Retrato do jornalista quando jovem

Num tempo em que o jornalismo era mais romântico e a gente achava que podia mudar o mundo com uma reportagem; tempo em que um furo durava 24 horas ou mais, e não havia internet a atrapalhar a alegria boba de acordar cedinho pra ver o jornal estampado com a chamada de capa de uma matéria nossa em primeira mão; numa época de sonhos de esquerda no poder, quando saíamos das redações, já tarde da noite, e íamos direto pro Lamas discutir quem seria melhor pro Brasil, se o Lula ou o Brizola; nesse tempo, eu convivi com um dos caras mais fantásticos que o jornalismo me concedeu conhecer.

Nesses 30 anos de estrada, vi poucos jornalistas tão criteriosos, talentosos, coerentes, combativos e certos de suas certezas quanto ele.

Esse cara se chama Fernando Brito.

A gente se conheceu na segunda metade dos anos 1980, quando eu, foca no ofício de repórter, fazia a cobertura da era brizolista no Rio. Brito era o assessor de imprensa do Brizola, um assessor como eu jamais soube da existência de outro igual.

Brito nunca se sentou perfumado e emplumado e engravatado na frente dos poderosos das redações pra fazer e receber afagos falsos em troca de um canal com as chefias – cena a que muito assisti nas minhas incursões nesse, digamos, “entremundo” corporativo da imprensa (nada contra, o mundo, com suas enormes batalhas do chamado “mercado”, está aí mesmo, numa evolução constante, a aniquilar romantismos tolos como o meu).

Pois o lidar do Brito era com os repórteres de tênis Bamba e calça jeans. Não que fosse antipático com os editores e diretores calçados em seus mocassins. Não era. Jamais foi. Só não vestia personagem. Nunca vestiu.

Ao contrário do que meus colegas de cobertura podiam supor naquele tempo, o Brito jamais me adiantou uma informação ou, no jargão jornalístico, nunca me presenteou com um furo.

Mas nunca, nunca mesmo, deixou de confirmar as notícias que eu apurava. Mesmo as embaraçosas pro Brizola.

Ou as que o Brizola julgava embaraçosas, porque resvalavam no insondável de sua vida privada – a rotina do homem apaixonado pela mulher, dona Neuza; sua preocupação com a exposição dos filhos; suas terras no Uruguai; seus 12 ternos, todos azuis, com calças e paletós numerados com caneta Bic nas etiquetas, pra ele não confundir o par de um com o de outro, coisas assim. Brito não deixava de confirmar nada.

Meu amigo Fernando Brito é um dos jornalistas que o destino mais injustiçou. Poderia ter sido editor, diretor de redação, grande repórter, colunista, ocuparia qualquer função em qualquer redação, e teria alcançado o Olimpo da profissão no ramal onde ela é – ou foi um dia – mais vistosa e glamourizada, que é o ambiente das sedes dos jornais, das revistas, das TVs e das rádios.

Mas preferiu cumprir seu papel de maior assessor de imprensa político de que já tive notícia nesses anos todos – ou foi preferido, ou preterido.

Pra gente, ele era mesmo o Fernando. “Brito” era como Brizola o chamava. Mas, com o tempo, acabamos incorporando o tratamento usado pelo Brizola, e ele virou Brito.

Nem o Brito e nem o Fernando apareciam em fotos com o Brizola, embora estivessem, o militante e o profissional, sempre ao lado do velho político gaúcho que amou o Brasil como poucos, muito poucos (esta imagem é um flagrante raro, raro mesmo).

Brito se manteve tão perfeito e fiel em sua encarnação de assessor que, mesmo sendo o chefe dele tão imprevisível em seus pensamentos e opiniões, era capaz de escrever seus “tijolaços” sem conversa prévia com o então governador.

Aliás, ele não escrevia. Ditava a uma secretária, andando de um lado pro outro em sua sala trancada.

Abre parêntese. Pra quem não sabe, “tijolaço” era o apelido das colunas (pagas) que Brizola publicava no “Jornal do Brasil” daquele tempo. E Tijolaço, pra quem também não sabe, é o nome de um blog campeão de audiência que o Brito mantém hoje. O endereço é tijolaco.com.br. Fecha parêntese.

Fernando Brito é um dos sujeitos mais dignos e justos que encontrei na minha existência profissional. Um elogio ou uma crítica dele – e o meu amigo tem sido pródigo nisso ultimamente, generoso e cruel com este cronista digital (já ameaçou até quebrar meu violão) – vale como um rubi pra mim.

Tudo isso é só uma confissão pública de gratidão. Devo a iniciativa deste blog – que, em menos de um mês, está perto de alcançar 20.000 visualizações (prometo contar quando chegar a 20.000, e eu nem sei se isso é muito ou se isso é pouco, ou se isso é quase nada neste mundo virtual, onde as palavras são bombas ou apenas estalinhos em seus segundos de explosão) -, enfim, devo a iniciativa deste blog à insistência e ao incentivo de duas pessoas, um homem e uma mulher, ambos jornalistas.

Dela, outra parceira de profissão de quem virei fã, vou falar outro dia. Do cara, falo agora. Ele é o Fernando Brito.

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8 comentários sobre “Retrato do jornalista quando jovem

  1. Marceu, você disse tudo. O Brito é um gênio. Acho que o cara nem faz idéia do prazer que foi estar nos momentos mais difíceis, engraçados e tristes dos anos produtivos de Brizola. Só quero lembrar que, além de um puta texto, e desse método de escrever o Tijolaço (verdadeiro método Stanislavsky, acredite), o Brito tem uma coisa de professor Pardal. O maior exemplo disso é o Brizorelhão, um orelhão em que pessoas comuns podiam falar com o presidente e eram gravadas. São imagens sensacionais. Todos eram informados e autorizavam. Gosto muito também, do Fernando e do Brito. O artigo é mais que merecido. Abraços.

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  2. Marcel. Trabalhamos juntos, eu e o Fernando Brito no primeiro governo Brizola. Trabalhei como Assessor de Imprensa na Secretaria de Trabalho e Habitação e depois, por indicação do Brito fui editar o DO Noticias. Ele, que era o Editor, com a saída da Marta Alencar, ficou na Assessoria do Governador.
    Concordo com todas as suas palavras. Não tenho mais contato com o Fernando Brito, mas continuo sendo seu fã.

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