco, foi Fernando Collor, Sérgio Cabral, Lula, foi Dilma e agora foi “não” e também, como a gente poderia supor?, foi Crivella.

Do Posto 8 ao Posto 10, passando pelo 9, com seu histórico de protestos e aplausos ao pôr do sol, 24,2% dos eleitores de Ipanema votaram nulo ou em branco – a maior concentração do “não” da cidade aos dois candidatos, maior até que média de 20,1% do Rio todo. Dos votos válidos, porém, o bairro-emblema do Rio deu 52% ao bispo e 48% ao PSOL do Freixo.

Ao dizer “não” a Crivella e a Freixo, Ipanema apontou pra vitória previsível do candidato da Universal e mandou seu recado ao Brasil da Ana Júlia. É pra onde o Brasil do Temer, este Brasil no qual o Brasil de 2014 não votou, parece perigosamente caminhar.

A menina Ana Júlia combate a PEC 241, que é apoiada por políticos como o Crivella. É contra a reforma do ensino médio imposta pelo Temer e por seu governo festejado por senadores como o Crivella. Ela luta pela consciência crítica dos adolescentes nas salas de aula e, na sua jovem certeza, acha uma ofensa ao pensamento livre a premissa de “escola sem partido”, coisa também pretendida pelo bispo-prefeito.

Ipanema é volúvel. Numa década, cata latas de maconha cuspidas pelo mar e acende seu baseado na praia. Noutra, abre sua avenida pra passeata verde e amarela do impeachment da Dilma e dá seus votos válidos e inválidos ao sobrinho-servo do Edir Macedo.

Ipanema, às vezes, envelhece e encareta – e assim cumpre sua ciclotimia histórica pra desenvelhecer e desencaretar mais adiante. Desta vez, como nas eleições do Moreira e do Collor e do Cabral e de alguns outros, encaretou. Votou, primeiramente, no “não”, e, segundamente, no bispo – e elegeu o que só o futuro poderá revelar.

Ipanema talvez tenha visto no Freixo a imagem e a semelhança do PT do Lula e, por isso, ignorado o grito da garota Ana Júlia do Paraná.

O país da Ana Júlia – segundo levantamento da Organização pra Cooperação e Desenvolvimento Econômico, Ocde, entidade internacional que reúne 34 países afinados com os princípios da democracia representativa e da economia livre – tem, proporcionalmente, menos pessoas nas universidades do que o Azerbaijão ou a Colômbia, por exemplo.

Só 14% de nós temos diploma de ensino superior.

No país da Ana Júlia, 95% dos alunos do ensino médio chegam ao terceiro ano com alguma deficiência em matemática. Nele, viva!, o governo gasta mais com educação do que potências como Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido ou Itália – mas, pena, o gasto anual direto com quem está na ponta desse sistema, o aluno, ou seja, a Ana Júlia, é um dos mais baixos do mundo, mal chega a US$ 2,7 mil.

A República de Ipanema, com seu Índice de Desenvolvimento Humano de 0,962 e sua expectativa de vida de 78,7 anos, precisa reencontrar o país da Ana Júlia, onde estes números alcançam 0,755 e 75,2, respectivamente – e, ainda assim, graças ao Sul-Sudeste Maravilha; portanto, graças a Ipanema.

Que o reencontro ocorra logo. Antes que a morte os separe pra sempre. Antes que a Ana Júlia envelheça. Antes que a alma anoiteça, como escreveu Drummond numa ode a Manuel Bandeira.