Em Copacabana

Comprava dois exemplares do mesmo jornal todas as manhãs sem perceber que era mais um gesto sem sentido no seu cotidiano saturado de manias. Sequer os abria. Deixava-os empilhados sobre o banquinho próximo à porta da cozinha, ao lado da pia, de onde ganhavam o mesmo destino do lixo, sempre às terças-feiras, quando recebia sua única visita da semana – a da faxineira.

Fazia isso há 12 anos, desde a morte da mulher, sem se dar conta de que o hábito perdera o sentido. Pelo menos até aquela manhã, quando acordou com o coração alterado e a dolorosa sensação de que não só essa, mas muitas outras manias haviam deixado de ter razão.

Não gostava de ler jornais já mexidos. Por isso, comprava dois – um pra ele, outro pra mulher. E desde que ela morrera sem lhe deixar filhos, manteve a rotina. Primeiro, pelo apego à convivência de 50 anos de um casamento que ele supunha feliz. Depois, quem sabe, simplesmente, por não atinar pra nova realidade de viúvo solitário.

Desistira da comodidade das assinaturas porque, pelo menos uma vez por semana, o distribuidor estranhava a dupla encomenda e lhe mandava um só exemplar. Nessas vezes, telefonava enfurecido pro jornal e só conseguia domar a ira depois que enviavam o outro.

Sentia-se tão violentado com o deslize que a repetição do descuido o levou a comprar os jornais na banca da esquina. O jornaleiro não estranhava mais. Ele já nem precisava pedir. Chegava, e os dois exemplares eram acomodados na sacola plástica mal sua presença era notada.

No início, ainda perdia algum tempo na esquina, retirando os jornais da sacola pra dar, ali mesmo, uma passada de olhos nas manchetes. Mas, ultimamente, nem isso fazia mais. Voltava pra casa e os depositava no banquinho de sempre sem os abrir. Sabia da existência da internet, mas a repudiava e nem celular tinha.

Não era a única mania. Todos os dias, por volta das 8h, parava no mesmo botequim da Rua Bolívar, pedia o café com leite “mais escuro que claro” de sempre e reclamava se a xicrinha servida não fosse a comprada por ele mesmo pra deixar ali.

Sabia quando tentavam enganá-lo. A dele, como repetia ao balconista, tinha um pequeno lanho na asa, feito por ele próprio com a ajuda de uma faca pontuda.

Em casa, a faxineira se aborrecia com sua insistência com os mesmos dois pares de toalha de banho já surrados, bordados com as iniciais dele e mulher. Se calhasse de os dois estarem sujos ao mesmo tempo, ralhava com a empregada, que deveria ter o cuidado de lavar semana sim um, semana não o outro.

Também franzia a testa e resmungava coisas inaudíveis se a faxineira retirasse da mesinha de cabeceira os dois vidros de perfume que ele e a mulher usaram nos últimos anos da vida em comum – o dele, um Drakkar já vazio; o dela, um Courréges pela metade e quase sem cheiro.

Sentia-se só, mas não buscava remédios que lhe amenizassem as pequenas tragédias da solidão na velhice. O sexo, pra ele, era vaga lembrança de um tempo distante, embora sufocasse no corpo engelhado e na alma curtida os desejos que, cruelmente, jamais abandonam os homens – mesmo, de forma inútil, no limiar da existência.

Preferia o isolamento aterrador a pagar pelo consolo juvenil de uma mulher. Odiava também as conversas sem compromisso a que velhos iguais a ele se entregavam nos fins de tarde na praça de algumas ruas adiante. Frequentava a praça, mas se sentava longe e, em vez da conversa ou do jogo de cartas, assistia com olhar de repugnância ao esvoejar dos pombos.

Os antigos amigos de repartição, de quem gostava mais, tinham sumido depois da aposentadoria. Ou morrido. O telefone de casa só tocava por engano ou uma vez a cada duas semanas, quando a única sobrinha, filha de sua única irmã, também já morta, ligava pra saber se “o tio ainda estava vivo”, como gostava de brincar.

Já havia passado dos 80 anos, e a lembrança da idade era pra ele um doído exercício de memória. Tinha medo de morrer, mas mentia a si mesmo, dizendo que a morte significava a decomposição natural não apenas das boas coisas, mas também dos fracassos acumulados – e que essa certeza o consolava.

Por isso, dizia ele, saía à rua toda as manhãs, a não ser as de chuva, pra gastar sua réstia de vida, ainda que não a repartisse com mais ninguém.

Naquele dia de sol, porém, não desceu pra comprar os dois jornais. Também não apareceu no botequim da Rua Bolívar pra reclamar da xícara. Tampouco foi visto na praça, assistindo com nojo ao balé dos pombos.

Era uma terça. A faxineira abriu a porta com o telefone já tocando na sala. Era a sobrinha. Queria saber se “o tio ainda estava vivo”. Dessa vez, a teimosia do telefone não dava certeza.

Não estava. Abraçado aos dois pares de toalhas com as iniciais dele e da mulher, segurando nas mãos postas o frasco vazio de Drakkar e o de Courréges pela metade, fazendo uma dupla de jornais repetidos de travesseiro, parecia dormir na cadeira de balanço diante da cama ainda feita da véspera.

O inusitado de sua morte mereceu um registro de cinco linhas no jornal que comprava e já não lia.

* Texto revisado, publicado originalmente no livro “Nada não e outras crônicas” (Editora Mauad, 1999), do cronista digital

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