Darcy, herói do Brasil

Fez 20 anos que o professor Darcy Ribeiro morreu, aos 74 de idade, no dia 17 de fevereiro de 1997, uma semana depois do carnaval. O tempo foi ligeiro e aprontou muito de lá pra cá. Sabemos.

Antropólogo focado na preservação dos índios, educador maior que pensava no futuro das crianças brasileiras, escritor e político defensor do socialismo com liberdade, Darcy era herói, paladino dos indefesos. Faz muita falta.

No meu pensamento infantil, que nunca vai deixar de ser assim, o professor Darcy merecia reviver num personagem chamado Super-Brasileiro. Um Super-Darcy.

Era mesmo um grande brasileiro. Talvez tenha sido o maior de todos, ombreado ali, quem sabe, com Pedro II, Santos Dumont e outros poucos, bem poucos.

Darcy morreu de câncer depois de uma fuga do hospital e de implorar aos amigos Frei Betto e Leonardo Boff que o fizessem acreditar em Deus – porque, pra ele, era doloroso demais se imaginar desintegrado, além do corpo físico, e deixar de existir. Era duro, pra ele, pensar que, depois de se despedir da matéria, haveria apenas o nada e a sua própria inexistência.

Já vencido pelo câncer, à espera apenas do último suspiro, o professor se foi sem ter visto o desfile da Viradouro, escola campeã daquele carnaval com o enredo “Trevas, luz, a explosão do universo”, de Joãosinho Trinta. Partiu sem assistir às vitórias do Lula e da Dilma, e sem tempo de saber do impeachment e da Lava-Jato e da prisão do Sérgio Cabral e da ascensão do Temer.

Morreu sem sorrir por Obama ou se lamentar abestalhado pela escolha do Trump nos Estados Unidos. Fechou os olhos sem nos explicar Crivella e João Dória, e sem nos socorrer desta tragédia feita com o Brasil.

Estava assistido por Leonardo Boff no último instante. Os relatos coincidem. Consta que, quando Boff chegou, Darcy entregou ao amigo um texto inédito, com confissões, onde se lia num prólogo: “Termino minha vida exausto de viver, mas querendo mais vida, mais amor, mais saber, mais travessuras. A você que fica aí, inútil, vivendo vida insossa, só digo: ‘Coragem! Mais vale errar se arrebentando do que se poupar pra nada.’ O único clamor da vida é por mais vida bem vivida. Essa é, aqui e agora, a nossa parte. Depois, seremos matéria cósmica, sem memória de virtudes e gozos. Apagados minerais. Pra sempre mortos.”

Darcy, que amava as mulheres e tinha um nome ao mesmo tempo masculino e feminino, merecia um Dia Nacional, uma estátua do tamanho da cúpula do Senado, uma avenida mais comprida do que a Via Dutra, ou talvez batizar a Amazônia – Floresta Tropical Professor Darcy Ribeiro!

O destino deu a muitos repórteres de política – entre eles, o cronista digital – a alegria imensa de ter convivido com o professor em entrevistas e andanças Brasil afora, na cobertura de campanhas eleitorais. Darcy era bárbaro.

O Brasil que sonhava é ainda o desejado por muita gente, impossível duvidar disso. A solidariedade que despertava, o amor que emanava, a entrega individual que propunha, as formulações de país justo que oferecia, tudo era magnífico.

A imprensa dominante do tempo dele não teve tamanho pra refletir seus raciocínios. Quando ele dizia que a favela era “uma beleza”, as manchetes gozavam em vez de tentar decifrar a profundidade do seu diagnóstico.

Darcy disse: “O Brasil, último país a acabar com a escravidão, tem uma perversidade intrínseca na sua herança, que torna a nossa classe dominante enferma de desigualdade e de descaso.” Estava certo. Não lhe deram ouvidos.

Disse ainda, num tempo em que semeava Cieps no Rio de Janeiro, diante do desconforto da elite: “Se os governantes não construírem escolas agora, daqui a 20 anos vai faltar dinheiro pra fazer presídios.” Foi visionário, estava certo.

Sua frase mais célebre dizia dele mesmo e dos seus fracassos contaminados por falsa modéstia, porque modéstia era coisa que o Darcy não tinha: “Fracassei em tudo que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil se desenvolver autonomamente e fracassei.  Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.”

Por falar em modéstia, Darcy dizia também dele mesmo: “Admito, com toda desfaçatez, que gosto demais de mim e me acho admirável.” E como era.

Era também contundente e amoroso. Repetia sempre que “a escola não ensina, a igreja não catequiza, os partidos não politizam, e o que opera no nosso país é um monstruoso sistema de comunicação de massa, impondo padrões de consumo inatingíveis e desejos inalcançáveis pelo nosso povo, aprofundando mais a marginalidade dessas populações.”

Segundo Darcy, “os brasileiros somos um povo em ser, mas impedido de sê-lo. (…) Da mestiçagem (…) fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos viveu por séculos sem consciência de si. Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros”.

E insistia: “O Brasil sempre foi e ainda é um moinho de gastar gentes. Nós nos construímos queimando milhões de índios. Depois, queimamos milhões de negros. Atualmente, estamos queimando, desgastando milhões de mestiços brasileiros, na produção não do que eles consomem, mas do que dá lucro às classes empresariais.”

Mas era um otimista. Numa entrevista, certa vez, afirmou: “Só há duas opções na vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca.”

Criador de duas universidades, a UnB e a Uenf, espalhava ainda pra quem quisesse ouvir: “Sou um homem de causas. Vivi sempre pregando, lutando, como um cruzado, pelas causas que comovem. Elas são muitas demais: a salvação dos índios, a escolarização das crianças, a reforma agrária, o socialismo em liberdade, a universidade necessária. Na verdade, somei mais fracassos do que vitórias em minhas lutas, mas isso não importa.”

Seu parecer sobre o que se passou com o Brasil desde a primeira cópula de Caramuru e Paraguaçu era preciso: “O ruim no Brasil (…) é o modo de ordenação da sociedade, estruturada contra os interesses da população, desde sempre sangrada pra servir a desígnios alheios e opostos aos seus (…). O que houve e há é uma minoria dominante, espantosamente eficaz na formulação e na manutenção de seu próprio projeto de prosperidade, sempre pronta a esmagar qualquer ameaça de reforma da ordem social vigente.”

Pra ele, “a crise da educação no Brasil não é uma crise, mas um projeto formulado pelas elites” pra perpetuar seu domínio.

Nestes 20 anos da morte do professor Darcy, é possível imaginar o que ele diria do Temer, do Eduardo Cunha, do José Serra no Itamaraty e depois demissionário por suposto motivo de saúde. O que diria do Cabral e do Eike Batista presos, e do Rodrigo Maia, um fedelho da Juventude Brizolista na época dele e hoje um deputado de direita na Presidência da Câmara. E ainda do Alexandre de Moraes e do Osmar Serraglio e de tantos outros.

Darcy nos faria rir, pelo menos, com seus safanões verbais tão precisos. Desabrido nos seus sentimentos e nas suas sensações, talvez elogiasse a beleza da primeira-dama Marcela. Mas, sem ele, o Brasil desinteressante do Temer não parece mesmo ser nada além disso – um país retrocedido e sem graça, com uma primeira-dama de boniteza europeia, que não pode ser elogiada pelo professor.

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A Saara, Raduan Nassar e o ministro

Fui duas manhãs seguidas à Saara esta semana. De um ponto de vista sociológico, ou quem sabe até antropológico, a Saara talvez seja o lugar mais interessante do Brasil. Ou, pelo menos, do Rio – onde ela fica e de onde nem cartão postal é.

Pra quem não conhece, é preciso dizer logo. A Saara é bem diferente do Saara. A começar pelo gênero. É feminina, ao contrário do deserto que lhe empresta o nome.

A Saara também se difere do Saara pela multidão que a atravessa todos os dias, carregada de sentimentos distintos, a partir das 9h, à exceção dos domingos, num cenário bem distante da vastidão de areia e de nada do Norte da África, com seus 9.065.000 km², área maior que a de países continentais como o Brasil, ou como a Austrália, ou a Índia, ou ainda quase do tamanho dos Estados Unidos, ou de todo o território da Europa Ocidental.

O Saara atravessa 11 países africanos e tem população dispersa, estimada pela ONU em cerca de 2,5 milhões de pessoas. Este número, além do nome, é a única interseção possível do Saara com a Saara, a nossa, por onde passa, por mês, quantidade quase igual de gente de todas as classes sociais.

A Saara, na verdade, é uma sigla formada pelas iniciais de Sociedade dos Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega, espécie de shopping horizontal a céu aberto, no Centro Antigo do Rio, onde a democracia se realiza e faz festa todo dia, e onde se encontra de tudo pra comprar – de calcinha miúda, vendida a R$ 5, a cocar de índio; de pastel com caldo de cana a sushi feito por coreano; de boa comida árabe a tecidos finos adotados pelas principais grifes da cidade; de pôster da Madonna a fantasia de Chacrinha.

Aliás, fui ali duas manhãs seguidas, esta semana, pra ver fantasias de carnaval – outra das muitas especialidades do comércio da Saara. Vi uma de um novo “super-herói” de oportunidade, o Super-Moro. Assisti à multidão comprando uniformes de presidiários, alusão à turma enrolada com a Lava-Jato. Revi máscaras do Neymar, sempre ele, e perucas sintéticas de todas as cores, e cuecas com a frase sexista e homofóbica “o que é do homem a bicha não come”, e capas de Batman, e quepes de policial, e capacetes de bombeiro, e saias de Mulher-Maravilha, e colares de búzios africanos, e rolos e mais rolos de chita multicolorida, e rostos de todas as cores, todas as cores, todas as cores, numa mistura radical e feliz da vida humana na Terra.

Criada por árabes e judeus, a Saara hoje também está cheia de coreanos, e esta misturação bem-vinda já chamou a atenção até da ONU pela convivência pacífica de seus comerciantes – a mesma ONU que estima a população do Saara, o deserto africano.

São retalhos da colcha de humanidades que compõem nações vira-latas como o Brasil, e que, certamente, comoveriam almas generosas como a do escritor Raduan Nassar, 81 anos, ele mesmo filho de imigrantes libaneses – como também são libaneses muitos comerciantes da Saara -, agraciado agora com o Prêmio Camões, dado anualmente pelos governos do Brasil e de Portugal a autores de língua portuguesa.

Raduan, que talvez não conheça a Saara, e só saiba dela de ouvir falar, é um brasileiro único. Deveríamos nos orgulhar bem mais dele. Bem mais.

Abandonou a literatura há uns 30 anos pra se tornar agricultor. Em 2012, doou sua fazenda, chamada Lagoa do Sino, no interior paulista, ao governo Dilma, com a exigência de que a União ali fizesse uma universidade com ênfase nos estudos agrícolas.

A universidade foi feita e transformou as vidas de jovens de cerca de 40 cidades da região. Que outro fazendeiro faria isso no Brasil? Não me ocorre nenhum. Raduan fez isso em silêncio, porque, por princípio, não dá entrevistas.

Suas aparições são raras, como foi a de agora, em que, já longe do fazer literário, mas com a literatura ainda nele, surgiu na cidade de São Paulo pra receber o Prêmio Camões 2016.

No discurso de gratidão pela escolha do seu nome, em cerimônia concorrida no Museu Lasar Segall, Raduan disse o que pensa do governo de Michel Temer, a quem chamou de “repressor” e de protagonista de “tempos sombrios”. Roberto Freire, ministro da Cultura do Temer, estava presente, não gostou e tomou as dores. Saiu em defesa do chefe e chegou a sugerir que Raduan devolvesse o prêmio.

Freire, como escreveu Fernando Brito no seu blog Tijolaço, é um político. Não é homem de cultura. Está no cargo por contingências de ocasião, mas o posto não está nele. Deveria, por isso, pensar muito antes de dizer qualquer coisa sobre Raduan, de quem, talvez, não tenha lido nenhum livro.

Uma vez, acho que nos anos 1990, Freire, sei lá a razão, foi parar no burburinho do Bip Bip, o boteco de Copacabana, num domingo de roda de samba. Alguém passou com um cachorro na calçada, e o bicho pareceu não gostar do político pernambucano, porque desandou a latir pra ele.

Freire ficou muito irritado e bateu boca com o dono ou dona do cachorro. O descontrole dele foi tanto que a roda de samba parou.

Eu estava no boteco, assisti a tudo, e nunca esqueci aquela cena. A discussão mostrou um pouco do temperamento do atual ministro. Hoje, aquela imagem me veio à cabeça de novo, quando soube da reação do Freire às críticas sinceras – e pertinentes – do Raduan Nassar ao governo Temer.

Homem e escritor grandioso, sujeito tão generoso e amigo dos bichos, pequeno imenso retalho da colcha de humanidades que compõem o Brasil da Saara, com sua gente multicolorida, Raduan foi agora, tanto tempo depois da cena de descontrole do Freire no Bip Bip, o cachorro que latiu pro ministro.

Não quer dizer nada. Mas talvez diga muito.

A reconstituição de Adalgisa

O mundo da cor do barro.
O barro de que fui feito.

Da vida, já fui esparro,
gramei de não ter mais jeito.

Sempre em busca de Adalgisa,
a tenra, a inalcançável.

A transmutada incisiva:
impura e inoxidável.

Pensei tê-la conhecido,
mas foi alucinação.

Seu vulto estava escondido
na sombra do coração.

Pensei tê-la achado, às vezes
– e, em todas, eu a perdi.

E quando a matei cem meses,
mil anos nela morri.

Adalgisa, a inachável,
fingia ser encontrada.

Até se tornar tocável
na sombra de uma escada.

Adalgisa, a imorrível,
a imatável, a sem fim.

A rediviva, invencível,
tão viva dentro de mim.

Uma garoupa morena,
sem tranças de Rapunzel.

Tão longa a curta melena
a me arrastar para o céu.

E, hoje, Adalgisa, digo,
já que agora é encontrada:

– Quer seguir, pronta, comigo,
desassombrada na escada?

Os seus peitos generosos,
sua bunda de cetim…

Os meus olhos, tão gulosos,
desejam tudo pra mim.

Brizola: ‘Eu tirei o dó da minha viola’

O cronista digital, nas suas viagens diante do teclado, foi surpreendido por um novo encontro com a lembrança de Leonel Brizola, desta vez interessado em falar da morte de dona Marisa Letícia, da prisão do ex-bilionário Eike Batista, da nomeação de Moreira Franco como secretário-geral de Temer, da reeleição de Rodrigo Maia à Presidência da Câmara, da escolha de Eunício de Oliveira como presidente do Senado e da indicação de Alexandre de Moraes pro STF na vaga de Teori Zavascki. O ex-governador do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul garante que, em vida, já havia “adiantado algumas destas notas, só agora escritas na partitura da política brasileira”.

Governador, o senhor continua acompanhando o que vai no Brasil?

Veja, Marcel. Como já te disse nas nossas últimas conversas, daqui de onde hoje assisto às coisas, já com a mansidão que a vida terrena não me permitia, eu me encontro, francamente, muito preocupado com alguns fatos que têm ocorrido.

Que fatos?

Primeiramente…

Desculpe interromper, governador. Mas o senhor também chama o Temer de “primeiramente”?

Creias que o meu primeiramente não é nenhuma referência a este Temer. Este Temer, que o grande establishment, não só o brasileiro, mas o establishment mundial, tu podes crer, este Temer, que o establishment mundial impôs ao nosso Brasil, arrancando a presidenta Dilma do seu mandato democrático. Mas, honestamente, não falo dele aqui. Dele, falarei mais adiante. O que é dele está guardado e eu vou dizer. Mas, primeiramente, eu quero é apresentar minhas condolências ao presidente Lula pelo passamento de dona Marisa Letícia, uma grande mulher que foi vítima deste tempo de ódio.

De que ódio exatamente o senhor fala?

A rigor, Doalcei, não apenas do ódio disseminado na internet, este instrumento perverso às vezes.

Desculpe corrigir. É Marceu, governador. Mar-cêu

Tu me perdoas. Sempre erro teu nome, não é verdade? Desde aqueles tempos em que tu eras repórter jovenzinho do velho “Jornal do Brasil”. Mas veja, Dirceu. O ódio de que eu falo é este disseminado não só nas chamadas redes sociais, mas no dia a dia das conversas e do debate político. Dona Marisa adoentada ali, e as almas venenosas alimentando comentários que nem me atrevo a reproduzir, como se quisessem abreviar o fim terreno da grande mulher do Lula. Isto machuca. Francamente, isto machuca! Eu, pessoalmente, me sinto ferido e sinto em mim a dor do Lula. De certa forma, vivi isso aí com a minha Neusa, que hoje está aqui comigo. Hoje, do plano em que estou, consigo compreender o sentido da palavra amor melhor do que quando aí estava. E recito pra ti o lema positivista do francês Auguste Comte, com quem mantive aqui alguns colóquios…

O senhor se tornou positivista? Como é isso?

Não é bem isso o que vos digo. Veja. Em vida, este lema não me cativava, mas hoje confesso que me desperta simpatia: “O amor, por princípio; a ordem, por base; o progresso, por fim.” Francamente, acredito que há hoje uma grande crise de amor na Humanidade. Em particular, nas nações que ficaram pela metade do caminho do desenvolvimento, como o Brasil. Honestamente…

O senhor…

Um instante, tu me perdoas por concluir. Que outra grande carência explicaria tanta perversidade com dona Marisa senão a da falta de amor? Uma mulher simples, livre de luxos, companheira do seu marido e aliada das causas democráticas desde as greves do ABC, citada por esses novilhos do Ministério Público e pelo juiz Moro por causa de titicas comezinhas? Tu me perdoes o termo, Alfeu.

O senhor acredita que a morte de dona Marisa pode comprometer a força política do Lula?

Francamente, não acredito. Acho que o Lula, lá nos seus aviamentos da costura política, tem linhas e agulhas de sobra pra confeccionar a cortina que vai separar o sofrimento privado da sua luta pública. Eu e o Lula tivemos grandes diferenças, tu sabes. Foram grandes diferenças! Mas nunca deixei de reconhecer nele o líder que é e sempre foi. Lula cometeu ali os seus pecadilhos, tisc…, cedeu a encantamentos que nós, a rigor, não cedemos. Mas jamais, jamais, veja Alceu, jamais o Lula deixou de ser o grande homem público com pensamento voltado para o Brasil. As vantagens que pode ter tido ao lado de dona Marisa por ter chegado à Presidência são calamacos e cangalhas. Ou nem isso! Ouso dizer que nem isso! Lula não participou da dilapidação promovida por seus críticos, que posam aí de “moretes”. Muito menos dona Dilma, que conheço bem.

O que são “moretes”, governador?

Com todo o respeito ao excelentíssimo juiz Moro, que faz lá o seu trabalho, mas muitas vezes parece inebriado pela fama e levado pelos arroubos da juventude, o que se vê aí é um desfile de “moretes”, uma legião de puxa-sacos que têm a barra das bombachas, eles sim, mais sujas do que bucho de barrasco, porque estão enterrados no lamaçal até os joelhos.

Quem são os “moretes”?

Veja, Orfeu. É só tu leres os jornais e assistires ao noticiário na TV, e não é só a Globo, que tanto me perseguiu. A imprensa parece dobrada de joelhos diante do golpe estabelecido. Nada é questionado com o rigor que deveria. Nada! A rigor, nada. A imprensa é comandada pelo Estado policial em que o Brasil se transformou. E mais. Basta pesquisar as fotografias recentes em que o juiz Moro aparece ao lado desta gente do PSDB e do PMDB. O PSDB é gado encaronado! Aliás, não é nem gado! Eles se dizem tucanos, mas são pavões! Basta ouvir um elogio que abrem suas plumagens e caminham balançando a cintura todos frajolas pra onde se aponta estar o melhor da festa. Na verdade, o PMDB é o líder da manada que desgraça o Brasil desde o fim da ditadura militar. São os filhotes da ditadura! São o entulho acumulado depois da obra feita! Os tucanos são a ala sofisticada do desfile, nada mais.

Mas o senhor não acha que…

Permita-me concluir, Nereu. Mas mesmo muitos destes “moretes” estão aí agora a prestar contas dos males que produziram. As prisões estão bem frequentadas, não é verdade? Este crédito eu dou ao juiz Moro. Não há dúvida. Mas faltam lá alguns destes “moretes”. No PSDB há alguns já borrados de medo do Moro, e por isso se comportam como “moretes”.

Do PMDB, o senhor fala do Sérgio Cabral e do Eduardo Cunha? E no PSDB? Não pode dar nomes?

Nomes quem deve dar é a Justiça. E tu é quem estás nomeando. Não sou eu. Mas que há outras batatas assando, ha-ha!, isso há.

De quem o senhor fala?

Não me queira mal por insistir em concluir meu raciocínio, Vizeu. Veja o caso do Moreira Franco, o gato angorá felpudo, acarinhado pelas elites do Rio de Janeiro no tempo em que nós éramos tão questionados. Este eu conheço bem. Ouço dizer que o Moreira teve o nome citado 34 vezes numa só delação de um diretor da Odebrecht nesta Lava-Jato. Veja, 34 vezes! Trinta e quatro!!! Francamente, vi como um escândalo a nomeação dele com status de ministro pelo Temer, livrando o amigo das garras do juiz Moro e lhe oferecendo o foro privilegiado do Supremo Tribunal. Sobretudo agora, com a indicação do careca para a vaga que foi do ministro Teori Zavascki, que é quem cuidava da Lava-Jato no Supremo.

O “careca” é o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes…

Sim. Nada contra os calvos. Eu mesmo perdi boa parte dos cabelos. Este Moraes eu não conheci aí, mas sei que é tucano e personagem secundário da intenção de uma nomeação política para o STF em meio a tudo isso que aí está. Outro dia, este Moraes estava aí a cortar pés de maconha como o capataz de um circo a ajeitar o terreno onde o seu patrão vai alçar a lona! O Brasil que sonhamos desde que calçamos nossas primeiras botas não admite uma nomeação assim para o Supremo Tribunal Federal. Honestamente, vejo como um insulto ao povo brasileiro! Francamente, tisc…, um insulto.

O que o senhor achou da prisão do Eike Batista?

A rigor, acompanhei com muita preocupação. Conheci o pai deste Êike, o Eliezer, engenheiro como eu, que presidiu a Vale, foi ministro do Jango e depois do Collor. Nunca dividimos a mesma cuia de mate. Mas, francamente, se este Êike transgrediu a lei, cedendo aos achaques da quadrilha de corruptos cuja chefia se imputa ao menino…

Menino?…

O menino Cabralzinho, que, até outro dia, estava aí, pimpão, homenageado pelas manchetes da imprensa. Olha, se este Êike fez o que dizem, que pague! Sinceramente, que pague! Mas, honestamente, acho que houve ali, na prisão dele, um certo excesso preocupante.

Como assim, governador? O senhor foi contra a prisão do Eike?

Veja, Eliseu. Fui governador três vezes, como tu sabes. Enfrentei com tranquilidade esses desafios e saí da vida pública mais pobre do que quando entrei. Mas ouvia aqui e ali os relatos do canto do pássaro, tudo entendes? Companheiros me diziam, com alguma tristeza, que, de cada 100 grandes empresários, 90 já haviam sido forçados a pagar ou quiseram pagar comissões para obter favores dos governos. Não sei se foi o caso do Êike. Isto o Ministério Público e o juiz Moro terão de dizer e provar. Mas prender só ele, e agora que se confessa arruinado?! Francamente! E da maneira humilhante como foi exposto?! A rigor, vejo a democracia já aviltada em perigo ainda maior. De minha parte, sempre estranhei a ascensão meteórica deste Êike e sua compulsão por se tornar cada vez mais rico. Sempre estranhei! Sempre estranhei! Era outro apresentado como herói pela imprensa. Talvez ele devesse ser investigado de outro modo. Mas tenho minhas dúvidas em relação à prisão dele da maneira como foi feita.

O senhor acha que ele não deveria ser preso? É isso?

Tu vais me perdoar, mas não é isto o que eu te disse. Se tu achas isso, escrevas tu. Não sou eu quem diz. De minha parte, acredito que ele e outros devessem ser punidos exemplarmente com o confisco de bens, a devolução de cada centavo tirado do povo e o banimento da vida pública. O banimento radical! Radical! Que o seu Êike, se for provado o já dito, não possa jamais abrir outra empresa ou fazer negócios com governos. E que nem conta em banco possa ter!

O que o senhor achou da reeleição do Rodrigo Maia como presidente da Câmara dos Deputados e da escolha do Eunício de Oliveira pro comando do Senado?

Uma lástima. Francamente, uma lástima. Este Rodrigo eu conheço desde que era um piá. Vivia ali, miúdo, barreando as calças do pai. É filho do César Maia, um ex-companheiro nosso que costeou o alambrado até se lanhar na cerca e bandear pro lado de lá e se assumir de direita. O outro, este Eulício…

Eunício, com “n”…

Que seja. O outro é um senador sem expressão, que, francamente, só está lá pra servir a um governo golpista. Não terá sequer o nome na História. Mas podes ter certeza de que a batata deles também vai assar. Na verdade, o que ocorre hoje no Brasil nós já há muito tempo prevíamos. Eu mesmo, quando aí estava, quis dizer isso ao Lula, que ele tomasse cuidado com esta elite incomodada com a ascensão dele. Infelizmente, ele não pôde me ouvir. Eu cá, com a minha viola, já havia tocado estas notas, compreendes? Eu cá já havia adiantado algumas destas notas, só agora escritas na partitura da política brasileira.

Como assim, governador?

Tu deves conhecer aquela cantiga, que diz: “Eu tirei o dó da minha viola, da minha viola eu tirei o dó.” Pois eu tirei o dó da minha viola. Tudo isso que hoje está aí configurado nós previmos. Com toda a humildade, nós previmos. Lula e Dilma não foram fortes suficientemente para impedir a volta dos que não foram, hoje liderados pelo Temer, que, a rigor, é um fraco, um produto raso do mal maior, um fantoche das elites e que só por elas vai agir.

Chamou a atenção seu comentário sobre o amor e o positivismo de Auguste Comte. O senhor poderia falar um pouco mais a respeito?

Com prazer, Perseu. Vejo que te interessou o tema. Deves estar apaixonado…

Quem falou de amor foi o senhor, governador.

Eu continuo sendo um homem apaixonado pela beleza no seu sentido mais amplo, nas relações políticas e também pessoais, e, especialmente, um apaixonado pelo Brasil. Parti daí, creias, Pitolomeu, amargurado com o que via, mas esperançoso no futuro. E assim me mantenho. Falei da carência de amor ao me referir aos maldizentes e aos malédicos de dona Marisa. Lula e dona Marisa viveram uma história de amor pessoal e pelo país onde nasceram. Meu coração já parado mantém aqui no meu peito o desejo do entendimento pelo bem comum e a indignação com a injustiça e o mal-entendido. Gostaria muito que o Lula recebesse meus sinceros sentimentos e soubesse do meu engulho com a injustiça perpetrada contra dona Marisa, a quem espero ver em breve e dizer isto pessoalmente.

Obrigado por mais esta entrevista, governador.

Eu que te agradeço. Morfeu.

Sobre a liberdade (ou carta ao meu pequeno amigo)

Eu tenho um pequeno amigo chamado Bernardo. É meu vizinho. Bernardo é um garoto miúdo, mal fez 12 anos, mas seu coração é grande, bem grande.

Outro dia, o meu amigo brincava com a criançada perto de casa quando viu uma mamãe gambá, que carregava um filhote nas costas e era seguida de perto por outro. A mamãe gambá se assustou com a algazarra dos meninos da rua e correu, deixando pra trás o filhotinho indefeso, que caminhava lento atrás dela.

Um dos garotos, encantado, cismou de pegar o filhote desgarrado, apesar do alerta do Bernardo:

– Não faz isso! Ela pode rejeitar depois!

Bernardo se encheu de atitude, tomou a frente da situação, recolheu o filhotinho com cuidado e o levou pra um canto, onde a mãe poderia vê-lo e, quem sabe, buscá-lo mais tarde. Mas não adiantou.

No  fim da noite, voltando pra casa com os pais depois de um passeio, o meu pequeno amigo relatou sua aventura e pediu que o deixassem ver se a mamãe gambá tinha resgatado o filhote. Não tinha. O bebezinho continuava lá, na sua existência indefesa e tão frágil, ainda de olhos fechados.

Bernardo implorou:

– Deixa eu levar ele pra casa, por favor, por favor, ele vai morrer, por favor, por favor!…

Tanto insistiu que comoveu a mãe e o pai. Faz uns 15 dias, ou quase. Desde então, Flor, nome que o meu amigo deu ao gambazinho, ou Xineném, apelido escolhido pela mãe, dorme no quarto dele, dentro de uma gaiola, de onde só sai, de três em três horas, pra ser alimentado pelo pai do Bernardo, orientado por uma vizinha veterinária, com uma mistura de leite, mel e frutas batidos no liquidificador, dados a ele ou ela, nem se sabe o sexo, com a ajuda de uma seringa.

Xineném cabe na palma da mão do meu pequeno amigo e só há pouco abriu os olhos. Praticamente, só acorda pra bocejar e comer – e, nos seus poucos momentos de consciência, desenvolveu pelo Bernardo um amor tão grande que se enrosca todo, ou toda, nos cabelos dele, e ali fica agarrado, como os gambás aqui da rua fazem na pelagem das mães.

O pai do Bernardo fez contato com uma patrulha ambiental e avisou ao filho que o mais novo inquilino da casa terá de ser devolvido daqui a pouco à natureza. Mas o meu amigo não se conforma e chora.

– Deixa eu ficar com ele, por favor, por favor, deixa eu ficar…

O meu amigo não sabe algumas coisas que eu também não sabia quando tinha a idade dele. A primeira é que o amor da gente e o das pessoas e também o dos bichos só cresce de verdade quando é livre.

Os gestos universais cometidos por todos nós ao longo da vida ensinam com muita clareza que os amores, as paixões, os desejos e ainda a ternura e o afeto e todos os sentimentos bons coincidentes entre dois seres – como esse nascido entre o meu pequeno amigo e o gambazinho – só prosperam, claro, com carinho e troca, mas a liberdade é o seu maior alimento.

Sem liberdade, eles, os amores, morrem. E quando nem a liberdade é suficiente pra produzir saudade – na gente, nas outras pessoas, nos bichos -, isso significa que é preciso deixar o outro seguir seu caminho.

Senão, esse outro não vai viver feliz. E quem ama de verdade, gente ou bicho, como o Bernardo e o seu Xineném, que confunde os cabelos do meu amigo com os pelos da mãe, enfim, quem tem adoração verdadeira nunca vai querer a infelicidade do dono ou dona do seu amor.

É algo de difícil compreensão mesmo. Gostar muito de algo ou de alguém, muitas vezes, traz junto o demônio do ciúme, o medo inútil de perder, a sensação destrutiva da posse, o egoísmo de querer só pra si. Deve ser assim com o meu pequeno amigo na relação tão bonita de afeto com seu gambazinho Xineném.

O Bernardo também tem um cachorro, e talvez entenda melhor a sua linda história com Flor ou Xineném se observá-la pelos olhos do seu vira-lata.

Porque o cachorro dele vai à rua e assiste à vida e avista a vizinhança e com certeza late pros gatos das outras casas e passeia no sol e vê as outras crianças – mas não troca o meu amigo por ninguém, e sempre quer voltar pra casa depois, porque lá tem carinho, abrigo e comida boa dados por alguém que gosta muito dele e o protege.

Erich Fromm, o psicanalista, filósofo e sociólogo alemão que encantou as academias do século 20 mundo afora com obras como “O medo à liberdade” e “A arte de amar”, escreveu assim: “No amor, ocorre o paradoxo de que dois seres sejam um, e, contudo, permaneçam dois.”

Ele também escreveu: “O amor imaturo diz: eu te amo porque preciso de ti. O amor maduro diz: eu preciso de ti porque te amo.” E ainda: “O amor é um ato de fé, e todo aquele que tem pouca fé também tem pouco amor.”

Talvez o Bernardo, um garotinho cheio de fé nas coisas essenciais da vida, leia um dia os escritos do Erich Fromm e os compreenda. Mas, por enquanto, ele apenas cede à projeção do banzo doído em que deve ficar quando tiver de se separar do seu pequenino Xineném.

Os passarinhos, os gambás, os macacos, os humanos não fomos feitos pra viver em gaiolas ou cercadinhos, sob o olhar de alguém que nos quer só pra si. O gambazinho do meu amigo já-já vai precisar da liberdade da mata, dos insetos que a habitam, das folhas, do chão molhado de chuva, e necessitar correr os riscos de ser livre e o perigo do insondável escondido atrás de cada tronco de árvore. Só assim ela ou ele vai crescer feliz, como o Bernardo deseja que ele ou ela cresça.

Mais ou menos como também vai acontecer com o meu pequeno amigo quando ele crescer um pouco mais.

Faz lembrar a história do menino recém-adolescido que, um dia, triste, confessou ao pai seu desconforto e seu desassossego com as liberdades do modo de vida da namorada, ela um pouco mais madura e já tomada pelos fogos femininos da juventude. O garoto, no fundo, só queria saber o que fazer pra prender a moça no cercadinho do seu abraço.

– O que eu faço, pai?

– Nada. Não faz nada.

Porque, nas coisas do amor – e o Bernardo vai poder entender um dia, talvez com algum sofrimento -, só a liberdade prende. A liberdade, o meu pequeno amigo vai saber, traz junto os favores da saudade. E quando nem a liberdade com os seus favores prender, como deve acontecer com o gambazinho Xineném na sua volta pra mata, é só porque não era pra ser como a gente pensava que deveria.

Sentimentos

Outro dia, no fim de uma sessão de “Eu, Daniel Blake” no Espaço Itaú de Cinema, na Praia de Botafogo, no Rio, uma mulher gritou “fora Temer!” como se buscasse um culpado pelo calvário do personagem-herói do bonito filme do britânico Ken Loach.

– Fora Temer!!!

Tudo que a gente faz é movido por sentimentos, eu pensei na hora. O sentimento que moveu aquela mulher deve ter sido raiva, ou um certo desapontamento conectado com a realidade dela mesma ou a de alguém querido, ou de revolta com o que ela tem visto de ruim ultimamente no Brasil.

Ou vai ver a motivação principal da moça foi só a vontade de se divertir mesmo, e rir um pouco, e fazer rir da situação geral e atenuar o desfecho sombrio do filme do Ken Loach.

Nem todo mundo na sala repetiu o grito dela, mas houve risadas, e ninguém se levantou pra defender o primeiramente, perdão, o presidente. Ou seja, ficou mais ou menos estabelecido, na saída do cinema, que a culpa pelo drama do Daniel Blake é do Temer mesmo.

O filme, como se sabe, conta a história do marceneiro sexagenário Blake, um analfabeto digital que luta contra a burocracia inglesa pra tentar receber o benefício do seguro-desemprego depois de sofrer um ataque cardíaco e ficar, por isso, afastado do trabalho.

Blake é um viúvo endurecido pela vida, mas de coração bom, e ajuda a puxar a cortina do Primeiro Mundo que esconde uma Inglaterra perversa e segregadora de seus pobres tanto quanto o Brasil. Na fila da Previdência Social britânica, lidando ora com funcionários robotizados e sem alma, ora com outros sensíveis mas impotentes diante do seu drama, ele conhece a mãe solteira Katie, que também padece com os dois filhos na busca por um benefício.

Os dois desenvolvem um amor mútuo, paterno e filial, e a interseção das suas duas vidas constrói a trama, que poderia ser rodada aqui mesmo, neste país do Temer e de milhões de Blakes e de Katies, onde já são quase 13 milhões de desempregados, reféns de uma Previdência desumanizada e agora às voltas com uma reforma ameaçadora.

O Brasil anda desinteressante e desesperançado, exatamente como o país descrito na história do Blake, e também já não parece causar orgulho, punido pela volta dos que não foram e pela nova ascensão dos sem-voto ao poder – e, como na narrativa do filme, o que nos salva são os sentimentos. Daí deve ter surgido o grito de desabafo da mulher no cinema.

Sentimentos bons como o do Blake pela Katie, e o da Katie pelo Blake, e ainda o dos filhos dela por ele, e o dele pelas duas crianças, enfim, sentimentos assim tornam o mundo mais interessante e nos socorrem nos momentos de maior dilaceração social e mesquinhez coletiva aguda, como agora.

Sentimentos como pareceu ser o da mulher no cinema são também libertadores. É deles, aliás, os sentimentos, que Daniel Blake e a jovem Katie e seus dois filhos se valem o tempo todo.

Às vezes, eu olho as pessoas na rua, e é como se estivessem todas se socorrendo dos sentimentos pra seguir em frente – a senhorinha no ônibus, a mocinha sentada logo adiante no banco do trem, o homem em pé no metrô, a balconista da padaria com seu olhar triste, a mulher de batom no táxi parado no sinal luminoso da esquina de Rua Alice com Rua das Laranjeiras, o ambulante na praia, o motorista do Uber, a caixa do supermercado, o garoto meio maluquinho que pede dinheiro no botequim, a multidão sem trabalho.

No fundo, somos todos Katie e Daniel Blake em busca de saciar nossas necessidades de algum benefício, de comer e beber e de amar um pouco. Andamos pelas cidades do país com olhos de quem deseja encontrar algo na esquina seguinte – os amores perdidos, os novos encontros, os recomeços, os meios de sobreviver, uma trilha do Ennio Morricone que nos console a alma sem afeto depois do incêndio no nosso Cinema Paradiso, a inocência do Forrest Gump, ou tudo isso junto, ou apenas um benefício previdenciário igual ao pretendido pelo Daniel Blake e pela Katie.

De um modo subjetivo, podemos encontrar isso num abraço ou numa troca de olhar, ou até na batida dos Tambores do Olokun, o bloco carioca de carnaval que une sagrado e profano no coração de quem ouve. Ou num passeio de mãos dadas pela noite do Aterro do Flamengo, ou na espera da criança que está pra nascer e mudar tudo nas nossas vidas, ou num telefonema inesperado, ou no grito de “fora Temer” dado por uma mulher desconhecida dentro do cinema.

Os sentimentos preenchem os vazios, amenizam ou potencializam as saudades, as faltas, a ansiedade pelo que ainda vem, a pressa e a lentidão que nos atrapalham ou nos põem no lugar certo na hora certa, como foi com Daniel Blake e Katie e com aquelas duas crianças.

Foi como eu compreendi “Eu, Daniel Blake”, e foi como ouvi pela primeira vez os Tambores do Olokun neste domingo de calor no Aterro do Flamengo.

Uma vez, uma mulher que eu nunca tinha visto na vida me pediu um abraço somente pra chorar com algum amparo. Ela só chorou e foi embora. Nunca esqueci o rosto dela.

Uma vez conheci um garotinho que vendia Embaré no trem (quase ninguém deve se lembrar do Embaré), a gente virou amigo, e logo depois ele morreu numa queda no trilho. Ele se chamava Isamir, e eu também nunca o esqueci.

Uma vez o Flamengo foi campeão do mundo, no Japão, e aquele dia ficou pra sempre na minha memória. Uma vez eu aprendi que os amores de verdade jamais acabam, mas suas dores, sim.

São assim os sentimentos. Sorrateiros, nos escolhem, não se deixam escolher. Na tela, favorecido pela coincidência de um encontro na fila da Previdência Social britânica, um sentimento mudou pra sempre a vida do Blake e da Katie.

Os sentimentos vagam soltos por aí, no ar, à espera de contaminar o nosso corpo e o nosso pensamento com suas consequências às vezes devastadoras, como talvez tenha sido com a moça que só queria um abraço pra amparar o seu choro; ou às vezes só libertadoras como o “fora Temer” da mulher indignada com a desdita do Daniel Blake na tocante história exibida no cinema.

Um ano

Nesta quinta-feira, 26 de janeiro de 2017, fez um ano que este blog nasceu. Desde então, fechadas as contas, o cronista digital foi lido em 111 países por 130 mil pessoas – a imensa maioria, claro, brasileiros desgarrados por aí.

É muito pouco diante do oceano infinito da internet, onde as equações são feitas na casa dos milhões. Mas o cronista sente um orgulho danado.

De lá pra cá, muita gente reagiu às coisas do blog pelas redes sociais e em mensagens privadas. Algumas dessas reações já foram publicadas aqui. Pra comemorar a data querida, segue uma nova seleção.

“Vou insistir. O seu nome é mesmo Marceu ou é Marcel?”

“Vem cá, não lembro se você já disse, mas Marceu é um heterônimo?”

“Não é que seu nome seja feio, mas… poderia ser pior, entende?”

“Morfeu, por onde anda Adalgisa? Escreva mais crônicas sobre ela.”

“Adorei suas ‘entrevistas do além’ com o Brizola. Faz uma com o professor Darcy Ribeiro. Ele talvez vomite ao falar do Temer e do Sérgio Cabral.”

“Detestei suas ‘entrevistas’ com o Brizola. Que ideia de jerico!”

“Morro Agudo fica na Bahia?”

“Morro Agudo fica no Ceará?”

“Morro Agudo é uma favela?”

“Você é homem ou mulher?”

“Desculpe perguntar, mas você é homo ou hétero?”

“Você é casado?”

“Quantos filhos você tem?”

“Quantos anos você tem? Parece tão jovem.”

“Suas crônicas parecem escritas por alguém mais velho.”

“Odeio quando você defende a Dilma.”

“Orfeu, adoro quando suas crônicas vão fundo na descrição desse golpe.”

“Sou brasileira, trabalho como garçonete em Paris e isso não tem nada a ver com o que eu queria dizer. Quer casar comigo? Tô brincando. Mas, se quiser levar a sério, pode!”

“Moro em Bogotá, brasileiro, trabalhando aqui. Suas crônicas, às vezes, são meio chatas. Mas sabe que eu gosto? Eu devo ser chato também.”

“O que o juiz Sérgio Moro te fez, cara?! Você é contra a Lava-Jato?!”

“Põe títulos com rimas nas suas crônicas. Isso atrai mais leitura. É sério! Experimenta pra ver.”

“Acho que já te perguntaram, mas vou perguntar também. Seu blog dá dinheiro?”

“Você tem Tinder?”

“Você não é normal. Em que tempo você vive, ô Alceu?”

“Você fala de coisas comuns. Isso é encantador.”

“Mais de 100 mil pessoas já te leram? Quanta gente idiota…”

“Ei! Eu sou essa leitora que você disse que tem aqui na Malásia!”

“A crônica que eu mais gosto é sempre a próxima. Obrigado por isso, Perseu.”

“Seu poema sobre a História do Brasil deveria ser usado em sala de aula.”

“Uma bobagem sem tamanho esse seu pretenso poema sobre a História do Brasil.”

“Publica uma foto da Adalgisa. Quero ver se ela é isso tudo mesmo.”

“Ainda não entendi se Adalgisa existe ou não existe.”

“Ouvi outro dia uma música sua na internet chamada ‘Meu saravá!’, gravada pela Clarice Magalhães. Você é macumbeiro?”

“O Marceu Vieira roteirista do ‘Adnight’ é você mesmo? Ou é um xará?”

“Seu nome é estranho. Mas eu gosto. Acho que gosto de coisas estranhas. Aliás, você parece estranho também.”

“Para de falar do passado! Que chatice.”

“Adoro quando você aborda coisas passadas.”

“No meu sítio, essa flor-de-santa-luzia cresce sem parar. Eu arrancava tudo, mas, depois de ler sua crônica, fiquei com dó.”

“Você escreve bêbado? Parece.”

 

Sobre o nascimento das coisas

Volta e meia, ainda acordado em casa quando a madrugada já é quase manhã, tento acompanhar o nascimento das flores do capim-de-santa-luzia que recolhi da rua e replantei num vaso no quintal.

Nunca consegui vê-las nascer. Mas acho de verdade que vou assistir a essa cena um dia. Não tenho pressa.

Deve ser um nascimento rápido e sem dor. Porque o capim-de santa-luzia floresce todo dia – e suas flores azuis, tão azuis, tão bonitas, duram só algumas horas. Logo fenecem quando o sol aquece muito a terra, pra desabrocharem novamente na manhã seguinte e na manhã seguinte e na manhã seguinte.

Fico tão curioso da existência desta flor tão simples, e ao mesmo tempo tão cheia de especialidades, que sempre pesquiso coisas sobre ela. Li no site do Jardim Botânico do Rio, por exemplo, que o capim-de-santa-luzia só não ocorre em três estados do Brasil, todos do Norte – Acre, Roraima e Amapá.

No mais, cobre todo o mapa brasileiro, bem como o dos Estados Unidos e os de outros países americanos, com a diferença de que aqui dá flor o ano todo, enquanto em lugares com estações mais definidas desaparece no inverno.

No Brasil, pelo menos no Rio, pelo menos aqui na rua, é planta que nasce em qualquer canto de meio-fio, capaz de sobreviver longo tempo sem ser aguada. Talvez por isso tenha o nome de capim.

Descobri num outro site, esse sobre essências florais, que o perfume extraído das pétalas do capim-de-santa-luzia tem poder de “cura de sentimentos renitentes”. Diz esse site que a essência da florzinha azul permite o “alinhamento dos corpos emocional e mental” e faz “o eu superior mostrar novas maneiras de olhar velhas situações repetidas pela força do hábito em nossos relacionamentos, trazendo a possibilidade de nos libertar desses padrões, muitas vezes cármicos”.

Será? Nunca usei o perfume pra comprovar, mas sei que a florzinha é bem bonita, e só se deixa ver de manhã. No resto do dia, a planta se desembeleza e só se parece mesmo com um capim.

Outra curiosidade é o nome. Ela se chama assim, claro, por causa da Santa Luzia, a mártir católica que viveu no século terceiro depois de Cristo e teve os olhos arrancados a mando do imperador romano Dioclesiano, por se recusar a abandonar sua fé – daí ser a padroeira dos oftalmologistas e a protetora dos olhos e, mais ainda, de quem tem olhos e não pode enxergar.

Dos relatos da sua canonização, consta que, a cada vez que os guardas do imperador Dioclesiano arrancavam os olhos de Luzia, novos olhos lhe brotavam ainda mais azuis.

Curiosamente, o botão que guarda a florzinha azul antes do seu nascimento se assemelha – e muito – com a pálpebra humana.

Segundo a crença católica, Luzia, na verdade Lúcia, recolhia o capim pra alimentar os cavalos subjugados pelos homens. Na Itália, na véspera de sua data (13 de dezembro, dia da morte dela, no ano 304 d.C.), as mães católicas incentivam as crianças a pôr um pouco de capim num prato e deixar sobre a mesa antes de dormir. De noite, diz a crença, Santa Luzia passa e leva o capim. Em troca, deixa no prato doces de presente pra criançada.

Na ciência, o nome da plantinha é Commelina angustifolia. Falo dela aqui não por motivação científica, muito menos religiosa, mas por uma reflexão renitente na minha cabeça estes dias, e que transborda no meu coração agora, sobre o nascimento das coisas – e se entenda por coisas tudo, tudo mesmo, inclusive os bebês, inclusive os sentimentos duradouros, e inclusive as rosas, e até a Rosa, e até a florzinha de Santa Luzia, que, apesar de não durar quase nada no seu ciclo de quatro, cinco horas, se muito, é infinita no seu renascer, todo dia, todo dia, todo dia, e na sua boniteza simples e tão azul.

A florzinha do capim-de-santa-luzia nasce toda manhã, insistente, de parto natural, na hora em que bem quer – que é como também nascem os bons sentimentos, gestados no nosso coração pelo tempo necessário, tão urgentes como a paixão, ou tão cheios de caprichos demorados como o amor.

*  *  *  *

Crônica dedicada à Rosa, menininha que vai nascer a qualquer minuto, a qualquer segundo, se já não tiver nascido quando estas palavras saídas com ênfase do coração do cronista digital forem lidas.

Sobre ciclos que terminam e outros que começam

Batman, o gato aí da foto, bonito toda vida, é tão curioso que sempre contempla o Rio do alto da Rua Cardoso Júnior, de onde vê Laranjeiras lá embaixo, oferecida e distante, parecendo uma maquete. Batman ensina sem saber.

Outro dia, fiz esta foto do Batman – e, desde que fiz, entrei nela e ainda não saí.

Há pouco tempo, o Batman cumpriu um ciclo na vida dele. Era um gato de rua, ou de outra casa, até escolher entrar por uma janela.

Todo mundo é um pouco Batman. Cumprimos ciclos e observamos a vida da janela – a de casa, as dos prédios que dão pra rua onde passamos, a do carro, a do ônibus, a do trem, outras janelas apenas subjetivas, como a da nossa alma ou a  da alma dos outros, abertas repentinamente pra gente ao menos ver ou imaginar o que vem depois.

Às vezes, o que vem depois é muito bom, e isso nos convida. O Batman foi. Viu a janela aberta e entrou. Hoje, assiste à vida dali, e parece se sentir feliz, sem querer voltar pro lugar de onde veio.

As mudanças de ciclo, separadas por janelas, também impõem perdas. Acho que o Batman sabe. Aí, pesamos essas perdas e as confrontamos com o que podemos ganhar ao atravessar uma janela – às vezes, só um pouco de esperança. E avançamos.

O Batman olha da sacada o que deixou pra trás ao decidir entrar numa nova janela. Os olhos dele dizem que não se arrependeu, embora seja livre bastante pra voltar atrás se quiser.

Invadi a foto do Batman, dela ainda não saí, e vejo lá embaixo um país acidentado e ruim. Um país onde o Batman em que me disfarço não deseja ter o papel conivente de quem descreve a realidade de acordo com a impressão dominante.

Assisto, pelos olhos do Batman, a uma cidade paralisada diante da incógnita de uma prefeitura não laica. Observo um estado refém de um governo pusilânime e temente a pilhadores aos quais seu principal ocupante até há pouco ainda servia.

Com os olhos emprestados do Batman, vejo um Rio que anda indecente e abjeto, apesar de tão belo, tão belo. Um que pune os velhos e os deixa sem dinheiro e ofende o pobre carente de hospital e escola com os efeitos da roubalheira de seus poderosos acobertados pela boa vontade do pensamento dominador, rico e branco.

O Batman não quer isso. Não queremos.

Vejo, pelos olhos do Batman, as rebeliões seguidas de chacinas nos presídios. Vejo a chacina do futuro na Uerj, crime hediondo que deveria ser punido com prisão.

Vejo a chacina do bom senso com a volta da febre amarela logo ali em Minas – e vejo também a chacina do voto e a da Previdência Social e a da saúde coletiva e a da educação pública, todas cometidas por políticos bolorentos, que eu não respeito (e o Batman também não), beneficiários da montagem de um troço já carimbado na História como golpe.

Assisto à chacina de alegrias e de tantos sonhos, frutos do egoísmo de uma elite política e econômica fedorenta sob seus desodorantes caros, tudo isso ocorrendo na cara da gente sem provocar nenhuma ou quase nenhuma rebelião na vizinhança, na rua inteira, no bairro, na cidade, no país, nas Laranjeiras observada aqui do alto pelo Batman. Por mim.

Muito difícil contar tudo isso senão de onde o Batman disfarçado nos olhos do cronista assiste à vida lá embaixo. O vento batendo nos olhos do Batman, a certeza de que a vida cumpre ciclos.

O ciclo da existência do ministro Teori Zavascky, interrompido na queda de um avião. O ciclo dos meninos da Chapecoense e o dos amigos que se foram.

Os ciclos se despedem e surgem sem que ninguém possa se dar conta do exato instante em que começam ou terminam, em qual janela. Os empregos, as pessoas que nos deixam e as recém-chegadas, a sequência das horas, os nascimentos, tudo é parte de algo bem maior. Os ciclos.

Daqui de onde eu e o Batman fundidos num só vemos as coisas, do alto de uma rua desimportante de Laranjeiras, o Rio oferecido lá embaixo com seus convites, os bons e os maus convites, nem tudo chama. Mas a janela já atravessada permite saber que a vida é um sopro – e que é preciso experimentá-la.

É preciso decidir ver o mar. Em algum momento, até a despedida do sol no horizonte, ou mesmo depois, sob o luar, é preciso. Talvez amanhã. Ou depois. É preciso.

É preciso decidir não aceitar o que agride e se render ao convite da possibilidade da alegria. É preciso voltar a Morro Agudo. Mesmo que não seja amanhã. Ou depois. Ou depois. Ou depois. Mas sempre.

O homem travestido de Batman decidiu guardar o passado na paisagem e abrir os olhos pro futuro além do cenário diante dele. Decidiu regar as plantas e beber um pouco. Não muito além do prazer.

Um ciclo termina e outro começa. O outono se despede e vem o inverno, e o inverno vai embora e vem a primavera, e a primavera prenuncia o verão e as coisas se reorganizam e o coração se reorganiza e a vida é reposta e refeita, e a gente segue.

Fábulas

Assisti outro dia a “Capitão Fantástico”, filme americano dirigido por Matt Ross, com jeito de independente, sobre a história de um casal que decide criar os seis filhos isolados da sociedade, livres do consumismo reinante nos Estados Unidos, num casebre no meio de uma floresta do Noroeste Pacífico. Apesar do argumento recorrente e da linguagem de fábula, a sequência de cenas, de quase duas horas, é tocante.

O pai, o tal capitão Fantástico, é vivido por Viggo Mortensen. Ben, seu nome, é um sujeito de esquerda, devoto das teorias do filósofo e linguista americano Noam Chomsky – e, de certo modo, simpático também à pregação de mundo ideal proposto por Karl Marx.

Ben e Leslie, nome da mulher dele, vivem num paraíso terrestre com sua criançada, até que o destino trapaceia e desarranja seus planos. Leslie desenvolve uma bipolaridade grave, desgarra-se da família pra se tratar no mundo formal, e, naufragada numa depressão, acaba se matando no hospital.

É a partir daí que o filme começa, já sem Leslie, com a jornada de um pai sonhador em viagem com os filhos, estrada afora, rumo ao Novo México, num ônibus transformado em motorhome, pra tentar evitar o funeral cristão da mulher e fazer valer o desejo dela, firmado em testamento, de ser cremada e ter as cinzas jogadas numa privada de um banheiro qualquer.

Ben é um cara bacana, de academia, dono de cultura extraordinária, e dedica a vida a transformar os filhos, de quem passa a ser o único professor, em seres humanos perfeitos. Mas quando é forçado a deixar o paraíso com suas crianças, a vida real desafia seu projeto e confronta a inocência da filharada a tudo o que ele havia ensinado.

O filme provoca uma reflexão sobre o amor e a liberdade, em especial sobre o amor e a liberdade nas relações humanas – mais especialmente ainda, por ser a temática da história, sobre o amor e a liberdade nas relações entre pais e filhos.

Leslie só aparece na tela já morta ou em algumas alucinações de Ben durante a longa viagem até o Novo México, onde o enredo, de fato, se desenvolve e vira um drama, desses capazes mesmo de emocionar e fazer chorar.

A família de Leslie culpa Ben pela morte dela. O sogro, que surge na história ainda apenas como uma voz de vilão ao telefone, pra depois se materializar e se humanizar, acusa também o genro de segregar seus netos e de roubar deles as delícias da vida americana.

Ao longo da história, embalada numa trilha sonora cheia de delicadeza, heróis e vilões vão trocando de papel, e só no fim as certezas se repõem.

As fábulas são sempre assim – perfeitas no início, depois sofrem turbulências que fazem chorar, e só no fim as certezas se recompõem.

Os melhores momentos da vida real são os que se parecem com as fábulas. Somos todos carentes delas. Mesmo os mais duros de nós.

A gravidez bem-sucedida de um casal apaixonado, por exemplo, é uma fábula, com seus momentos de dúvidas e inseguranças do pai e da mãe, até que o nascimento vem e dá início à vida real, entremeada por outras fábulas do dia a dia. Também é assim o início de um namoro, com seu estopim de paixão seguido de discordâncias previsíveis e desfechos de cena em que tudo fica bem depois (“onde você estava até essa hora que não me ligou?”). As amizades, os flertes, tudo.

Caetano Veloso tem uma canção chamada “Sete mil vezes” em que fala exatamente das fábulas, embora não cite isso na letra. Ele diz que “sete mil vezes tornaria a viver assim, transando sob as estrelas”, numa “hora grande”, com seus 60 minutos multiplicados e multiplicados e multiplicados, e que de tão multiplicados e multiplicados e multiplicados não passam nunca.

Também é do que trata Gabriel García Márquez no seu bonito romance “O amor nos tempos do cólera”, quando Florentino Ariza e Fermina Daza, já velhos, iniciam uma viagem de barco. Na compreensão de quem lê, a viagem vai durar pra sempre na eternidade de uma fábula.

A vida, os encontros, as descobertas, os governos – principalmente os comandados pela esquerda avalizada pelo Chomsky e por seu discípulo Ben -, tudo isso devia caber só no tempo eterno de uma fábula. As quase duas horas de “Capitão Fantástico”, que passam tão rápido e são cheias de encantamento, mostram isso.

Acho que vou assistir de novo.