Desconstrução de Adalgisa

Minha querida Adalgisa,
que há tanto tempo não vejo.

Sinto teu cheiro na brisa,
e na brisa eu te farejo.

Sei que andas pelas noites,
suspeito em quais companhias.

Teu desejo de mil volts
a outros tu já darias.

Como tanto me mentiste,
Adalgisa. És uma atriz.

Fingias olhar de triste
quando estavas bem feliz.

A razão desta missiva
é a tua desconstrução.

Tu que foste tão cativa,
soberana em meu coração.

Tuas pernas não são pernas.
São cordas que me enlaçaram.

Tuas grutas são cavernas
que tanto já me guardaram.

Teus cabelos de sereia,
tua pele de organdi…

Tudo ainda me mareia.
Mas, Adalgisa, decidi.

Abro mão dos teus encantos,
das tuas delícias todas.

Pois, em mim, os teus quebrantos,
não tarda, completam bodas.

Devolvo a ti o teu beijo,
o teu abraço de cetim.

E rogo que o meu desejo
libertes do gurufim.

Velório do nosso amor.
Amor que chegou ao fim.

Caixão coberto de flor,
Riobaldo e Diadorim.

Só eu sei o quanto te amei.
Em verdade, ainda amo.

Porque nunca te esquecerei,
Adalgisa, meu engano…

Nossas noites de paixão.
Teus gemidos de prazer.

Num só toque da minha mão
eu já te fiz umedecer.

As salivas misturadas,
convulsões sob o cobertor.

Quantas tantas madrugadas
de rasgado despudor.

O meu sexo no teu sexo.
Teus seios na minha boca.

A tua bunda em convexo.
A sanha da paixão louca.

Disso tudo, eu abro mão.
E outros homens serão teus.

E te mato em meu coração,
Adalgisa. É o meu adeus.

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A prisão de Suplicy, o fim do Ocupa MinC e o tempo do ódio

A prisão do ex-senador Eduardo Suplicy pela PM de São Paulo e o fim do protesto Ocupa MinC, no Rio, pela Polícia Federal, deram ao cronista digital, na manhã deste 25 de julho, a certeza de que o Brasil vive um tempo comprido de ódio e desesperança. Um tempo que, pelo jeito, deve ainda demorar a acabar. 

Suplicy participava de um ato contra a expulsão de gente pobre de um terrenão da prefeitura com 11 mil metros quadrados, na Zona Oeste paulistana.

Prefeitura, por mais estranho que pareça, chefiada por Fernando Haddad, do mesmo PT do ex-senador.

PM, por ainda mais esquisito, comandada pelo governador Geraldo Alckmin, do PSDB, a quem o prefeito petista recorreu.

Pra quem não conhece São Paulo, cabe explicar que a Zona Oeste da cidade é composta pelas subprefeituras da Lapa, de Pinheiros e do Butantã. Segundo o IBGE, vivem ali cerca de 900 mil pessoas, cuja renda média é de R$ 2.174,55. Fica na região o maior campus da USP, por exemplo.

Contradição em forma de metrópole, mais até que o Rio do Ocupa MinC, São Paulo tem dessas coisas. A tal comunidade desocupada com truculência pela PM do tucano Alckmin a pedido do petista Haddad se chama Cidade Educandário e fica às margens da Rodovia Raposo Tavares.

De educandário, aquela porção de Brasil, localizada no bairro Jardim Raposo Tavares, não tem nada – bem como, de jardim, a região nada tem. Na Zona Oeste paulistana, convivem uma massa pobre e desafortunada e uma minoria rica e de vida sobeja.

Suplicy, um homem digno de 75 anos de idade, deitou-se no chão pra tentar conter o furor da expulsão dos sem-nada e acabou carregado por braços e pernas pelos PMs do batalhão do Alckmin. Levado numa viatura pro 75° Distrito Policial, prestou esclarecimentos e foi liberado após três horas de constrangimento.

“Se fazem isso com um ex-senador da República, imagine o que sofre a população”, ele escreveria depois um desabafo numa rede social.

Seu crime, segundo o capitão Eliel Pontirolli, “desobediência e obstrução à Justiça”; seu objetivo, segundo ele próprio, evitar um confronto ainda maior, que ferisse aquela gente.

A duas semanas do início das Olimpíadas, faltou um Suplicy no Rio, na mesma manhã, no desbaratamento do Ocupa MinC pela Polícia Federal de Michel Temer. Talvez ele conseguisse muito pouco também. Provavelmente, nada. Mas o simbolismo da sua presença e de um gesto dele, certamente, acrescentaria algo bom ao que se passou.

Uma das manifestações mais bonitas da democracia desde o fim da ditadura militar – uma outra, eu acho, foi a tomada das escolas da rede pública pelos estudantes, e ambas tão mal contadas pela imprensa dominante -, o Ocupa MinC reuniu jovens e artistas por 70 dias nos pilotis do Palácio Gustavo Capanema, no Centro carioca.

Nesse período se apresentaram ali, ou apenas discursaram, estrelas da cultura brasileira como Caetano Veloso, Erasmo Carlos, Lenine, Frejat, Arnaldo Antunes, Jards Macalé, Marieta Severo, tantos outros.

A ocupação nasceu de um protesto contra o fim do Ministério da Cultura. Depois, quando o presidente interino, pressionado, recuou da decisão, virou um grande evento permanente pelo “Fora Temer” e pela volta da Dilma.

A esta altura do campeonato nacional do ódio e da desesperança, como também foi impossível conter a expulsão dos pobres da Zona Oeste paulistana, é muito difícil acreditar na possibilidade de uma coisa ou de outra.

Faltam Suplicys pra isso. Seriam necessários muitos mais.

 

Carta a Roberto Marinho e Chatô em favor de Adelzon Alves

Caros doutores Roberto Marinho e Assis Chateaubriand.

Escrevo aos senhores, que foram donos do Brasil e tiveram os políticos sob seus pés – os maus políticos, vá lá, o que tornou suas biografias ainda mais interessantes -, bom, escrevo aos senhores como um último recurso.

Adelzon Alves, 76 anos, 77 daqui a pouco, 55 deles à frente de microfones de rádio, o nosso Adelzon, patrimônio da radiofonia brasileira, profissional que, de modo sobrenatural, consegue reunir excelência e bondade, o Adelzon, enfim, está fora do ar desde a última terça-feira, 20 de de julho.

Isso é um absurdo. Peço a ajuda dos senhores.

Na verdade, já era quarta quando foi ao ar pela última vez. Porque, como os senhores devem se lembrar – mais ainda o doutor Roberto, que foi patrão dele -, Adelzon é o “amigo da madrugada”. Apresenta, com este nome, “Amigo da Madrugada”, um programa desde 1966.

Caso o doutor Chatô não recorde, pois se foi daqui em 1968, e só conviveu dois anos com o sucesso do Adelzon, rogo ao doutor Roberto que confirme a minha descrição. Adelzon Alves é o principal radialista da história da MBB (Música Boa Brasileira). Trabalhou na Rádio Globo por 26 anos. Teria saído de lá (perdoe a indiscrição, doutor Roberto) depois que um sambista cismou de criticar a construtora Odebrecht no ar.

No dia seguinte, segundo relato de gente da época, o Adelzon nem da portaria da emissora da Rua do Russel 434 pôde passar. Águas passadas, doutor Roberto, o tempo as absorve e as absolve – e desconfio mesmo que o senhor não permitiria coisa assim hoje em dia, se por aqui ainda estivesse.

Adelzon é um homem pobre, espero que ele releve a minha inconfidência. Vinha ganhando um salário inacreditável na Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), braço do governo federal a que a Rádio Nacional, onde ele trabalha, está submetido.

Aliás, trabalhava. O contrato furreca dele, de R$ 5 mil mensais brutos, não descontados o que ele paga mensalmente de ISS e a um contador, expirou dia 20 – e a EBC não quis renová-lo. A estatal alegou que o país está em crise, que o orçamento da emissora anda prejudicado, e expurgou o nosso “amigo da madrugada”.

Doutor Roberto, doutor Chatô, não duvidem de mim. Adelzon, que nem celular tem, nunca tirou férias, nem descansou em feriado. Mora na Pedra de Guaratiba, bairro humilde da Zona Oeste do Rio, e, até anteontem, ia trabalhar todas as noites de trem. Tomava um ônibus até Santa Cruz, e dali embarcava no comboio da SuperVia.

Na volta, depois de três horas de programa, da meia-noite às 3h, caminhava até a Central do Brasil pra pegar um BRT. Chegava em casa às 5h da manhã. Nunca reclamou disso. À família, sempre disse ter um compromisso com a “música brasileira verdadeira”.

Peço ajuda aos senhores pra que intercedam, daí, de onde estão agora, e este crime de lesa-música seja revertido.

Em plena era das descobertas de imensas corrupções, quando milhões de reais públicos são desviados pra contas na Suíça, e outros bilhões igualmente nossos financiam as Olimpíadas do Rio ou maluquices como a Hidrelétrica de Belo Monte, não é possível que não haja R$ 5 mil no orçamento da EBC pra manter no ar o programa do Adelzon.

Nesta segunda-feira, 25 de julho, ao meio-dia, uma roda de samba promete se formar na Rua Gomes Freire, Centro velho do Rio, em frente ao prédio da EBC, num protesto contra atitude tão mesquinha de subalternos do governo provisório de Michel Temer.

Doutor Roberto, doutor Chatô, os senhores, que foram donos do Brasil e souberam como ninguém criar e conduzir o poder das rádios, os senhores precisam nos ajudar nesta causa.

O Adelzon, sabe bem o doutor Roberto, foi contratado pela Globo, em 1964, pra falar de ieieiê e jovem guarda. No entanto, pôs no ar sambistas do morro, como Cartola, Candeia, Nelson Cavaquinho, Zagaia, Silas de Oliveira, Geraldo Babão, Djalma Sabiá…

O Adelzon, praticamente, lançou Paulinho da Viola e Martinho da Vila.

Coisa parecida, doutor Chatô, com o que fez na sua querida (e nossa também) Rádio Tupi o locutor Salvador Batista.

Adelzon doou ao Brasil o sucesso de Clara Nunes. Lançou João Nogueira (saudade), Roberto Ribeiro (saudade também) e ainda Dona Ivone Lara e ainda Wilson Moreira e ainda tantos e tantos mais.

No programa dele, despontaram Zeca Pagodinho, Almir Guineto, muita gente. Não é possível que façam com ele o que estão fazendo agora.

No início dos anos 1970, Adelzon pôs em seu programa o eterno e grandioso Jackson do Pandeiro – e o resultado foi que a música nordestina se reaqueceu, e Jackson perdurou oito anos com nosso radialista no ar. Graças a esse gesto, vieram novas gravações de Luiz Gonzaga, só pra citar mais um mito.

Doutor Roberto, doutor Chatô, conto com os senhores, que foram donos do Brasil e souberam fazer rádios como ninguém, e tiveram sob seus pés os políticos – sobretudo, os maus e os mesquinhos e os avarentos. Conto com os senhores.

O Adelzon, que é figura maior e iluminada e desapegada das coisas terrenas, não está pedindo ajuda, nem nada. Quem estamos somos nós. Humildemente, somos nós. Em nome do bom rádio brasileiro, humildemente, somos nós.

Com respeito, acolham este tão sincero rogo e aceitem, por favor, o cumprimento, embora desimportante, deste cronista digital.

Morte e vida carioca

Outro dia, pensei em começar uma crônica com esta frase: “o Rio morreu.” O impulso veio da notícia do assassinato de uma mãe nos braços da filha de 7 anos, após ser esfaqueada por um bandido no Estácio.

Pensei na dinheirama consumida pra receber as Olimpíadas, e me veio a imagem dessa mãe. Pensei no esgotamento do plano de segurança já fracassado e incapaz de conter a segregação, e me veio a imagem dessa mãe.

Pensei no descaso com a educação pública oferecida aos pobres e pensei no sistema de saúde vergonhoso e pensei na falência moral de uma sociedade inviável nos seus falsos propósitos e pensei na indignidade e no indecoro dos nossos políticos – e me veio a imagem dessa mãe.

“O Rio morreu”, eu insisti comigo, “e, na verdade, já está morto há muito tempo, talvez desde quando, levado por sua elite podre e egoísta, com seus mecanismos de controle da informação e do pensamento, franziu os lábios e torceu o nariz e investiu suas armas no desmonte dos Cieps como política de segurança e de construção a longo prazo de uma sociedade mais justa.”

Os dias se passaram, o assunto da moça assassinada desapareceu do noticiário, e eu continuei achando tudo isso. Pois há sentimentos que o tempo não absolve.

Só não escrevi a crônica porque me dei conta de que seria um veredito fatalista e grave demais (“o Rio morreu!”) – sobretudo, a tão poucos dias das Olimpíadas.

E quem seria eu pra dar vereditos? Logo eu, um apaixonado por esta cidade? Logo eu, um cara que viveu e vive no Rio de lá e no de cá, um defensor do Rio em todas as lonjuras por onde andou? Foram tantas as lonjuras.

Logo eu faria isso, um camarada que se emociona ao ver o espelho da Lagoa Rodrigo de Freitas? Um cara que ainda rumina a saudade das férias em Bangu com sua amiga Elinete? Um cariboca de Morro Agudo?

Até que a tragédia do Estácio voltou a ser notícia, apesar de acanhada, com a descoberta de que o assassino da moça não era um assaltante, mas um ex-namorado inconformado com o fim do relacionamento.

Ou seja, a morte daquela mãe não seria uma tragédia coletiva, mas particular, só dela, de mais uma vítima da violência banalizada contra mulheres, de mais uma jovem transformada em número a golpes de faca na contabilidade vexaminosa de execuções assim.

“Mas o Rio morreu, sim”, eu ainda teimei comigo. “Este Rio que está aí, hoje, é só um fantasma do que ele foi.”

Segui pensando que minha cidade, tão linda no cartão postal, está falida na imagem em movimento. Lembrei suas escolas públicas até há pouco ocupadas por crianças e jovens que clamam por educação digna – e, nesse momento, também concluí que a cobertura da imprensa dedicada à ocupação dos colégios, tão minguada e rasa até onde pude ver, deve ainda merecer uma reflexão nas faculdades de jornalismo.

“Os professores deste Rio assassinado”, eu também pensei, “não recebem salários decentes – ultimamente, quando recebem.”

Continuei no meu pensamento: “Sob a cortina do glamour de uma Copa do Mundo em casa, reformou-se o Maracanã – pela quarta vez em uma década e meia! – ao custo de mais de R$ 1,3 bilhão, montanha de dinheiro quase quatro vezes maior que o preço total da construção da nova Arena Dunas, em Natal.”

“Que Rio é este que permite tudo isso?”, eu me perguntei. “Que Rio é este que não vai pra rua de verde e amarelo agora mesmo protestar contra obscenidades e indecências assim?”, eu me exigi. “Que Rio é este que não se manifesta pelo impeachment da miséria e da pobreza e da saúde doente e da educação mofina oferecida a suas crianças pobres, a maioria negras?”

O Rio lúdico não morreu com aquela mulher. Na verdade, ele já estava moribundo bem antes. Já estava à morte antes das facadas que tiraram a vida da moça do Estácio, senão nos braços frágeis de sua pequena filha, nas suas vistas.

“Que cidade covarde é esta?”, eu me questionei, eu mesmo parte dela.

Ela, a cidade, já estava pra morrer quando elegeu e reelegeu políticos que há muitas décadas teima em perpetuar. Eduardo Cunha, por exemplo – que só agora se tornou um vilão da coletividade, como num ato compensatório do afastamento de Dilma -, é do Rio. Foi eleito e reeleito e reeleito e reeleito nesta terra. Homem forte das finanças de Fernando Collor em solo fluminense, em 1989, foi investigado no esquema PC Farias quando veio o impeachment do chefe dele.

Mas, ainda assim, de lá pra cá, sem altercar ou contender, o Rio o elegeu e o reelegeu e o reelegeu e o reelegeu e o reelegeu. Ele e muitos outros.

Insisti na minha conclusão contaminada de pessimismo: “É preciso contar a verdade à legião estrangeira que começa a chegar à cidade pras Olimpíadas. Contar a ela que o Rio da foto bonita, o Rio dos postais da Praia de Copacabana na década de 1950, quando Tom e Vinicius ensinaram à Elizeth na Rua Nascimento Silva 107 as canções de ‘Canção do amor demais’, o Rio do Maracanã do povão com mais de 100 mil pessoas, o Rio da garota de Ipanema, coisa mais linda e cheia de graça, o Rio da pureza do Garrincha, esse Rio feliz e acolhedor e hospitaleiro, esse Rio morreu.”

Pensei, por último, que é preciso, com urgência, parir um outro Rio. Um novo, onde a menininha órfã da mãe assassinada possa ter um futuro melhor que o seu presente terrível.

“Se alguém quer matar-me de amor, que me mate no Estácio”, cometeu Luiz Melodia no seu belo samba-canção “Estácio, holly Estácio”. O bandido que tirou a vida da moça não matou por amor. Fez isso por ódio. O mesmo ódio que segue assassinando o Rio aos poucos.

Por amor ao Rio, minha cidade tão querida, não escrevi essas coisas no momento em que a comoção pela morte daquela mãe fervia no meu caldeirão de culpas. Deixei que o tempo quarasse o meu sentimento.

Lembrei a flecha disparada pelo tamoio que tirou a vida de Estácio de Sá, fundador do Rio e nome do bairro onde a tragédia se deu. Lembrei tanta coisa.

Lembrei que o Morro do Estácio foi o primeiro que subi na cidade, na minha trajetória já comprida de repórter. Eu era, ali, um estudante sonhador e boboca de Comunicação, com 20 anos de idade, e fazia um trabalho de faculdade, na cobertura de um assassinato, acompanhado por Zé Grande, grande jornalista de polícia que fez história no “O Dia” e no jornalismo carioca.

Reli, então, “Morte e vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, e percebi que o Rio de hoje é o avesso do avesso do Nordeste desinfeliz que o poeta descreve.

* * *

O meu nome? Carioca.

Vivo nesta ingresia:

espigão onde era oca,

entre o morro e a maresia.

Ouço o tiro que espoca

pela noite e até de dia.

Olha a maconha! Olha a coca!

Ilegal é a hipocrisia.

Somos uma só paçoca,

mas desiguais nessa vida:

comem uns só badalhoca;

outros, fartos de comida.

Desnivelados na sorte,

mas todos nessa biboca

se igualam na mesma morte:

mesma morte carioca.

Se o meu Sujinho falasse

Sei de muita gente que põe apelido no carro. Bolinha, Pérola Negra, Blue, Batman, Gatão, Jujuba, Caveirinha, Sem Bunda (juro, conheci um Sem Bunda!), Ovo (também conheci um Ovo!), Inácio, Gisele, Pum… sério, conheci um Pum. Era chamado assim pela namorada do dono porque o estofamento tinha um cheiro meio esquisito.

Ouvi relato até de um Fusca apelidado de Cocô, por causa da cor. O pessoal dizia: “Ih, o Fulano deve ter chegado, porque o Cocô está ali.”

O meu carro se chama Sujinho. Faz aniversário em novembro. Vai completar 20 anos. Está comigo desde que nasceu. É um amigão. Tem defeitos como todo amigo. Mas é um amigão.

Entre as pessoas que sabem do meu afeto pelo Sujinho, poucas não implicam comigo por causa dele. A maioria, sem coração, insiste:

– Troca “isso”!

Evito dar carona a quem fala mal dele a bordo, porque o Sujinho se magoa e, às vezes, temperamental, pifa. Tenho essa sensação. Não troco. Nas minhas conversas sobre ele com minha filha caçula, por exemplo, que é quem mais viaja no Sujinho depois de mim, até falamos, compungidos, sobre a finitude do meu amigão no futuro. Ela já me sugeriu:

– Pai, não vende, não. Coitado do Sujinho. Compra um novo e deixa o Sujinho na casa da vovó.

Minha mãe, ao saber da ideia, claro, não concordou. Aliás, até ela insiste, de vez em quando, num arroubo insensível:

– Troca “isso”!

Não troco. Meus três filhos cresceram dentro do Sujinho – muitas vezes, brigando no banco de trás por um lugar na janela, problema que só se resolveu quando a mais velha cresceu e pôde sentar do meu lado, no carona. Hoje, todos eles podem.

Os três são os únicos neste mundo que também amam o Sujinho – e, por isso, me entendem. Nós quatro já vivemos muitas aventuras estrada afora dentro dele. Sobretudo, em nossas idas a Morro Agudo, quando eu inventava, pros três, histórias compridas toda vida, muitas delas de suspense, que precisavam começar na partida e só terminar na chegada.

No início, era um truque pra mantê-los quietos, sem brigar. Mas a estratégia rendeu tão boas histórias que algumas viraram série, como “A princesa Radical e o príncipe Prudente”. Ou “As aventuras de Uéu e Negócio”, duas criaturas tão diferentes uma da outra – ambas de forma, cor, espécie e gênero indefinidos – que se acharam muito estranhas ao se conhecer. Mas, apesar das diferenças, se tornaram amigas e foram felizes pra sempre.

– Pai, o Uéu era o quê? Um bicho? E o Negócio, o que era?

– Ué, caramba! Uéu era um uéu, e Negócio era um negócio! – eu respondia.

Eles não perguntavam mais, ficavam encantados, e a história seguia. Algumas histórias faziam tanto sucesso que, até pouco tempo, eles ainda pediam pra eu transformá-las em livro. Devo isso ao Sujinho.

O Sujinho, comprado zero quilômetro em 36 prestações, ganhou este apelido quando ainda era bem novo, recém-saído da loja. Primeiro, porque eu ensinava pra filharada que não se deve jogar papel de bala, palito de picolé ou caixa de Toddynho na rua. Segundo, porque eu me esquecia de tirar o lixo do carro depois.

Terceiro, e principalmente, porque eu tinha o mau hábito de acumular coisas dentro dele – papelada, letras de música, livros, chinelos, CDs, contas pra pagar ou já pagas, cadernos de anotação já preenchidos, e o acervo ia se avolumando, ia se avolumando, ia se avolumando, até o dia, ou vá lá, até as reclamações ficarem maiores que a minha enorme paciência, e eu resolver fazer uma triagem e jogar fora o excedente imprestável.

Ninguém podia fazer isso por mim. Eu não deixava. Porque, na entropia reinante dentro do Sujinho, só eu poderia identificar um objeto ordinário de estimação ou uma anotação importante.

Eu me curei um pouco dessa mania. Mas, outro dia, ainda encontrei uma rodinha de carrinho do meu filho sob o tapete, uma nota de R$ 1 embaixo do banco e um maço vazio de Carlton no porta-luvas.

Nada de mais se o meu filho já não tivesse passado dos 20 anos de idade, as notas de R$ 1 não circulassem mais e o Carlton não existisse há uns seis anos. O fato é que o apelido pegou, e o Sujinho envelheceu com ele.

Dias atrás, fui chamado pra uma reunião de trabalho num lugar cheio de artistas e de gente famosa e elegante e bonita e influente, na Barra da Tijuca, e logo fui repreendido pelo meu grande amigo Janjão, dono de um carro possante, de que esqueci o nome:

– Marceu, você não vai lá com essa “coisa”, vai?!

Janjão acabou me emprestando o carro dele.

O Sujinho não é como se fosse da família. Ele é da família. É sucessor do Caidinho, um Fusquinha 1969, tão velhinho, coitado, que já comprei com um prego espetado no lugar do comando de seta.

Enlutado, precisei vender o Caidinho pro ferro velho porque uma roda ameaçava cair, as portas não fechavam mais, o assoalho apodreceu, desabou e deixava jorrar água e lama dentro quando eu passava nas poças. Esconjuro que o Sujinho tenha um fim assim.

Como não tenho garagem, e nem saio muito com o Sujinho ultimamente, não raro, ele fica empoeirado, pra zombaria da molecada da minha rua. “Lave-me, Dirceu!”, “Me dá um banho, Orfeu!”, “Socorro, Marcel!”, já escreveram com os dedos nos vidros dele.

Semana passada, flagrei meu amigo Janjão, que também é vizinho, fazendo a mesma coisa. Como se isso tivesse alguma graça: “Marceuzinho, tô limpinho!”

Quem assistiu e se encantou, como eu, com “The love bug”, título original de “Se meu Fusca falasse”, o divertido filme americano de 1968, dirigido por Robert Stevenson, talvez entenda meu sentimentalismo. Herbie, nome do Fusca do longa, fez tanto sucesso que virou série de Walt Disney nos cinemas.

Na história, Jim Douglas é um corredor veterano, dispensado pela sua escuderia por não ser mais um jovenzinho, como os concorrentes. No seu desapontamento, Jim vê um Fusquinha desprezado pelo dono de uma revendedora e compra o carro, que muda sua vida pra sempre.

Meu Sujinho não é um Fusca. Mas acho que tem alma de Fusca.

Quem desdenha dele ignora sua importância. O Sujinho, já citado aqui em uma ou duas crônicas, desperta interesse. Desperta, sim. Convidado pra uma palestra sobre meu blog e o da querida Gabriela Temer (o excelente jujunatrip.com, que recomendo), na quarta-feira, 13 de julho, na ABI, uma das perguntas que me fizeram, pra minha alegria, foi justamente sobre… o Sujinho do cronista digital!

– Assim como há a Lavagem das Igrejas do Bonfim, quando você vai promover a Lavagem do Sujinho? – uma gaiata da plateia quis saber.

Não foi a única menção. O tema da palestra era a busca de alternativas pra “monetizar” os blogs (em “bloguês”, como fiquei sabendo há pouco, “monetizar” significa “fazer blog dar dinheiro”). Outro engraçadinho, no auditório, sugeriu que o cronista digital cobre por determinados acessos a textos exclusivos e dê aos colaboradores, como prêmio, um… passeio no Sujinho!

Prometi pensar. A ideia foi bem recebida. Quem sabe?

O Rio da foto de Pedro Motta Gueiros

Querido amigo Brian. Espero que o inverno aí de Johannesburgo não esteja igual ao de 2010, quando a sensação térmica foi de menos oito graus naquele 15 de junho, lembra?, estreia do Brasil na Copa da nossa amada África do Sul, com vitória infame do time de Dunga por 2 a 1 sobre a ainda mais inominável seleção da Coreia do Norte, no apinhado e semiacabado Ellis Park Stadium.

Permita que eu chame a sua África do Sul de “nossa”. Também a sinto um pouco minha – eu, meio cariboca, meio zambo, meio cafuzo, meio mameluco, meio africano de Morro Agudo. Também a sinto assim, minha.

Tenho saudade daqueles dias. Saudade das nossas conversas nas longas viagens de carro, em que você afiava meu inglês precário, enquanto eu lhe ensinava algumas palavras e frases em português. “Shosholoza uKle zontaba.” Não esqueço. Jamais vou esquecer.

Escrevo pra falar do Brasil, amigo, falar da Copa seguinte por aqui (a dos 7 a 1), e também do Rio e das Olimpíadas que estão chegando, e do Flamengo e da Mangueira, e de Carlos Drummond de Andrade e das nossas dores todas, tudo isto contido no retângulo desta imagem captada hoje cedo pelo nosso amigo Pedro Motta Gueiros. Você se lembra, com certeza, do Pedrinho.

Pedro respeita tanto as palavras que, quando precisa substituir uma por outra num texto escrito no computador, em vez de apagá-la inteira, mantém as letras que ainda vai usar na substituta.

Explico melhor. Se escreve “ardor” e quer substituir por “calor”, por exemplo, Pedro deleta apenas o primeiro “r” e o “d”, preserva o “aor”, e insere o “c” e o “l”. Alguns podem dizer que isso é mania boba. Mas não é, não, Brian. É respeito mesmo. Também tenho os meus rituais no manuseio das palavras.

Pois o Pedrinho, encantador de palavras, mandou pra mim, hoje, por celular, esta foto da estátua de Drummond na Praia de Copacabana, sob as bandeiras da Mangueira e do Flamengo. Disse que era pra inspirar uma nova publicação deste cronista digital.

A imagem que o Pedro registrou, ele certamente suspeita, contém um milhão de palavras pra mim.

Ao ver a foto pensei também em você, que tanto sonhou estar aqui, primeiro na nossa Copa e agora nos Jogos do Rio.

O Brasil vai mal, Brian. Li num jornal de São Paulo, outro dia, que 282 trabalhadores têm sido demitidos por hora no país. E, se a economia está ruim, a política pior está. Derrubaram a presidente Dilma num golpe parlamentar até difícil de explicar pra você. No lugar dela, assumiu o vice, Michel Temer, personagem mumificado da nossa História recente e grande beneficiado do movimento “coxinha”.

“Coxinha”, deixa eu tentar definir, seria, digamos, a denominação de quem tolera, minimiza ou até mesmo apoia uma espécie de apartheid social, que é histórico no Brasil. Um apartheid que vem desde as caravelas. Aquelas mesmas caravelas que trouxeram nossos irmãos negros aí do continente africano pra serem escravizados aqui.

Temer assumiu em nome da grita contra a corrupção no governo do PT, embora a razão legal do processo do afastamento de Dilma não tenha sido esta – até porque a mesma corrupção já apodreceu o partido dele, o PMDB, há muitos mais anos.

Temer assumiu, sobretudo, pra reinstalar no Brasil a ordem conservadora – e é ela, a ordem conservadora, que vigora hoje no país do Neymar, amigo.

Vigora por aqui, enfim, um certo baixo astral. Desculpe contar isso assim.

Baixo astral pelo golpe, pela situação terrível da economia, pelo desemprego destruidor de sonhos, pela corrupção, pela queda de uma presidente legitimamente eleita e que não cometeu crime de responsabilidade, baixo astral pela volta dos zumbis da vida pública ressuscitados pelo Temer.

Baixo astral também pelo estado de coisas no Rio de Janeiro, onde 60 policiais militares já foram assassinados este ano na guerra sem fim da violência. Por fim, baixo astral por, na outra ponta, incontáveis vítimas da violência desta mesma polícia seguirem em abate renitente.

Dia 7, aqui na cidade, uma mãe morreu de tristeza oito meses depois do assassinato do filho caçula, de 16 anos, numa comunidade chamada Costa Barros. O garoto e outros quatro amigos foram chacinados com 111 tiros de armas pesadas disparados pela polícia contra o carro em que estavam. Foram confundidos com traficantes.

Eram todos pretos, Brian. A foto de um deles vestido com camisa do Flamengo, cheio de sorriso e de vida, continua postada nas redes sociais a desafiar a lógica da viabilidade da existência humana.

Por falar em Flamengo, a notícia mais impactante sobre meu clube do coração desde 2010, quando nos vimos pela última vez, ainda é a da prisão do goleiro Bruno, durante aquela Copa – lembra que lhe falei na época, numa das nossas conversas, aí em Johannesburgo?

Bruno foi condenado pelo assassinato da ex-namorada Elisa Samúdio. Segue preso. Era tão bom que teria sido, tenho certeza, o goleiro brasileiro da Copa de 2014.

Dessa Copa, aliás, tenho pouco a contar, além do que você deve ter visto pela TV e já sabe. O baile alemão em Belo Horizonte completou dois anos dia 8 agora. De lá pra cá, Felipão foi demitido e recontrataram Dunga.

Imagino as risadas que você deu por aí ao saber da volta do técnico de 2010 à seleção. Dunga já foi demitido também. No lugar dele, entrou Tite, ex-treinador do Corinthians. Torço pra que dê certo, e o time do Brasil volte, pelo menos, a ser respeitado. Porque não é mais, você é testemunha.

Como vai o seu valente Orlando Pirates? Soube que foi campeão em 2012. Como está na temporada atual? Lidera o campeonato sul-africano? Aproveito pra contar que o cronista digital tem 16 leitores aí. Um deve ser você, claro. Os outros 15, certamente, são seus amigos – ou, mais provavelmente, brasileiros que por aí vivem.

Como anda a luta pela preservação dos bichos das savanas? Como está o Addo National Park, com seus elefantes monumentais e tão bonitos? Amigo, eu não lhe falei, mas, de todos os bichos africanos, o que mais me encanta é o elefante.

Drummond, maior poeta brasileiro, enredo da querida escola de samba Mangueira em 1987, meses antes de morrer, escreveu nos anos 1940 um poema em que tomava emprestada a forma de um elefante pra descrever sua esperança num mundo mais amoroso e mais justo.

É um dos escritos mais belos cometidos em língua portuguesa. Posso tentar traduzir pra você. Mas não sei se conseguiria.

O poeta, nascido em Minas Gerais, estado brasileiro onde ocorreu a tragédia dos 7 a 1, vivia em Copacabana, aqui no Rio – e, por isso, mereceu esta estátua à beira-mar, fotografada pelo Pedrinho Motta Gueiros sob bandeiras da Mangueira e do Flamengo, fincadas na areia da praia.

O Rio e o Brasil estão bem aí na foto, Brian – mas vão muito mal na imagem corrida, real, dos 24 quadros por segundo alcançados pela visão humana. Sinto muito dizer isso, amigo. Sinto muito por mim. Sinto pelos meus filhos, sinto por quem mais amo e por todos que aqui vivem.

O Rio da foto do Pedrinho é o Rio que reenvio pra você. No retângulo da imagem captada por ele, está a estátua do poeta que usou a forma do seu elefante pra descrever a esperança. Nele, estão as bandeiras da Mangueira e do Flamengo, com todos os seus significados de povaréu do Brasil. E estão, repare, uma pontinha do mar de Copacabana e um cocuruto de montanha e um rasgo do céu azul carioca deste inverno.

Também por aqui tudo é “shosholoza uKle zontaba”, amigo – ou, no meu idioma, vamos seguindo adiante através destas montanhas. Um abraço do seu irmão brasileiro. Marceu.

A última fuga da gatinha Biba

A morte de um bicho querido é a morte de um pedaço da gente. Minha filha caçula, por exemplo, nunca mais quis ter cachorro depois que o Chope, o yorkshire dela, morreu. O Chope conviveu com a espreita da morte durante meses. Seu calvário e sua vontade de resistir comoviam.

Ainda assim, minha filha sofreu muito e nunca mais quis ter outro cachorro. Não foi a primeira, não foi a única, nem terá sido a última pessoa a passar por dor assim e tomar a decisão sentida de não ter um novo bicho.

Pessoalmente, acho que devemos sempre ter novos bichos. Eles não se substituem. Cada um deles tem pra sempre um lugar exclusivo na nossa lembrança – e o desconsolo causado por sua morte, quando ocorre, ensina muito sobre a finitude.

Ao longo da vida, também chorei por alguns cachorros que perdi. Branquinha, cadelinha pequinês, morreu atropelada pelo Opala velho do meu pai no nosso próprio quintal de Morro Agudo. Foi uma comoção. Eu era bem pequeno e lembro que a enterrei num descampado à beira da Via Dutra.

Kiko, o irmão dela, que volta e meia ficava pendurado com os dentes na bunda de senhorinhas que visitavam minha avó no quintal de três casas – a nossa, a dos meus primos e a dos meus avós -, morreria muitos anos depois, de velho. Já adolescente, chorei muito por ele também.

Ringo, meu primeiro grande amigo, era um vira-lata tão bravo que meu pai o levou pra longe duas vezes. Na primeira, dias depois, voltou. Na segunda, sumiu pra sempre. Pretinha, outra enfezada, mordia quem se aproximasse das crianças do quintal.

Mordeu tanto que teve o mesmo destino, levada embora, dessa vez pelo meu tio. Nunca soubemos pra onde.

Ringo e Pretinha foram tão importantes na minha vida que viraram personagens do meu texto de despedida do “Globo”, onde trabalhei 13 anos e meio (leia sua republicação pelo cronista digital aqui, se quiser).

Vieram muitos cachorros depois deles. Rin-Tin-Tin ficou louco e precisou ser sacrificado. Foi um trauma. Lady, pastora alemã fanfarrona, que só latia de brinquedo e não mordia ninguém, morreu doente. Eu a chamava de Méa. Sei lá por quê.

O apelido pegou, pra insatisfação do meu tio, que a havia arranjado na esperança de se tornar uma cadela de guarda de nome pomposo. Não conseguiu nem uma coisa, nem outra.

Méa odiava o cachorro do vizinho, chamado Bob. Nossa diversão – minha e de uma prima muito querida – era gritar pra ela:

– Pega o Bob, Méa!!! Pega o Bob!!!

Ela tomava distância, corria até o muro e, zupt!, não sei como conseguia, mas escalava aquele paredão. Aí, fingindo ser brava, ficava pendurada lá no topo do muro pra latir e irritar o vira-lata inimigo.

Tiroteio era um dálmata lindo, de pintas miúdas, que engolia tudo – palito de fósforo, papel de pão, bola de gude, caroço de pitanga, plástico, capa de caderno, tampa de xampu, chapinha de garrafa de suco de caju, envelope de refresco, parafuso…

Com o Tiroteio, a diversão da gente era procurar o que havia engolido no meio do cocô dele no dia seguinte.

Um dia, ele engoliu um pedaço de Bombril, que não encontramos no outro dia. Nem nunca mais. Não resistiu à palha de aço, e nós descobrimos, com muita tristeza, mais uma “utilidade” do Bombril, além das 1001 anunciadas por aquele garoto-propaganda do anúncio de TV – matar nosso cachorro querido.

Mais tarde, bem mais tarde, os gatos sucederam aos cachorros, e eu fui apresentado à delícia que também é conviver com os felinos. Lug é um persa idoso e mal-humorado, que acompanhou o crescimento dos meus três filhos e faz companhia pra minha mãe naquele mesmo quintal, hoje repartido em dois.

Fael, gatinho sem raça definida, branquinho e brincalhão, foi um grande amor dos meus dois filhos mais velhos. Fael se foi de repente, nem faz muito tempo, pro luto tão doído deles dois. Sobraram Romeu e Julieta, também vira-latas e mais novos, que continuam espertos, enchendo a casa dos meus filhos de alegria, agora acompanhados também da caçulinha Alice.

E, no meio desses miados todos, há a história da gatinha Biba.

Eu vivia chamando a Biba de feia. Era a persa mais vira-lata que já vi. Chamava de feia só pra implicar. Ela nem me dava bola. Nunca me deu. Biba, na verdade, era linda. Há uns dez anos, preenchia a vida da minha irmã.

Biba parecia predestinada a uma existência curta. Sumiu duas vezes. Numa, passou 15 dias escondida na garagem do prédio da minha irmã, àquela altura já desesperançada de reencontrá-la na selva de Copacabana.

Na outra, ao passar alguns dias em Morro Agudo, enquanto a dona viajava, saltou o muro e desapareceu. Voltou dois dias depois.

Desde então, nas suas visitas a Morro Agudo, a casa precisava ficar toda trancada, pra ela não fugir.

Até que, hoje cedo, depois de uma noite apenas de padecimento grave e repentino, a Biba morreu e deixou na minha irmã um vazio que eu alcanço o tamanho. Alcanço sim.

Acho que a Biba só fugiu – desta vez, pra sempre.

Foi encontrar o Fael e conhecer a Pretinha e o Ringo, e também o Tiroteio, com seu cocô cheio de pequenas bugigangas engolidas na véspera, e ainda o Rin-Tin-Tin e o Kiko e a Branquinha e a Lady Méa e, quem sabe, até o Bob.

– Pega o Bob, Méa! Pega o Bob!

 

Quarenta anos sem Geraldo num tempo já sem geraldinos

Quarenta anos passam como um sopro, eu pensei hoje ao me lembrar da morte de Geraldo, o Assoviador.

Quem por aí sabe quem foi Geraldo, lembra seu nome completo ou o que ele fez, onde nasceu, como surgiu pra uma vida intensa e tão curta, do que era capaz com a bola nos pés, correndo, correndo, correndo, sempre em frente, sempre em frente, elegante, rumo à área inimiga?

Eu sei. Eu vivi e vi. Na verdade, mais ouvi no rádio do que vi.

Geraldo brilhou no primeiro time do Flamengo que aprendi a soletrar do goleiro ao ponta-esquerda, de trás pra frente, de frente pra trás. Time rubro-negro campeão carioca de 1974, quando eu, garoto de canelas ruças e joelhos ralados nos campinhos de Morro Agudo, ainda nem conhecia o Maracanã – e hoje o Maracanã nem se reconhece, e eu nem me reconheço nele.

Geraldo vestia a camisa 8 de um time mágico, que, além dele, tinha Renato no gol, reserva da seleção na Copa de 1974, na Alemanha. Um time espetacular, que tinha Júnior, sim, ele, o Capacete, ali lateral-direito, depois de ter sido meia nos juvenis.

Um escrete maravilhoso, como se dizia na época, que, na zaga, reunia Luís Carlos e Jaime – o próprio, o ex-zagueiro e hoje auxiliar-técnico rubro-negro -, e  na lateral-esquerda contava com Rodrigues Neto, incluído num troca-troca desastroso com o Fluminense, dois anos depois.

Liminha, o Carregador de Piano, era o volante, soberano à frente da área (Renato Maurício Prado, craque no tema, corrige com propriedade o cronista digital, muito menino na época, e informa, depois da crônica publicada, que o titular da camisa 5 era o Zé Mário. Liminha estava no elenco, mas o titular era o Zé Mário).

Um moleque de 20 anos, chamado Zico, vestia a 10 e dividia o meio de campo com o amigo Geraldo.

Paulinho, ponta-direita que faria história num jogo do Flamengo com a seleção brasileira, era o 7. Doval, o monumental atacante argentino, que jamais deveria ter deixado a Gávea, também envolvido no tal troca-troca com o Fluminense, era o 9. A 11 pertencia a Edson, ponta-esquerda que havia se destacado no América-MG. O técnico era Joubert.

Esse time e sua glória completaram 42 anos neste 2016 – e, dia 26 de agosto, daqui a pouco, vai fazer 40 que Geraldo, o Assoviador, morreu. Tinha só 22 de idade.

Eu lembro que assimilei a morte dele como a de um amigo da rua ou alguém da família. Geraldo, nas noites de quarta-feira, morava no radinho de pilhas sob meu travesseiro, com suas jogadas e gols que eram cantiga de ninar pra mim.

Foi o único jogador do Flamengo convocado pra Copa América de 1975. Mineiro de Barão de Cocais, tinha nove irmãos, quatro deles também jogadores de futebol – um era o zagueiro Washington, que o levou pro clube, onde também atuava.

Geraldo jogava assoviando. Parecia correr rodeado de anjos.

Quando, jovenzinho, tomou de Afonsinho a vaga de titular no Flamengo, chorou e confessou ao vizinho tricolor Raimundo Fagner, seu amigo, ainda não famoso, que queria desistir do futebol. Sentiu-se um traidor do ídolo tão querido.

Fagner e outros amigos o convenceram a esquecer aquela ideia – e Geraldo seguiu. Pra minha alegria, ele seguiu. Pra alegria de milhões de torcedores, ele seguiu.

Seguiu também pra alegria daquele timaço, que ainda gestava o título de campeão do mundo interclubes, em 1981.

Seguiu pra alegria do próprio Afonsinho, que dele gostava tanto.

Nestes dias modernos e, ao mesmo tempo, tão submissos e aferrados ao atraso, dias em que a sonda Juno entra na órbita de Júpiter pra investigar o planeta gigante, enquanto negros, mulheres e gays, em plena era dos avanços científicos, continuam espezinhados, humilhados e mortos aqui e mundo afora, recordo Geraldo, um jovem preto, eleito protagonista de sua breve existência por seus talentos, e percebo como a minha contemporaneidade perdeu gente relevante nesses 40 anos.

Geraldo Cleofas Dias Alves era uma revelação. Promessa pra Copa do Mundo de 1978, na Argentina, morreria antes que sua genialidade pudesse ser exibida aos olhos do mundo.

Padecia de uma inflamação renitente na garganta, e, por isso, havia recebido a indicação de uma simples cirurgia pra retirada das amígdalas. Internado às 7h da manhã daquele 26 de agosto de 1976, sentiu-se mal 20 minutos depois da operação – e, às 10h30, seu coração parou de bater, num choque causado pela anestesia.

A tentativa dos médicos de reanimá-lo foi inútil. Não se reanima a bola morta dentro do gol. A não ser por vontade dos juízes.

Os juízes que regem os mistérios do futebol não quiseram naquele dia.

O time do Flamengo, sem ele, estava no Ceará pra uma partida contra o Fortaleza. Os jogadores voltaram e foram direto pro velório, na sede do clube. Todos choravam.

Seu grande companheiro desde menino nas categorias de base, a quem chamava de irmão e cujo pai o apresentava como “meu filho marronzinho”, Zico, ao chegar – acho que foi meu amigo Fernando Calazans quem me contou isso -, parecia um desterrado pra sempre de sua alegria.

A morte de Geraldo foi tão sentida que seu melhor amigo na vida adulta, o também meia Carlos Alberto Pintinho, do rival Fluminense, mergulhou em grave desconsolo e decidiu deixar o Brasil. Pintinho vive até hoje na Espanha.

Em sinal de luto, pela primeira vez, o Flamengo passou a jogar de calções pretos, e assim seguiu por longo tempo.

O time estava vestido assim no dia 6 de outubro daquele ano, quando, num amistoso pra arrecadar algum dinheiro pra família de Geraldo, enfrentou a seleção brasileira no Maracanã.

Diante de 142 mil torcedores, o Flamengo venceu a seleção de Pelé e Rivelino por 2 a 0, gols de Paulinho e Luiz Paulo, sucessor de Edson na ponta-esquerda. Até o general-ditador-presidente Ernesto Geisel estava lá, na tribuna de honra, pra assistir ao jogo e reverenciar a memória de Geraldo.

Faz 40 anos que tudo isso aconteceu. Um sopro.

Geraldo carregava no próprio nome o encantamento daquele Maracanã – Geral… do.

Geral do povo humilde, que lotava o estádio/templo pra ver deuses da bola como ele. Geral do torcedor do Flamengo, da torcida do Vasco, do Fluminense, do Botafogo.

Geral até da seleção do Brasil, que, como o velho geraldino daqueles dias de Geraldo, nem o Maracanã frequenta mais.