Quando a cidade se acende

Vencido pela falta de sono e de aconchego, um aconchego que não tinha mais e o dizimava de saudade, calçou o velho All Star e, com a madrugada prestes a se desfazer no arrebol, entrou no carro e foi vagar pelas ruas da Lapa.

Não se deu conta. Mas o velho par de tênis, com seus simbolismos, depois de uma temporada esquecido num canto de armário, repunha nele, naquele minuto, um pouco de cada coisa perdida nos últimos dois anos, seis meses e um punhado de dias.

Saiu disposto a ver o sol nascer por trás dos Arcos, a admirar suas luzes que, toda manhã, costumam escorrer prontas pra se moldar em qualquer sentimento. Luzes que vazariam dali a pouco pelos vãos do imponente aqueduto, tão antigo aqueduto, inaugurado em 1750, símbolo de uma cidade já inexistente e contaminada pelas injustiças dos homens. Luzes que viriam banhar de amarelo a praça espalhada defronte ao monumento.

Àquela altura da madrugada quase desfeita, dormiam no largo mendigos, e cintilava a sirene de um carro de polícia sem ninguém dentro.

Já havia cumprido esse mesmo roteiro tempos atrás, numa madrugada remota, uma outra madrugada mais feliz em que, certamente, ele havia sido melhor companhia do que poderia ser agora. Não queria encontrar ninguém. Só ele mesmo e sua alma perdida, talvez num beco, o beco das três canções de Manuel Bandeira, o beco do hotel de João Gilberto e Wilson Batista, descrito, se sua memória não o traía, em “Noturno da Lapa”, o bonito livro de Luís Martins de que tanto gostara.

Os pavores que a noite desperta na coincidência de certos horários e lugares não lhe invadiam. Sentia-se tão corajoso que a lágrima em seu rosto sequer lhe acrescentava raiva. Possivelmente, só dele mesmo e de sua fraqueza tão exposta.

Havia estacionado adiante, e, de onde estava agora, ainda conseguia distinguir na luz pouco difusa o carro surrado como ele próprio.

“Ei, me dá um cigarro?” Não deu. “Moço, me paga uma comida?” Nem olhou. Atravessou a Avenida Mem de Sá que recendia a mijo e tristeza, e entrou num botequim de onde uma música ruim brotava não muito alta sem lhe despertar nada. Nem desprezo.

Sua coleção de fracassos, suas perdas acumuladas, seu orgulho ferido, seus pesadelos, suas dores não repartidas, sequer confessadas, tudo o ofendia.

– Vai tomar no… – gritaram pra alguém na rua.

Nem ligou. Pediu uma cerveja, bebeu devagar e se livrou do som ambiente com seus fones de ouvido. Dos fones, Lenine gritava pra ele: “Hoje eu encontrei a lua/Antes de ela me encontrar/Me lancei pelas estrelas/E brilhei no seu lugar/Derramei minha saudade/E a cidade se acendeu/Por descuido ou por maldade/Você não apareceu.”

O barulho desagradável do primeiro ônibus no ponto em frente o acordou do transe, e a manhã começou a surgir, e a manhã tinha pressa. A manhã exigia. E ele pagou a cerveja, e ele caminhou até a praça dos Arcos, e ele admirou o parto do sol doendo no tempo.

Enxugou os olhos, fingiu um sorriso pra moça de maquiagem borrada que passava, e, depois de um café preto numa padaria imunda, retomou o sentido obrigatório das coisas, e se odiou um pouco, e voltou a seu carro, e foi trabalhar.

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34 comentários sobre “Quando a cidade se acende

  1. Belo, poético e sensível texto. Valeu a dica do Fernando Brito. O blogue tem cara daqueles botecos que a gente frequenta, mesmo quando não vai beber, só pelo prazer de ouvir boas estórias. Vou ser frequentador contumaz por aqui, deixe o meu banquinho separado junto ao balcão, é onde sempre aparece alguém com boas estórias pra contar.

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  2. Embora seja fã antigo de Marceu, soube do blog por meio do raçudo Fernando Brito(a quem dedico uma bela passagem de O Vento será sua Herança – Stanley Kraemer :
    – “É papel de um jornalista consolar os aflitos e afligir os consolados”
    Marceu, vida longa à sua bela carreira!
    Como dizem os mestres W Moreira e N Lopes
    Abras as asas sobre mim ó Senhora Liberdade!
    Salve o Samba
    Salve o Rio de Janeiro
    Irmãos Naves – MG

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  3. Grande Marceu,
    Lendo Fernando Brito soube de seu blog!
    Crônica bela com assinatura das almas leves que, com ou sem Virgilios, dribla os infernos do dia-a-dia!! Ao meu xará dedico um trecho do clássico O VENTO SERÁ SUA HERANÇA – Stanley Kraemer
    “…é papel de um jornalista consolar os aflitos e afligir os consolados…Salve o Samba!

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